Quando o nada substitui a memória

Não deixe de assistir: PARA SEMPRE ALICE (Still Alice)
Nota 7

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Eu já tinha apostado que Julianne Moore levaria o Oscar de melhor atriz mesmo sem ter assistido ao filme “Para Sempre Alice”. Acompanho o trabalho dela há anos e sempre a achei uma grande atriz. Por isso, já imaginava que um filme tão focado no drama da personagem principal, interpretada por Moore, seria provavelmente também muito bom.

Mas foi mais que isso. “Still Alice” me tocou profundamente e, passados vários dias desde que o assisti, ainda me vejo pensando em algumas cenas mostradas no filme. Talvez porque eu considere o Alzheimer uma das doenças mais cruéis que existem, para o adoentado e para os que o amam e cercam. Talvez porque eu tenha acompanhado — não com tanta frequência nem tão de perto, mas acompanhei — esta doença corroendo a memória e a personalidade da minha avó paterna durante vários anos, até sua morte. Ou talvez ainda porque eu sempre tenha considerado a minha própria memória muito particular (para o bem e para o mal) e sempre tenha tido uma relação de temor diante do que meu cérebro me permite ou não lembrar.

Não é raro eu estar contando alguma coisa — moedas, por exemplo –, e perder a conta do nada, sem perceber: “um, dois, três, quatro (…), trinta e dois, trinta e três, trinta e quatro, vinte e cinco (!), vinte e seis…”. Daí me vejo naquela confusão: ops, será que aconteceu de novo? Pulei uma parte? Ou voltei para trás no meio da contagem? E tenho que começar de novo, redobrando a concentração. Ou seja, a memória é um bem que considero muito precioso, temerário e que sempre me interessou mais que o normal, eu acho. Sempre fui muito nostálgica e sempre guardei o medo secreto de, algum dia, ficar como minha avó.

No começo, vovó Angélica sabia quem eu era quando ia visitá-la. Contava muitas histórias da infância, embora pouco se lembrasse sobre o dia de hoje. Depois, ela começou a me reconhecer só pelo sorriso, mas sem saber quem eu era. Eu chegava de viagem, sorria para ela, e seu olhar se iluminava, demonstrando reconhecimento. Era a “menina do sorriso”. Aí eu me apresentava e ela guardava a informação, por aquele dia. Por fim, deixei de ver essa luzinha em seu olhar: ela já não se lembrava de nada. Até o final mais triste de ver, quando ela não se lembrava nem de quem era ela própria, de como falar, de como se virar na cama. É uma doença que tira a vida e a substitui por um apagão, o que só mostra como a memória é fundamental para sermos quem somos.

Julianne Moore interpreta quase todos esses estágios com muita perfeição. Dos pequenos lapsos iniciais, às confusões mais graves (onde estou?), chegando àquele ponto em que é difícil de conviver, porque ela deixa de reconhecer os outros, navega entre o presente e o passado em segundos etc. E a atriz é brilhante nesse papel. A gente só assiste e chora.

Fora a atuação de Moore, o filme não tem nada de muito destaque. O roteiro não é brilhante, os outros atores estão só OK, a história passa lentamente, não há muitas ousadias, e os demais personagens são rasos — parece que o roteirista não quis criar muito mais conflito para não ofuscar o principal, o Alzheimer. Mas nada disso importa muito, em se tratando de um filme que finca marcas tão profundas na gente sobre o que é a doença que se quis retratar. É aquilo, sem tirar nem pôr. Palmas para Julianne, que teve a sensibilidade para captar — e transmitir — até o nada.

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Nota 8

Todo mundo só se lembra da geração do rock. Os hippies dos anos 60 e 70, doidões, que usavam todo tipo de drogas, defendiam o amor livre e morriam bem cedo, mas antes deixavam livros e músicas maravilhosos, para nosso desfrute.

Antes deles, no entanto, ainda nos anos 40 e 50, houve a geração do jazz. Os mestres do bebop injetavam heroína a cada oportunidade, bebiam torrentes de álcool, já atraíam as precursoras das groopies, mesmo as brancas (estou falando de um Estados Unidos absolutamente segredado ainda), e tocavam maravilhosamente todas aquelas improvisações livres. Também morriam cedo, diga-se.

E décadas antes houve adeptos de outras drogas, jovens que firmaram movimentos como o do Romantismo, figuras como o Marquês de Sade (também do século 18) etc etc.

Podemos voltar aos primórdios da humanidade e sou capaz de apostar que sempre houve um grupo de jovens com o coração acelerado, uma vontade desregrada de se libertar das correntes morais, estéticas e/ou políticas de sua época, que usavam e abusavam de drogas e álcool e, muitas vezes, para nossa sorte, produziam belíssimas obras de arte que ficariam para a posteridade.

É claro que eles acabaram cumprindo o mandamento romântico de morrer jovem (e fazer um cadáver bonito) e que não é preciso tanta fúria e tanta loucura para produzir belas obras. Mas foi assim que alguns funcionaram durante sua breve passagem pelo mundo.

É o caso de Jack Kerouac, que viveu só 47 anos.

Antes, ele deu a volta pelos Estados Unidos e México, ao som de jazz, também movido a drogas e álcool e milhões de cigarros, acompanhado de mulheres das mais liberais, seguindo a poeira de estradas míticas como a Route 66, que corta o país de leste a oeste.

Depois de fazer isso, acompanhado dos personagens mais surpreendentes, ele escreveu um clássico que fundou a chamada “geração beat”, e que li em 2007 (mesmo ano em que li outros importantes complementos, como “De Vagões e Vagabundos”, do Jack London, “Travessuras da Menina Má”, do Mario Vargas Llosa, “Servidão Humana”, do Somerset Maughan, “Lavoura Arcaica”, do Raduan Nassar, “Dias e Noites de Amor e de Guerra”, do Eduardo Galeano, “As Cores da Infâmia”, de Albert Cossery e “Madame Bovary”, de Flaubert, além da autobiografia do B.B. King): “On The Road” (traduzido no Brasil como “Pé na Estrada”).

A história se passa no fim dos anos 40. E, mesmo nessa época, já vemos os brancos pirando junto com os negros — graças ao jazz, e como aconteceria mais fortemente com o rock –, e toda sorte de liberalidades que até hoje são vistas com o olho torto do tabu. Tudo num texto escrito de forma vigorosa, com muita fluidez, como se tivesse sido jorrado, não datilografado (e quase é o que aconteceu, porque reza a lenda que Kerouac escreveu tudo de uma vez, provavelmente movido a benzedrina e café, praticamente sem edição). O resultado é um texto com cara de solo de jazz. (Algo como neste outro).

Pois bem. Li há cinco anos, já tinha me esquecido de quase tudo, mas ver o filme de Walter Salles foi como reler o livro. O espírito de road movie é perfeito (ele aprendeu bem em Diários de Motocicleta). Os dois atores principais encarnaram Sal Paradise e Dean Moriarty como se tivessem nascido na pele deles (e são ambos quase-novos no cinema, mas espero que tenham vindo pra ficar). E ainda há ótimas atuações de Kristen Stewart, como Marylou (diz que ela é da saga “Crepúsculo”, mas prefiro lembrá-la por outro road movie maravilhoso, “Na Natureza Selvagem“), Kirsten Dunst, como Camille, e a rápida aparição do Old Bull Lee, vivido por Viggo Mortensen (do recente “Um Método Perigoso” e da trilogia “O Senhor dos Anéis”).

Há quem vá ver este filme e o deteste. Normal, e até compreensível. Mas, se este vier a ser seu caso, deixo uma dica final: feche os olhos e aproveite a maravilhosa trilha sonora, cheia de jazz e blues — bem como Kerouac teria aprovado.

O que fica, para mim, vendo esses gênios da literatura, da música e do cinema que destruíram suas vidas tão rápida e intensamente, é o seguinte: é bom e recomendável manter nossa sanidade mental, mas os loucos que passaram pelo mundo, cada um com seu atordoamento próprio, foram fundamentais para chegarmos onde já chegamos. (Que estejam num mundo mais criativo e alegre que este em que vivemos.)