Os loucos do mundo (que passam pela vida como fogos de artifício)

Para ver no cinema: NA ESTRADA (On the Road)

Nota 8

Todo mundo só se lembra da geração do rock. Os hippies dos anos 60 e 70, doidões, que usavam todo tipo de drogas, defendiam o amor livre e morriam bem cedo, mas antes deixavam livros e músicas maravilhosos, para nosso desfrute.

Antes deles, no entanto, ainda nos anos 40 e 50, houve a geração do jazz. Os mestres do bebop injetavam heroína a cada oportunidade, bebiam torrentes de álcool, já atraíam as precursoras das groopies, mesmo as brancas (estou falando de um Estados Unidos absolutamente segredado ainda), e tocavam maravilhosamente todas aquelas improvisações livres. Também morriam cedo, diga-se.

E décadas antes houve adeptos de outras drogas, jovens que firmaram movimentos como o do Romantismo, figuras como o Marquês de Sade (também do século 18) etc etc.

Podemos voltar aos primórdios da humanidade e sou capaz de apostar que sempre houve um grupo de jovens com o coração acelerado, uma vontade desregrada de se libertar das correntes morais, estéticas e/ou políticas de sua época, que usavam e abusavam de drogas e álcool e, muitas vezes, para nossa sorte, produziam belíssimas obras de arte que ficariam para a posteridade.

É claro que eles acabaram cumprindo o mandamento romântico de morrer jovem (e fazer um cadáver bonito) e que não é preciso tanta fúria e tanta loucura para produzir belas obras. Mas foi assim que alguns funcionaram durante sua breve passagem pelo mundo.

É o caso de Jack Kerouac, que viveu só 47 anos.

Antes, ele deu a volta pelos Estados Unidos e México, ao som de jazz, também movido a drogas e álcool e milhões de cigarros, acompanhado de mulheres das mais liberais, seguindo a poeira de estradas míticas como a Route 66, que corta o país de leste a oeste.

Depois de fazer isso, acompanhado dos personagens mais surpreendentes, ele escreveu um clássico que fundou a chamada “geração beat”, e que li em 2007 (mesmo ano em que li outros importantes complementos, como “De Vagões e Vagabundos”, do Jack London, “Travessuras da Menina Má”, do Mario Vargas Llosa, “Servidão Humana”, do Somerset Maughan, “Lavoura Arcaica”, do Raduan Nassar, “Dias e Noites de Amor e de Guerra”, do Eduardo Galeano, “As Cores da Infâmia”, de Albert Cossery e “Madame Bovary”, de Flaubert, além da autobiografia do B.B. King): “On The Road” (traduzido no Brasil como “Pé na Estrada”).

A história se passa no fim dos anos 40. E, mesmo nessa época, já vemos os brancos pirando junto com os negros — graças ao jazz, e como aconteceria mais fortemente com o rock –, e toda sorte de liberalidades que até hoje são vistas com o olho torto do tabu. Tudo num texto escrito de forma vigorosa, com muita fluidez, como se tivesse sido jorrado, não datilografado (e quase é o que aconteceu, porque reza a lenda que Kerouac escreveu tudo de uma vez, provavelmente movido a benzedrina e café, praticamente sem edição). O resultado é um texto com cara de solo de jazz. (Algo como neste outro).

Pois bem. Li há cinco anos, já tinha me esquecido de quase tudo, mas ver o filme de Walter Salles foi como reler o livro. O espírito de road movie é perfeito (ele aprendeu bem em Diários de Motocicleta). Os dois atores principais encarnaram Sal Paradise e Dean Moriarty como se tivessem nascido na pele deles (e são ambos quase-novos no cinema, mas espero que tenham vindo pra ficar). E ainda há ótimas atuações de Kristen Stewart, como Marylou (diz que ela é da saga “Crepúsculo”, mas prefiro lembrá-la por outro road movie maravilhoso, “Na Natureza Selvagem“), Kirsten Dunst, como Camille, e a rápida aparição do Old Bull Lee, vivido por Viggo Mortensen (do recente “Um Método Perigoso” e da trilogia “O Senhor dos Anéis”).

Há quem vá ver este filme e o deteste. Normal, e até compreensível. Mas, se este vier a ser seu caso, deixo uma dica final: feche os olhos e aproveite a maravilhosa trilha sonora, cheia de jazz e blues — bem como Kerouac teria aprovado.

O que fica, para mim, vendo esses gênios da literatura, da música e do cinema que destruíram suas vidas tão rápida e intensamente, é o seguinte: é bom e recomendável manter nossa sanidade mental, mas os loucos que passaram pelo mundo, cada um com seu atordoamento próprio, foram fundamentais para chegarmos onde já chegamos. (Que estejam num mundo mais criativo e alegre que este em que vivemos.)

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Algumas coisas que quero fazer antes de morrer

Desculpem o post estilo ESTAS BOBAGENS, mas é que estou ouvindo um DVD do Ray Charles ao vivo no Festival de Montreux e me ocorreu como eu gostaria de ir a um desses antes de morrer. Aí fui lembrando de outras coisas e concluí que, em algum momento da vida, vou ter que ganhar MUITO dinheiro, pra conseguir realizar todos estes sonhos:

  • Cobrir uma guerra.
  • Ir a um pub de Chicago para ouvir alguma bandinha local de blues, que tenha aprendido com alguns dos mestres antes de morrerem.
  • Ir a algum pub de New Orleans pra ouvir alguma bandinha local de jazz que tenha pianinho, sax e uma vocalista com a voz da Cassandra Wilson (que é do Mississippi, aliás).
  • Ver o Eric Clapton tocando (outubro tá aí!).
  • Cruzar a rodovia 66 de ponta a ponta, como os caras de On The Road fizeram (mas sem todas aquelas drogas).

  • Passar por toda a rota do vinho da Califórnia, como os caras de Sideways fizeram (e com todo aquele vinho).
  • Subir a BR-101 de sul a norte, parando em várias praias desconhecidas.
  • Cruzar o Expresso Oriente de ponta a ponta, com os meus pais.
  • Cruzar a Abbey Road, só pra falar que cruzei. E descalça, como o Paul 😉

  • Conhecer a Praça Vermelha de Moscou e conhecer São Petersburgo.
  • Conhecer todo o leste europeu.
  • Conhecer Machu Picchu e o Deserto de Sal da Bolívia e o México.
  • Conhecer o Pantanal e a Amazônia.
  • Conhecer Moçambique e Angola; e Marrocos e Egito.
  • Ver de pertim um daqueles ursos das Montanhas Rochosas canadenses.

  • Entrar numa sauna no meio de uma floresta e em frente a um lago congelado da Finlândia.
  • Andar em cima de um elefante na Índia.
  • Voar de balão em Paris; descer de parapente ali na Serra da Moeda mesmo.

(E o post nunca vai acabar, porque sonhos são um novo por dia ;))