O expurgo

Estávamos em cinco, carro em alta velocidade, a intenção de cumprir em 50 minutos o percurso até o destino final, em Santos.

Santos. Cidade conhecida por seus prédios tortos, por sua areia feia, pelos canais que levam até a praia, pelos muitos habitantes idosos. E, sim, pela violência cada vez maior, como em toda a Baixada.

De dia, achara Santos formidável. Minha vontade era visitá-la muito mais, inclusive por ser tão perto da Terra Cinza, mas com aquele calçadão, aquela maresia. Praia é praia. Um dia descobri que há ônibus a cada 15 minutos para lá, que custam menos que o pedágio de carro, e que a Imigrantes, fora dos feriados de sol, costuma ser uma ótima rodovia.

Mas eis que era noite, madrugada até, e a Imigrantes estava fechada. A Anchieta descia lenta, com seus vários caminhões e curvas e escuridão de mata nativa. De dia, tão mais bonita. À noite, apenas incômoda.

Ainda naquela rodovia, quando todos estavam num raro momento de silêncio, eu distraída digitando uma mensagem no celular, vemos o carro diminuir velocidade.

“O que será? Um acidente?”, pergunto.

“Não, é só uma obra mesmo.”

Continuo com minha distração, alheia ao que estava acontecendo fora. Rezam os mais observadores que carros à nossa frente começaram a dar marcha a ré, enquanto outros tentaram acelerar, em vão.

Até que, como se fosse uma cena de filme que eu estivesse assistindo, um episódio de “Law and Order”, algo muito fora da minha realidade, ouço dois jovens aos berros, arma apontada em nossa direção. “PERDEU! PERDEU!”

O motorista para o carro, todos com a certeza de que os sujeitos queriam roubar o veículo. Alguns segundos em suspensão, ninguém muito certo do que estava acontecendo — ou falo por mim.

“Passa tudo aí! Passa a bolsa! Passa a carteira! Passa tudo!”

Ainda como se não fosse comigo, pego a bolsa que estava no meu colo e, indecisa sobre se deveria entregá-la, acabo por colocá-la no chão do carro. O vidro da minha janela está todo aberto, vento forte batendo na minha cara, e o moleque — pouco mais que um garoto, bastante trêmulo e nervoso — continua exigindo as coisas, aos berros, perdido entre todos os passageiros do carro. Sua arma a alguns centímetros de distância da minha cara, mas não a observo, não sei dizer se está apontada para mim, não quero saber.

Estendo o celular, mas ele também não vê, parece ocupado com o dinheiro sendo entregue no banco da frente. Penso bem, “uai, ele não pegou”, jogo o celular no chão do carro, com a bolsa.

Ele se volta pra mim, continua gritando, o outro, mais exaltado, não para de falar “ATIRA! ATIRA!”, abro a bolsa e tiro a carteira de dentro. Entrego a ele, relutante, pensando vigorosamente no que havia lá dentro que pudesse ser importante para mim.

Depois de pegar minha carteira e outras duas, mais o dinheiro de uma quarta pessoa, eles vão embora, prosseguem em seu arrastão, arma agora estendida para um caminhoneiro atrás.

Ou melhor, é isso que me dizem. Eu não vejo nada. Ouço o colega gritar: “Acelera! Vamos embora!”, meio abaixado, como se pudesse receber um tiro a qualquer momento. Imitando-o, me abaixo também, meio de costas, pensando como aquela posição não me protegeria de nada, se algo tivesse que vir. Depois pensei como seria a dor de tomar um tiro, se um tiro nas costas causa morte, em quanto tempo chegaríamos a um hospital.

Ali era ainda a maldita Anchieta, limite entre Santos e Cubatão, num bairro chamado São Manoel. Eu não sabia de nada disso, ainda alheia e ignorante, mas ouvi meu colega dando essa explicação ao atendente da central de polícia, para quem ele ligava.

Carteira velha, CNH, dois cartões de banco, cheques, carteirinha do Sesc, do plano de saúde, do clube, de livrarias, uma foto da minha sobrinha, uma moeda da sorte, fotos 3×4, cartões profissionais, menos de R$ 10.

“Se deram mal com esse roubo.” Mais tarde, quando a tensão já tinha passado, dei risada com a frustração que devem ter sentido ao abrir minha carteira e só ver R$ 10.

Mas naquela hora eu ainda estava começando a processar a informação de que não foi um filme, não foi Law and Order, aconteceu comigo e alguém apontou uma arma pra minha cara em troca daqueles R$ 10 e de outros pertences que não entreguei, agindo exatamente como a regra das reações a assaltos manda que a gente não aja. Mas quem sabe como reagir? Por que aqueles dois garotos atirariam em mim? E por que não?

Só muito depois, quando eu já estava pisando num chão, uma corrente elétrica passou por meu corpo, que não parava de tremer. Vieram me abraçar, uma amiga estava com os olhos cheios de lágrimas.

Mas ainda não parece real. E, às vezes, me vejo perguntando: e se tivesse sido?

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22 comentários sobre “O expurgo

  1. ohh Cris, sinto muito! vc ta bem agora?
    Já passei por uma situação assim e demora um pouco para voltarmos ao normal.
    se precisar de algo me fala, vou correndo te ajudar.
    bjs,
    Clara

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  2. É difícil tentar gostar deste país com essas coisas acontecendo todo dia, toda hora em qualquer lugar. E pensar que existem países inteiros onde isso é realmente apenas episódio de Law and Order. Enquanto isso, nossos legisladores continuam fazendo Leis para um país que não existe e deixando nosso país sem Leis que funcionem, confundem direitos humanos com permissividade. Mas seu pai tem razão Cris, você se saiu muito bem e todos esperamos que seja a primeira e última vez.

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  3. Que situação ruim e assustadora… Pior é que não deve ter sido nem o primeiro nem o último arrastão ali, e as coisas ficam como estão… Como se a gente tivesse que se adaptar com esse tipo de realidade, e tratá-la como um coisa banal…. Revoltante…

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  4. Olá, também fui assaltado na Anchieta no dia 25/07/2012, bem na divisa entre Santos e Cubatão por volta de 18:40. É uma situação muito chata e as vezes me arrependo de não ter passado em cima daquele moleque FDP.

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  5. Não tinha obra nenhuma naquele momento, o trânsito estava lento apenas. Fiquei cerca de 20 minutos naquele anda não anda e quando percebo já estava sendo assaltado. O que me deixou mais preocupado foi o fato de que após ser assaltado eu parei na polícia rodoviária da Imigrantes para avisar sobre o arrastão. Até aquele momento ninguém tinha avisado a policia (pelo menos foi o que me disseram, não sei se acredito). Eu fui assaltado no sentido São Paulo. Durante a semana conversando com o pessoal da empresa onde trabalho, em Santos, me disseram que nos últimos 15 dias já aconteceu pelo menos 3 arrastões naquele mesmo local. Pagamos pouco pelo pedágio para não termos um mínimo de segurança, não acha? Passado o susto já estou melhor, mas cada vez que passo naquele local me dá calafrios.Abraço.

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    • Também não quero passar por lá tão cedo de novo. No meu caso, foi no sentido de Santos. Dizem que os assaltos são comuns mesmo ali. Mas não me estranha tanto a polícia não ter sido notificada quando vc a procurou, porque muita gente deixa pra lá e não registra B.O., o que é um erro, porque disfarça um problema de segurança e deixa as estatísticas muito melhores do que são de verdade. Eu registro B.O. sempre-sempre, não quero dar essa canja pros nossos governos.

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  6. Ola, meu nome é Livia. Assim como vcs, tb fui assaltada no dia 25, sentido Santos – SP. Foi horrível tb. Espero que alguém tomo alguma providência.
    Uma pena…

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    • Oi, Lívia, espero que esteja bem e que não tenham levado nada muito importante também…
      Foi de madrugada mesmo? Vc registrou o B.O.? Chamou a polícia na hora?
      Não sei se agora a polícia está colocando viatura no local da obra, será?
      abraços

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  7. Ola Cristina.
    De muito “valor $$”, até que não foi muito..
    Mas, de “valor profissional” foi bastante… todos os arquivos do meu note..
    Faço Pós Doutorado na Unifesp Santos e tudo que venho trabalhando nos últimos meses estavam lá. Tenha backup em duas pen drive .. que estavam na bolsa e se foram..
    Espero que a polícia coloque viaturas sim.. pois eu que faço Bate e vola SP Santos quase todos dias.. e estou morrendo de medo agora.
    Isso aconteceu às 18:20 do dia 25. Três homens armados me abordaram com armas grandes. Foi horrível….
    Fiz BO quase 2 horas após (fiquei parada no transito por horas ainda) e até aquele momento, ninguém havia registrado nada.
    Só Deus para nos proteger viu… lamentável…

    BJs

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    • Nossa, Lívia, que horror! Sinto muitíssimo pela sua perda, foi grave mesmo. E, para eles, não terá valor nenhum.
      Eu fui assaltada de madrugada ali, durante uma obra, por volta da 1h30 do dia 25. Mas o Fabio, que também comenta aqui, diz que foi assaltado no mesmo horário que vc, com o trânsito congestionado. Pelo que entendi, ele foi para a PRF, em vez de ir ao DP. Mas muita gente deixa de registrar o B.O. mesmo, o que é um problema, porque acoberta a existência dos crimes, inclusive estatisticamente.
      Como vc faz esse trajeto todos os dias, sugiro que guarde sua bolsa agora sempre no porta-malas, no máximo deixe um dinheirinho no porta-luvas pro caso de te ameaçarem (porque não entregar nada talvez seja pior). E também guarde um backup, a partir de agora, em arquivos de compartilhamento virtual, como o Google Docs, para vc nunca ficar na mão caso levem seus pen drives ou laptop. Infelizmente, temos que ficar pensando nesse tipo de coisa hoje em dia 😦
      bjos

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  8. Cristina, pelo número de assaltados na região, os assaltantes já sabem que num certo horário há um apagão policial. Lamento o que lhe aconteceu. Você agiu certinho, como seu pai disse. Muita calma e observação dos detalhes. O resultado pior disto é a insônia que ocorre.. Procure esquecer o fato, só guarde a experiência, para ir se saindo cada vez mais seguramente desse tipo de situação decorrente da falta de segurança.

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