Os vigilantes da água

chuveiro

— 29 minutos!, exclama, desligando o cronômetro.

— O quê, pai?

— 29 minutos de banho! É um absurdo!

Com o ouvido colado à parede, ele escutava atentamente o barulho da água no encanamento que divide com o apartamento ao lado.

Preocupado, telefona ao vizinho do bloco B:

— 29 minutos de banho! Cronometrados!

— Pois meu vizinho hoje gastou 32 minutos e meio. Pior: deram duas descargas só nesse período de tempo.

— Isso não pode mais continuar! Vamos convocar uma reunião.

Antes de ligar para o síndico, ele se senta no computador e abre a planilha. Anota: “31 de janeiro de 2015. Apartamento 32, bloco A. Banho: de 10h25 a 10h54. Sem interrupção para passar sabonete e xampu.”

Percorre a planilha inteira, cada vez mais assustado. Número total de descargas na semana: 102. 15 litros de água por descarga; total: 1.530 litros de água desperdiçados. Minutos de banho por semana: 630! 5.670 litros de água no ralo! Isso só nos dois apartamentos que vigiava.

Disca para o síndico:

— Oi, sou eu, do 33A. Precisamos marcar uma reunião de emergência entre os vigilantes da água. Sim, agora. A situação está insustentável. Só nesta semana, 7.200 litros desperdiçados. Sem contar o tempo de lavar vasilhas e faxinar a casa, que ainda não estimei. No bloco B a situação está ainda pior. Precisamos emitir um alerta vermelho.

Todos os vigilantes são contactados e, em coisa de 5 minutos, reúnem-se no apartamento do síndico. O clima é tenso, todos com o olhar sombrio. Algo precisa ser feito! Não dá mais para continuarmos assim!

— Estou sem tomar banho há três dias, lamenta um deles, e esses folgados ficam meia hora debaixo do chuveiro.

(Realmente, o perfume que vem dele é francês, dos mais fortes.)

— Eu separei uma privada só para xixi, outra para o número 2. Na primeira, não damos descarga há um mês! Está parecendo banheiro de beira de estrada, mas fazemos tudo pela consciência. Enquanto isso, meus vizinhos do bloco C dão descarga a cada cinco minutos, aposto que para descartar lixo!

E assim seguem os protestos.

O síndico, depois de ouvir tudo, promete divulgar um alerta para todos os condôminos. Avisaria que o prédio tem vizinhos conscienciosos, que estão vigilantes quanto ao desperdício. Mas, claro, sem dizer que existe o grupo secreto dos vigilantes da água. Todos vão para casa mais tranquilos.

Na mesma noite, o aviso é pregado em todos os murais, elevadores e paredes do condomínio. É também distribuído debaixo das portas e pelos porteiros:

aviso

 

Alguns vizinhos ficam escandalizados. Ameaçam um motim. Um deles aciona a imprensa, que vai até o prédio para fazer reportagem de domingo. O síndico recebe ligações a cada cinco minutos, questionando como essa “observação” vinha sendo feita.

Ele se vê obrigado a convocar outra reunião; desta vez, no salão de festas, com a presença de todos os moradores do condomínio.

Quando a gritaria começa a ultrapassar os muros do prédio, um dos vigilantes — o mais antigo morador do prédio — pede a palavra. Para assombro de todos, ele anuncia a existência do grupo secreto. E mostra suas planilhas, anotadas a mão: apartamento 11A, 15 mil litros de água desperdiçada. Apartamento 12A, 16.230 litros. E assim por diante.

Os outros vigilantes também vão listando os volumes observados em suas planilhas.

No começo, os outros moradores ficam perplexos com essa fiscalização e indignados com o grupo secreto. Aos poucos, no entanto, a cada vez que um apartamento é citado, seus moradores começam a ser olhados com ódio por todos os vizinhos e, constrangidos, se encolhem em suas cadeiras. Até que chega a vez do morador da cobertura, o único que tinha construído uma piscina no prédio. Seu vigilante havia guardado o trunfo para o final: 55 mil litros de água desperdiçada!

Foi um Ohhhhhhhh! geral. Todos do prédio, inclusive os que tinham achado um absurdo o comunicado do síndico, se revoltam contra o dono da cobertura. A briga desanda em ameaças e, por pouco, ele não é linchado. Só consegue se salvar quando promete mandar soterrar a piscina no dia seguinte (ele acaba sendo injustamente acusado de enterrar dinheiro lá dentro, mas esta é uma outra história).

Os ânimos se acalmam, os vizinhos juram que vão economizar água e que, a partir daquele dia, todos ajudarão a vigiar uns aos outros, para que os banhos não durem mais de 3 minutos (o do perfume francês funga, ainda achando demais), com paradas para ensaboar.

E aquele prédio se tornaria, depois, um dos mais conscientes de toda Grande São Paulo.


 

A história acima é, por enquanto, apenas um conto de ficção, do começo ao fim. Mas foi inspirada por aquele comunicado real, distribuído no condomínio de um amigo que mora em São Paulo. Que sirva de reflexão para todos nós, nestes tempos de seca, patrulhamento, racionamento, rodízio e de água sendo desperdiçada em 40% pela própria Copasa

Atualização às 15h: Como surgiu esta dúvida, esclareço aqui: trata-se também de uma sátira, com boas doses de ironia, porque acho que, embora o uso consciente da água seja importante, o patrulhamento carece de limite. Ou logo teremos uma “guerra da água” e linchamentos reais, ou outras medidas extremistas, fascistas e fanáticas, nesses tempos de acirramento de tudo. E isso é algo que estou longe de defender.

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Todo mundo cortando a água!

naochove

Pois é, como eu disse ontem, o racionamento foi decretado em Minas. Ou quase. A Copasa deu a entender que só precisa de um aval do Igam para bater o martelo e começar a implementar políticas de rodízio e mesmo de sobretaxa pelo uso da água nos mais de 600 municípios mineiros atendidos por ela. Pediu economia de 30% no uso da água – o que pouco fará diferença na minha casa ou na sua, mas que com certeza vai ter um peso imenso se o corte for realmente adotado pelas grandes indústrias. Veremos…

Enquanto isso, a situação dos nossos reservatórios mineiros, que são gerenciados pela Copasa, está periclitante. De uma forma que nem imaginávamos, já que o governo anterior (a dobradinha Aécio/Anastasia) jamais veio a público falar a respeito.

Recomendo a leitura das reportagens de hoje do jornal “O Tempo”, onde trabalho, que está fazendo uma cobertura muito completa sobre a crise hídrica em Minas:

Para quem não leu ainda, sugiro ler o post de ontem aqui do blog, chamando as autoridades de todo o país e de todos os partidos políticos à responsabilidade.

E, para fechar, se você também quer fazer sua parte, e inclusive atender ao apelo da Copasa de reduzir em 30% a água consumida em sua casa, relembre as 17 maneiras simples de racionarmos a água por conta própria, clicando AQUI 😉

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Que tal enfrentar esse apagão estrutural do Brasil?

Charge do Duke em 22/1/2015 (O Tempo)

Charge do Duke em 22/1/2015 (O Tempo)

 

Dia desses escrevi aqui que a crise econômica no Brasil ainda não é tão avassaladora como dizem por aí e mostrei alguns sinais disso. Mas outra crise, já abordada diversas vezes pelo blog, agora parece ter chegado ao seu auge: a crise hídrica. Se são Pedro tem culpa no cartório por ter nos proporcionado o verão mais seco dos últimos tempos no Sudeste, os governos — federal, estaduais e municipais — contribuíram e muito com a situação de calamidade em que nos encontramos hoje.

Em todos esses anos de crise de abastecimento batendo às portas, a inação desses governos foi patente. E não só de Alckmin (PSDB), que tem apanhado mais, mas também da presidente Dilma Rousseff (PT) e de seus antecessores Lula (PT) e FHC (PSDB).

A verdade é que nossos governantes sempre contaram com a abundância de água no verão para suprir a demanda do ano inteiro, e foram pegos de calças curtas com este janeiro atípico. Resultado: mais de cem cidades mineiras estão em estado de emergência por causa da seca (mais de 1.200 no país), várias cidades já estão adotando o racionamento de água — inclusive é o que deve ser anunciado para Belo Horizonte hoje — e muitos Carnavais já foram cancelados por isso. Como nossa matriz energética depende basicamente das hidrelétricas, a situação da energia no Brasil também é preocupante. Segundo ótima reportagem de Ana Paula Pedrosa no jornal “O Tempo” desta quinta-feira, a água armazenada em todos os reservatórios do país hoje é suficiente para gerar energia e abastecer o Brasil só por um mês. UM MÊS!

Ou seja, a crise que vivemos é de infraestrutura como um todo. Um apagão antigo, mas que não foi melhorado pelos governos atuais. Se faltar água no Brasil e, consequentemente, faltar energia, não haverá mais como segurar a crise econômica.

Sim, hoje acordei pessimista. Porque venho batendo nesse problema de falta de água há séculos. Como escrevi em setembro, os governos evitaram falar em racionamento quando deveriam ter falado — naquele mês — por causa das eleições. É o cúmulo! Ficaram rezando para que chovesse no verão, não choveu, e agora a situação beira ao desespero. Ou então fizeram um racionamento às escondidas, como parece ter ocorrido em São Paulo, e depois o governador ficou na saia-justa, tendo que admitir, negar, admitir, negar. Enquanto isso, na esfera federal, Dilma desapareceu. Está há um mês sem dar nenhuma entrevista a jornalistas. ‘Tomou posse e sumiu‘, como bem reparou o jornalista Ricardo Kotscho, amigo pessoal de Lula. Quem parece ter assumido a presidência foi esse ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Se nada for feito de forma mais radical, mesmo que por meio de medidas impopulares, a coisa pode ficar mais grave. Que tal lançar uma mega campanha nacional e local de conscientização contra o desperdício de água? Que tal incentivar as grandes indústrias, que são as maiores consumidoras, a fazerem programas de racionamento de água e energia? Que tal proibir a existência de aberrações como minerodutos, que desperdiçam milhões de litros de água por hora, só para transportar minérios? Água potável, de nascentes lindas, virando lama inútil. Que tal incentivar, inclusive barateando, cortando impostos, a instalação de usinas de microgeração de energia solar nas casas e prédios residenciais? (Vejam AQUI como elas são FANTÁSTICAS, autorizadas pela Aneel, capazes de gerar bastante energia, suficiente pra abastecer algumas casas e ainda jogar o resto na rede da Cemig! Mas são caras.) Que tal fazer programas sérios de recuperação dos nossos mananciais?

Espero que este post, como TUDO desde o ano passado, não se dilua em discussões rasteiras meramente político-partidárias. TODOS os políticos, de todos os partidos, todas as esferas e há muitos anos estão com culpa no cartório. Todos eles foram ineficazes e não agiram contra esta questão estrutural. Todos empurraram com a barriga o problema, que exige medidas impopulares que nenhum deles queria fazer. E agora eu só espero que Dilma Rousseff (PT) e seus ministros, os governadores Fernando Pimentel (PT), Geraldo Alckmin (PSDB), Tião Viana (PT), Renan Filho (PMDB), José Melo (PROS), Waldez (PDT), Rui Costa (PT), Rollemberg (PSB), Camilo (PT), Paulo Hartung (PMDB), Marconi Perillo (PSDB), Flávio Dino (PCdoB), Azambuja (PSDB), Pedro Taques (PDT), Simão Jatene (PSDB), Paulo Câmara (PSB), Wellington Dias (PT), Ricardo Coutinho (PSB), Beto Richa (PSDB), Pezão (PMDB), Robinson Faria (PSD), Confúcio Moura (PMDB), Suely Campos (PP), Ivo Sartori (PMDB), Raimundo (PSD), Jackson Barreto (PMDB), Marcelo Miranda (PMDB), todos os prefeitos e os congressistas tomem atitudes urgentes para resolver esse apagão estrutural do Brasil.

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