A censura ao beijo gay dos quadrinhos e o fundamentalismo religioso no Brasil

Esta foi a capa da “Folha de S.Paulo” de hoje:

Me deu um quentinho no peito saber que ainda existe jornal corajoso desse jeito, ainda mais pela história que vivi lá dentro.

Estamos, neste 7 de setembro, nos oito meses de governo Bolsonaro, e parece que ele decidiu de vez se voltar apenas para a ala mais radical e brutamontes do país.

E daí? Você, que não acompanha muito o noticiário político e segue com sua vidinha de sempre, deve estar se perguntando.

E daí que estamos diante de um fundamentalismo religioso crescente, de um fanatismo burro levando a censuras das artes, do ensino e de várias outras áreas caras ao desenvolvimento de uma sociedade.

Vocês sabem como a luta contra a censura sempre foi minha principal bandeira, né? Sempre falo disso por aqui.

Então é de revirar meu estômago ver “fiscais da prefeitura” invadindo uma Bienal do Livro para censurar uma HQ que não tem nenhum conteúdo pornográfico ou mesmo erótico e que não desrespeita o ECA, nem nada disso.

É fundamentalismo puro e simples. É uma violação ao Estado de Direito. É um estupro da nossa Constituição de 1988.

Para quem acompanhou a história recente do Irã e do Afeganistão, dentre outros países, sabe que é fácil e rápido instaurar um regime fundamentalista num país. Em coisa de um ano, tudo pode mudar. Em 15 anos, se nada for feito, a distopia que eu criei pode se aproximar de uma cruel realidade. E aí, pra reverter a coisa toda, será um trabalho realmente árduo.

Inclusive porque muitos estragos que estão sendo feitos em apenas oito meses de governo já serão bem difíceis de recuperar. Na educação e no meio ambiente, por exemplo.

O Brasil é, cada vez mais, o ex-país do Carnaval.

É isso que queremos pra ele?

Charge do Duke publicada no jornal O Tempo de 7 de setembro.

Leia também:

  1. Brasil, o ex-país do Carnaval
  2. O futuro distópico de um Brasil governado por bolsonaristas e olavistas
  3. O fanatismo, o fascista corrupto, as fake news e minha desesperança
  4. O fanatismo e o ódio de um país que está doente
  5. Fanatismo é burro, mas perigoso
  6. O que acontece quando os fanáticos saem da internet para as ruas
  7. Há um Jair Bolsonaro entre meus vizinhos?

 

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Noam Chomsky: Bolsonaro e Trump são piores que Hitler

Noam Chomsky, 90, é um respiro de lucidez em meio a este mundo insano e azedo em que estamos vivendo.

Sua entrevista concedida à repórter especial da “Folha” Patrícia Campos Mello foi uma das coisas mais interessantes que li nos últimos dias.

Minha recomendação é que você CLIQUE AQUI e leia do início ao fim.

Mas coloco abaixo alguns trechos favoritos:

“Dez anos atrás, o Brasil era um dos países mais respeitados do mundo, e Lula era um dos principais estadistas no palco global. Agora, o Brasil virou motivo de chacota.”

(…)

“Nos EUA, [Donald] Trump é muito eficiente, sabe como deixar as multidões inflamadas e direcionar o ódio e o ressentimento das pessoas para bodes expiatórios. Bolsonaro faz o mesmo.”

(…)

“Steve Bannon articulou de forma clara um esforço para criar uma Internacional Reacionária liderada pela Casa Branca, e que inclui gente como as ditaduras do Golfo, como a Arábia Saudita, o país mais reacionário do mundo, Egito sob a ditadura de Abdul Fatah al-Sisi, Israel que migrou para a extrema-direita, [Narendra] Modi na Índia, Bolsonaro, Orbán, Salvini e Nigel Farage [defensor do brexit].”

(…)

“Minha impressão é que a esquerda brasileira está completamente desordenada, há muita apatia, as pessoas estão apenas assistindo a tudo que está acontecendo, pensando “não podemos fazer nada então vamos esperar passar”.”

(…)

“O Brasil ainda não desenvolveu uma oposição [a Bolsonaro]. Talvez agora, no contexto de duras críticas internacionais à destruição da Amazônia, isso surja. Talvez a partir disso surja a oposição real que deveria estar sendo feita. É preciso que a crise na Amazônia funcione como um ponto de inflexão para a oposição. Se a crise na Amazônia continuar, o mundo inteiro vai sofrer.”

“Estamos chegando a um ponto em que os danos ambientais são irreversíveis. Se passar disso, será o fim da vida humana organizada no planeta. E temos gente como Trump e Bolsonaro negando que exista aquecimento global e adotando políticas que o exacerbam. Para mim, eles são os maiores criminosos da história. Hitler queria matar todos os judeus, mas essas pessoas estão dizendo: “Vamos matar toda a sociedade, destruir tudo e ter lucros”.”

 

Leia também:

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Como será o Brasil em 2030 se os bolsonaristas continuarem no poder? Leia mais uma distopia

Charge de Jaime Guimarães

Depois que publiquei aquele conto de sábado, “O futuro distópico de um Brasil governado por bolsonaristas e olavistas“, meu amigo Jaime Guimarães, professor em Salvador (BA), ilustrador e blogueiro, disse que ficou inspirado.

E ficou mesmo, viu! Ontem ele publicou o conto “Brasil, 2030: uma distopia“, com direito a muito humor cáustico para aliviar o drama. Porque só rindo para a gente aguentar as notícias diárias com que este governo federal nos presenteia.

Leia a seguir:

 

Brasil, 2030. Fruto de uma ousada e avançada experiência com animação suspensa, um homem desperta após 30 anos em uma câmara de hibernação nos laboratórios secretos do governo. O despertar do voluntário, que identificaremos pelo codinome SILVA, foi bem sucedido. Em um dia frio e luminoso de abril, após breve reconhecimento do tempo e período histórico no qual finalmente “voltou à vida”, Silva foi submetido a exames médicos e psicológicos com o doutor Queiroz. 

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– O Brasil tá bem diferente… o que aconteceu?
– Mudou tudo. A Nova Era, que começou em 2019, trouxe mudanças significativas em poucos anos. Mudanças para melhor, claro.
– Eu acabei de saber que quem manda no Brasil é a família Bolsonaro. Como assim? É aquele Jair Bolsonaro, o mesmo sujeito que vivia falando bobagens e tolices na TV?
– Mais respeito com o grande líder! Como você acordou agora, vou deixar passar. Mas na próxima vou denunciá-lo como Inimigo do Estado e será varrido do país.
– Varrido? Como assim?
– Deportado. Expulso. Ou desaparecerá. Neste assunto, aliás, eu tenho bastante experiência.
– Mas… mas… isso parece uma ditadu…
– Alto! Essa é uma das palavras proibidas da Nova Era para se referir ao Brasil. Olha, eu entendo o impacto que é acordar após 30 anos e ver tudo diferente, mas você não está colaborando. Precisa aceitar e se enquadrar ao nosso tempo.
– E o que preciso fazer para “me enquadrar”?
– Primeiro, matricular-se no Curso de Filosofia de Olavo de Carvalho.
– Mas o Olavo de Carvalho não era um astrólogo, tipo João Bidu?
– Cuidado: acima de Jair, o Messias, só Olavo. E Olavo sempre tem razão! O grande filósofo e guru da Nova Era, o responsável por desmascarar todo o plano globalista com o demônio George Soros em conluio com os comunistas, a ONU e demais idiotas úteis como artistas, ambientalistas e celebridades!
– Que história mais esquisita…
– História! Sim, a verdadeira história! Esqueça tudo o que aprendeu na escola, pois todas aquelas aulas, os livros didáticos e os professores estavam infestados de esquerdismo e comunismo. Você vai aprender a verdade e a pensar corretamente no Curso de Filosofia!
– E onde posso me matricular?
– Em qualquer escola, faculdade ou universidade. Ou, se preferir fazer o curso EAD, recomendo a UNIZAP. Vamos ensiná-lo a mexer com a ferramenta que revolucionou o conhecimento e a verdade em nosso país, o WhatsApp. De qualquer forma, em todos esses espaços a obra do mestre Olavo está disponível em livros, vídeos, áudios, memes e você terá o auxilio de professores de verdade, não daqueles tenebrosos doutrinadores comunistas que idolatravam o farsante e grande responsável pelo caos na Educação antes de Jair I, o terrível Paulo Freire.
– Ei, peraí… Paulo Freire, até onde eu lembro, foi um grande educador e referência muito respeitada na área, e não apenas no Brasil.
– FAKE NEWS! Você precisa passar por estágios avançados de descontaminação ideológica. Você fará um tratamento intenso: além do curso de Filosofia Olavo, ainda assistirá diversos vídeos de pensadores realmente geniais no Youtube.”

CLIQUE AQUI para ler até o fim! Vale a pena 😉


 

Leia também:

  1. O futuro distópico de um Brasil governado por bolsonaristas e olavistas
  2. O fanatismo, o fascista corrupto, as fake news e minha desesperança
  3. Brasil, o ex-país do Carnaval
  4. O fanatismo e o ódio de um país que está doente
  5. Fanatismo é burro, mas perigoso
  6. Para uns, para outros e para mim
  7. Tem certeza absoluta? Que pena
  8. Post especial para quem se acha com o rei na barriga
  9. Reflexão para as pessoas cheias de si
  10. A saudável loucura de cada um de nós
  11. Qual é a sua opinião, cidadão?
  12. Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil contemporâneo
  13. Mais posts sobre fanatismo
  14. Mais posts sobre as eleições
  15. Fanatismo é burro, mas perigoso
  16. O que acontece quando os fanáticos saem da internet para as ruas
  17. Há um Jair Bolsonaro entre meus vizinhos?

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O que diziam os cartazes: 40 fotos do protesto em BH contra Bolsonaro e pela Amazônia

Estive hoje de manhã no protesto contra o governo Bolsonaro e contra as queimadas desenfreadas na Amazônia. Foi na Praça do Papa, Belo Horizonte, a partir das 10h. Cerca de 2.000 pessoas participaram da manifestação, que foi apartidária e recheada de faixas, cartazes e placas com mensagens muito importantes. Todas tinham dois pontos em comum: a indignação com esse desgoverno federal e a preocupação com a nossa Amazônia. Ah, também surgiram mensagens contra o crime cometido pela Vale em Brumadinho. Nestas 40 fotos que eu fiz, e estão na galeria a seguir, destaco principalmente as ideias, ou seja, o que as pessoas escreveram e empunharam em suas cartolinas e papelões. Confira e compartilhe:

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Leia também:

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‘Quem vai invadir o Brasil para salvar a Amazônia?’

Artigo mudou de nome após críticas.

 

Texto escrito por José de Souza Castro:

Li na última quarta-feira que a revista “Foreign Policy”, dos Estados Unidos, publicou no dia 5 de agosto artigo escrito por Stephen M. Walt, professor de relações internacionais da Universidade de Harvard, com o título “Quem vai invadir o Brasil para salvar a Amazônia?”. O título não havia sido escolhido pelo autor e, após crítica, foi mudado no site da revista na terça-feira para: “Quem vai salvar a Amazônia (e como)?”

A epígrafe é a parte mais curiosa do artigo, que pode ser lido AQUI em inglês e, parcialmente, AQUI, em português. Diz a epígrafe traduzida por Bianca Bosso, para o Ciência na Rua:

“5 de agosto de 2025: Em um anúncio televisivo endereçado para a nação, o presidente dos Estados Unidos, Gavin Newsom, anunciou que deu ao Brasil o prazo de uma semana para que o país cesse as atividades de desmatamento na Floresta Amazônica. O presidente anunciou que se o Brasil não cumprir o aviso, irá ordenar um bloqueio dos portos brasileiros e ataques aéreos contra a infraestrutura nacional. Essa decisão foi tomada após a publicação de um relatório das Novas Nações Unidas que catalogou os efeitos catastróficos globais da destruição das florestas tropicais, alertando sobre um “ponto crítico” que, se alcançado, desencadearia um aumento na velocidade do aquecimento global. Apesar de a China ter anunciado que vetaria resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas autorizando o uso da força contra o Brasil, o presidente americano disse que uma aliança de nações está preparada para dar apoio à ação. Ao mesmo tempo, Newsom disse que os EUA e outros países estariam dispostos a negociar um pacote de compensação para mitigar os custos de proteger as florestas tropicais, mas somente se, primeiro, o Brasil cessasse seus esforços atuais para acelerar o desenvolvimento.”

Walt diz que o cenário acima (repararam na data?) é obviamente forçado, mas indaga: “Até onde você iria para prevenir um dano ambiental irreversível?”

Para um país que invadiu o Iraque e tantos outros, sob os mais variados motivos, não faltariam argumentos aceitáveis pela comunidade internacional para invadir o Brasil. Pelo andar da carruagem, dentro de seis anos, sobretudo se Bolsonaro ou alguém da mesma laia for presidente, o país não terá forças para se defender.

Como impedir agora que isso aconteça num futuro não muito distante? Não sei, a não ser escrever. Lula, que sabe das coisas, mas continua preso, tuitou nesta quarta-feira: “A lógica entreguista do governo Bolsonaro começa a atingir o coração de um dos nossos maiores patrimônios. Defender a Amazônia é uma questão urgente e de soberania nacional. A floresta é do povo brasileiro e não refém das perversões desse governo.”

Bolsonaro, por sua vez, não está nem aí. É o “Capitão Motosserra”. Ele se classificou assim ao discursar durante encontro da Fenabrave, entidade que representa as concessionárias de veículos automotores, entre as quais se sentiu à vontade para criticar o INPE, que divulgou dados sobre o desmatamento:

“Isso é uma péssima propaganda do Brasil lá fora, quando se fala que nós estamos desmatando… Onde dados imprecisos são divulgados… E quando um número, caso fosse verdadeiro, absurdo como aquele, que eu já desmatei mais 88% da Amazônia… Eu sou o Capitão Motosserra! Né? irmão do general Custer”.

Verdade seja dita: muitos ali, que o aplaudiram, acharam Bolsonaro bem engraçado. Talvez seja mesmo, até que algum presidente tão maluco quanto ele decida invadir o Brasil. Para isso, não lhe faltará argumentos.

Um deles, conforme o professor de Harvard, em tradução livre:

“Acontece de o Brasil estar na posse de um recurso crítico global – puramente por razões históricas – e a destruição (desse recurso, a floresta amazônica) iria prejudicar muitos países, se não o planeta inteiro. Diferente de Belize ou Burundi, o que o Brasil faz poderá ter grande impacto. Mas o Brasil não é verdadeiramente um grande poder, e ameaçá-lo, seja com sanções econômicas ou até com o uso da força, se ele se recusar a proteger sua floresta, poderia ser eficaz”.

Como todo valentão, no fundo Bolsonaro é um covarde. Vale a ameaça.

 

Leia também:

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