‘Quem vai invadir o Brasil para salvar a Amazônia?’

Artigo mudou de nome após críticas.

 

Texto escrito por José de Souza Castro:

Li na última quarta-feira que a revista “Foreign Policy”, dos Estados Unidos, publicou no dia 5 de agosto artigo escrito por Stephen M. Walt, professor de relações internacionais da Universidade de Harvard, com o título “Quem vai invadir o Brasil para salvar a Amazônia?”. O título não havia sido escolhido pelo autor e, após crítica, foi mudado no site da revista na terça-feira para: “Quem vai salvar a Amazônia (e como)?”

A epígrafe é a parte mais curiosa do artigo, que pode ser lido AQUI em inglês e, parcialmente, AQUI, em português. Diz a epígrafe traduzida por Bianca Bosso, para o Ciência na Rua:

“5 de agosto de 2025: Em um anúncio televisivo endereçado para a nação, o presidente dos Estados Unidos, Gavin Newsom, anunciou que deu ao Brasil o prazo de uma semana para que o país cesse as atividades de desmatamento na Floresta Amazônica. O presidente anunciou que se o Brasil não cumprir o aviso, irá ordenar um bloqueio dos portos brasileiros e ataques aéreos contra a infraestrutura nacional. Essa decisão foi tomada após a publicação de um relatório das Novas Nações Unidas que catalogou os efeitos catastróficos globais da destruição das florestas tropicais, alertando sobre um “ponto crítico” que, se alcançado, desencadearia um aumento na velocidade do aquecimento global. Apesar de a China ter anunciado que vetaria resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas autorizando o uso da força contra o Brasil, o presidente americano disse que uma aliança de nações está preparada para dar apoio à ação. Ao mesmo tempo, Newsom disse que os EUA e outros países estariam dispostos a negociar um pacote de compensação para mitigar os custos de proteger as florestas tropicais, mas somente se, primeiro, o Brasil cessasse seus esforços atuais para acelerar o desenvolvimento.”

Walt diz que o cenário acima (repararam na data?) é obviamente forçado, mas indaga: “Até onde você iria para prevenir um dano ambiental irreversível?”

Para um país que invadiu o Iraque e tantos outros, sob os mais variados motivos, não faltariam argumentos aceitáveis pela comunidade internacional para invadir o Brasil. Pelo andar da carruagem, dentro de seis anos, sobretudo se Bolsonaro ou alguém da mesma laia for presidente, o país não terá forças para se defender.

Como impedir agora que isso aconteça num futuro não muito distante? Não sei, a não ser escrever. Lula, que sabe das coisas, mas continua preso, tuitou nesta quarta-feira: “A lógica entreguista do governo Bolsonaro começa a atingir o coração de um dos nossos maiores patrimônios. Defender a Amazônia é uma questão urgente e de soberania nacional. A floresta é do povo brasileiro e não refém das perversões desse governo.”

Bolsonaro, por sua vez, não está nem aí. É o “Capitão Motosserra”. Ele se classificou assim ao discursar durante encontro da Fenabrave, entidade que representa as concessionárias de veículos automotores, entre as quais se sentiu à vontade para criticar o INPE, que divulgou dados sobre o desmatamento:

“Isso é uma péssima propaganda do Brasil lá fora, quando se fala que nós estamos desmatando… Onde dados imprecisos são divulgados… E quando um número, caso fosse verdadeiro, absurdo como aquele, que eu já desmatei mais 88% da Amazônia… Eu sou o Capitão Motosserra! Né? irmão do general Custer”.

Verdade seja dita: muitos ali, que o aplaudiram, acharam Bolsonaro bem engraçado. Talvez seja mesmo, até que algum presidente tão maluco quanto ele decida invadir o Brasil. Para isso, não lhe faltará argumentos.

Um deles, conforme o professor de Harvard, em tradução livre:

“Acontece de o Brasil estar na posse de um recurso crítico global – puramente por razões históricas – e a destruição (desse recurso, a floresta amazônica) iria prejudicar muitos países, se não o planeta inteiro. Diferente de Belize ou Burundi, o que o Brasil faz poderá ter grande impacto. Mas o Brasil não é verdadeiramente um grande poder, e ameaçá-lo, seja com sanções econômicas ou até com o uso da força, se ele se recusar a proteger sua floresta, poderia ser eficaz”.

Como todo valentão, no fundo Bolsonaro é um covarde. Vale a ameaça.

 

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As barbaridades que Bolsonaro fala, seus três grupos de eleitores que aplaudem e, enquanto isso, um Brasil que afunda

A gente nem bem se recobra do trauma causado por uma barbaridade saída da boca do presidente da República, e lá vem ele e solta outra. Sua claque, ignorante até o último fio de cabelo, aplaude feliz, sem pestanejar, sem pensar, como robozinhos programados para tapar os olhos para os absurdos e sorrir felizes para tudo o que parece provocante, indecente, atrevido. “Ele fala o que pensa. Ele me representa.”

Bolsonaro está pleno. Testou o que pôde do novo cargo nos últimos sete meses e agora se sente confiante para falar as besteiras sempre falou, nos mais de 20 anos de vida pública (ao arrepio da lei, do decoro, da ética, e agora da liturgia de seu cargo no Executivo). Ele está confiante que nada nunca lhe será cobrado, que nada nunca vai lhe acontecer, que ele nunca terá que pagar. Desde o golden shower, lá atrás, no Carnaval, até a fala absurda que o coloca nos porões da ditadura militar.

Todas as charges que ilustram este post são do Duke e foram originalmente publicadas no portal O Tempo (www.otempo.com.br/charges)

E assim seguiremos – até quando? Com quais consequências? – sendo governados por um presidente que parece estar sentado numa carteira de uma turma de quinta série. Com as mesmas piadinhas e a mesmíssima mentalidade.

Gênio da comunicação – já que ele conversa com seu eleitorado (o grosso dele), que tem a mesma mentalidade. A outra parcela importante do eleitorado, de empresários riquíssimos que querem vender tudo o que for possível do Brasil, que querem aprovar todas as reformas que mais possam sacanear o povo mais calejado do país, esta tapa o ouvido e o nariz e vai sorrindo amarelo, com uma blusa da CBF mais discreta por baixo de algum paletó.

E não podemos nos esquecer de uma terceira parcela de seu eleitorado, a mais conservadora nos costumes, que se viu bombardeada nos últimos ANOS por fake news estapafúrdias envolvendo mamadeiras de piroca, masturbação de bebês por professores comunistas malucos, implantação de uma ditadura de ideologia de gênero dentro de creches, e assim por diante. Tudo vinculado ao PT, ao PT, ao PT, assim como todo e qualquer esquema de corrupção dos últimos 500 anos. Essa parcela é a preferencial de gente que segue a cartilha de Steve Bannon (inclusive os filhos de Bolsonaro) e que já está tão dopada pelas mentiras que lê há anos que ficou cega, em defesa de valores que acredita que foram afrontados pela esquerda e que só poderão ser salvos por esta direita maniqueísta que ocupa o poder.

Esses três grupos que compõem o eleitorado de Bolsonaro lhes dão força para que ele sinta toda essa confiança e continue não só falando o que fala como fazendo o que faz. Enquanto a gente, do lado de cá, só assiste, boquiabertos, incrédulos, perplexos – calados. As consequências poderão ser universidades cada vez mais enfraquecidas, assim como as escolas em geral, o que vai minar ainda mais a capacidade de as gerações futuras conseguirem se resguardar contra medidas autoritárias. As consequências também serão drásticas e irrecuperáveis para nosso já combalido meio ambiente.

Sobre isso, vale demais compartilhar por aqui o artigo “Pornô florestal“, do jornalista científico Claudio Ângelo, publicado no dia 20 de julho. Naquele dia, ele ainda estava – e todos nós, os que ainda pensam – sob o impacto das declarações de Bolsonaro, extremamente irresponsáveis, contestando o desmatamento na Amazônia e os dados do Inpe. (Depois disso já foram tantas outras declarações atrozes, que acho que muita gente já até se esqueceu dessa…)

O texto de Claudio Ângelo é genial do início do fim, por isso recomendo sua leitura na íntegra, clicando AQUI. Mas destaco alguns números como alerta geral:

  • “na manhã de quinta o Observatório do Clima havia publicado no Twitter que o desmatamento em julho estava em 981 km2. Agora, 36 horas depois, estava em 1.209 km2. (…) Os alertas de desmatamento de fato haviam subido 228 km2 em um dia e meio – dez campos de futebol tombando por minuto”.
  • “Julho de 2019 é disparado o mês com mais alertas desde que o Deter-B entrou em operação, em 2015/2016. Como sabemos, julho de 2019 ainda está a uma semana e meia do fim. No momento em que escrevo, manhã de sábado, estamos em 1.260 km2”.
  • “chegaremos à beira dos 10 mil km2 de desmatamento na Amazônia no primeiro ano da Nova Era”.
  • “Na última vez que o desmatamento na Amazônia esteve em cinco dígitos, em 2008, ainda não existia Instagram, Obama ainda não era presidente e a Alemanha era apenas o país de quem a gente tinha vencido a Copa de 2002.”

Escrevo este post na noite de terça-feira, 30 de julho, e o agendo para ser publicado na quinta, dia 1 de agosto. Provavelmente, nesse meio-tempo, já teremos sido bombardeados por mais uma dúzia de asneiras e fake news vindas direto da boca do presidente da República. Ah sim, e outros dez campos de futebol terão sido tombados por minuto, ali no Norte do nosso país. Mas, e daí, né? Ali só devem viver mesmo uns índios e uns “paraíbas” e, se bobear, eles nem têm acesso ao Twitter – o verdadeiro “país” para o qual Bolsonaro governa.

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Invasão do Brasil por uma potência estrangeira teria impacto igual ao do programa de Paulo Guedes

Todas as charges deste post são do genial Duke e foram originalmente publicadas no jornal mineiro “O Tempo” – www.otempo.com.br

Texto escrito por José de Souza Castro:

Em setembro de 2017 tive oportunidade de resumir aqui um artigo do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães sobre o programa econômico feito pelo ministro Henrique Meirelles para o governo Temer. O autor se debruçou agora sobre o projeto do sucessor de Meirelles, Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga” do governo Bolsonaro.

O novo artigo tem aproximadamente duas mil palavras. Didático, fácil de ler e entender, o texto de Guimarães foi dividido por ele em 24 itens. A íntegra pode ser lida AQUI. O penúltimo item nem precisa ser resumido. É este:

“23.  A natureza do Governo do Presidente Jair Bolsonaro, em seu ataque permanente e enviesado às instituições econômicas, sociais e políticas, é tão radical que a implementação de suas políticas terá resultados mais graves do que as políticas que decorreriam da invasão e da ocupação do Brasil por uma Potência estrangeira, que se empenhasse em dificultar o desenvolvimento do país e de submetê-lo a seus interesses políticos, econômicos e militares.”

O embaixador tem 79 anos. Formou-se em 1963 em Ciências Jurídicas e Sociais na Universidade do Brasil e em 1969 concluiu o mestrado de economia na Universidade de Boston. Entre os diversos cargos que ocupou, foi secretário-geral de Relações Exteriores do Itamaraty entre 2003 e 2009 e ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos entre 2009 e 2010, no governo Lula.

Segundo Samuel Pinheiro Guimarães, é uma “terceirização” inédita na História do Brasil a decisão do presidente Bolsonaro de transferir a um economista ultraliberal, cuja visão é a visão do mercado, toda a responsabilidade para formular e executar a política econômica.

Guedes adotou, integralmente, o Projeto do Mercado para o Brasil. É o projeto dos muito ricos, dos megainvestidores, das empresas estrangeiras, dos rentistas, dos grandes ruralistas, dos proprietários dos meios de comunicação de massa, dos grandes empresários, dos grandes banqueiros, e de seus representantes na política, na mídia e na academia. “É o projeto de uma ínfima minoria de indivíduos, para se beneficiar como ínfima minoria do trabalho de 210 milhões de brasileiros”.

Acrescenta Guimarães que dos 150 milhões de brasileiros adultos (o que corresponde ao número de eleitores), 120 milhões ganham menos de dois salários mínimos por mês e estão isentos de apresentar declaração de renda. E cerca de 20 mil que declaram ter renda superior a 160 salários mínimos por mês são os que controlam o mercado. É para estes que o ministro de Bolsonaro quer governar.

E pretende convencer o restante da população de que são verdadeiras estas suas premissas: a iniciativa privada pode resolver sozinha todos os problemas brasileiros; a iniciativa privada estrangeira é melhor do que a brasileira; o Estado impede a ação eficiente da iniciativa privada; é correta a teoria das vantagens comparativas para explicar a divisão internacional do trabalho entre nações industriais e nações produtoras/exportadoras de matérias primas, e que incluiria, entre essas últimas, o Brasil; o Brasil deve procurar se aliar econômica e politicamente a Estados poderosos do Ocidente, em especial aos Estados Unidos, e não a países subdesenvolvidos, pobres, atrasados, turbulentos.

Entre as políticas que estão sendo executadas por Guedes, em conformidade com aquelas premissas, estão o congelamento constitucional dos gastos públicos primários, em termos reais, por vinte anos; a prioridade absoluta ao pagamento do serviço da dívida pública; o não aumento de impostos e até redução de impostos (e, portanto, de receitas públicas); a privatização, para o capital nacional ou estrangeiro, de todas as empresas do Estado, agora de forma acelerada; a reforma (privatização) da Previdência; a abertura de todos os setores da economia a empresas estrangeiras; a eliminação radical e unilateral de tarifas aduaneiras; a revogação da legislação trabalhista para reduzir o “custo” do trabalho; a política anti-inflacionária, de real valorizado e juros elevados, com consequente desindustrialização; a redução dos impostos sobre as empresas; a desregulamentação geral; a redução do Estado ao mínimo, e sua degradação técnica, com redução de órgãos, funcionários e salários; a descentralização de competência e de recursos da União para Estados e Municípios; e o alinhamento político, militar e econômico com os Estados Unidos, através da participação na OTAN e na OCDE.

Para quem acompanha o noticiário, sabe que essa política vem sendo implementada desde 2016,  no governo Temer.

E as consequências, de acordo com o embaixador, são visíveis: as medidas geraram 13 milhões de desempregados, mais de seis milhões de “desalentados”, 40 milhões de empregados informais (sem carteira e sem direitos), 60 milhões de endividados, falência de centenas de milhares de empresas, estagnação da economia, deterioração da infraestrutura, aumento da desindustrialização, precarização dos sistemas de saúde e educação, retorno de doenças que haviam sido erradicadas e não conseguiram, nem de longe, gerar a “confiança” dos investidores.

Tem mais, diz o embaixador. A política econômica de Paulo Guedes está destruindo os recursos naturais, mediante a liberação indiscriminada de agrotóxicos, da não repressão ao desmatamento e da leniência nas liberações ambientais. Está permitindo a degradação da infraestrutura de transportes, degradando a força de trabalho, destruindo a indústria, ameaçando-a com a redução unilateral e radical de tarifas aduaneiras, e o sistema de pesquisa científica e tecnológica.

Ao mesmo tempo, consolida o sistema financeiro improdutivo, o que se agravará com a eventual autonomia do Banco Central e sua “captura” definitiva pelos bancos, enquanto destrói a capacidade do Estado de promover o desenvolvimento, através da desarticulação e privatização dos bancos públicos, do corte de cargos; da transferência de competências da União para Estados e municípios.

Destrói também “a capacidade de construir um sistema dissuasório de Defesa da Soberania”, lamenta o embaixador, que poderia acrescentar que isso ocorre nas barbas dos generais que assessoram o governo Bolsonaro. Há mais coisas que ele diz, e que você pode ler no próprio artigo de Samuel Pinheiro Guimarães. Não perderá seu tempo.

Para concluir: o capitão Bolsonaro, se ele quer mesmo fazer tudo o que Paulo Guedes planeja, teria muito a ensinar a Hitler. Soubesse tudo o que sabemos agora, o ditador alemão poderia espalhar sua doutrina por todos aqueles países que invadiu e ocupou sem disparar nenhum tiro. E matar, igualmente, milhões de pessoas – de fome e miséria.

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UFMG não é espaço de balbúrdia, é espaço do saber; balbúrdia é este governo federal!

O brasileiro parece ter, de repente, resolvido abrir mão da aposentadoria e da educação. Como chegamos a este ponto? Charge do Duke, no jornal “O Tempo” de 07.5.2019

 

Hoje a Polícia Civil prendeu cinco pessoas que faziam tráfico de drogas dentro da UFMG. Nenhum deles era estudante na instituição. Daí ouço um sujeito comentar, usando o termo que ficou famoso por ser a justificativa para cortes escandalosos na educação brasileira: “Depois vão me dizer que não há balbúrdia nas universidades? Quem consumia essas drogas que eram vendidas lá dentro?”

Usar um argumento desses para desqualificar todo o trabalho feito dentro de uma instituição do porte da UFMG é de uma desfaçatez tão grande, de uma canalhice tão grande, tão manipuladora e maniqueísta, que não sobrou nem um fio de cabelo meu que não tivesse ficado indignado ao ouvir isso.

Sim, entre os quase 50 mil estudantes da UFMG, além dos 3.000 professores e mais de 4.000 servidores técnicos e administrativos, certamente há usuários de drogas. Assim como existem em toda a sociedade, dentro e fora das universidades. Isso não significa que todos os estudantes, docentes e pesquisadores que frequentam o campus façam uso das drogas – até porque, se fosse o caso, não haveria apenas cinco traficantes (lembrando: nenhum deles é aluno da UFMG), com 144 buchas de maconha, para dar conta desse batalhão de drogados.

A UFMG não é feita de balbúrdia. É feita de 4 campi universitários, 77 cursos de graduação, 77 de mestrado e 63 de doutorado, de 755 grupos de pesquisa, 600 laboratórios, 425 convênios com instituições do exterior, 4.300 artigos publicados em periódicos científicos em um ano. É feita de um Hospital das Clínicas que tem 91 anos de idade, é referência em Minas no atendimento de média e alta complexidade, tem 238 setores hospitalares e atende de forma 100% gratuita, pelo SUS. É feita de vários outros serviços gratuitos de saúde que são ofertados à comunidade, como atendimento odontológico e psicológico. É feita de 27 bibliotecas, com um acervo que gira em torno de 1 milhão de exemplares, além de 40 mil itens de materiais especiais. É feita de uma rede de museus e espaços culturais, que incluem o Espaço do Conhecimento, na Praça da Liberdade, o Museu de História Natural Jardim Botânico, a Estação Ecológica da UFMG, o Museu de Ciências Morfológicas, o Observatório Astronômico Frei Rosário, na Serra da Piedade, e muito, muito mais.

A UFMG é, enfim, um espaço de saber. Uma casa do conhecimento. Um ambiente de frescor de ideias, de debate, de aprendizado, de cultura. Que bom seria se mais e mais mineiros e brasileiros tivessem o privilégio de estudar lá, para falarem menos besteiras, como fala esse sujeito que provocou minha ira hoje – e como fala, de resto, Jair Bolsonaro (que, aliás, NUNCA pisou em uma universidade federal na vida) e seus seguidores mais ignorantes e fanáticos. Porque a UFMG, assim como outras universidades federais, é, sim, um espaço ainda elitista, embora as cotas tenham ajudado bastante melhorar a inclusão. A oferta de vagas para cotistas vem num crescendo desde que esta política foi criada em 2012, mas está diminuindo desde que Temer assumiu o poder – e, com essa visão de ódio à educação do governo Bolsonaro, é possível que logo acabe de vez.

Charge do Duke, no jornal “O Tempo” de 18.5.2019

Assim como deverão despencar aqueles números impressionantes da UFMG, que eu trouxe alguns parágrafos acima e dizem respeito aos anos de 2013 e 2014. Se, com os cortes de 30% anunciados pelo MEC de Bolsonaro, a UFMG não será capaz nem de honrar gastos básicos como os pagamentos de água e luz, como poderá pagar por suas pesquisas? Como a pesquisa que detecta dengue em 20 minutos, desenvolvida por pesquisadores da UFMG. Ou o estudo revolucionário para tratamento de câncer, desenvolvido por pesquisadores da UFMG. Ou o estudo para desenvolver medicamentos para zika e doença de Chagas, tocado por uma professora da UFMG premiada pela Unesco. Ou a vacina anticocaína, testada na UFMG. Ou o programa capaz de rastrear pornografia infantil, desenvolvido pela UFMG e oferecido às polícias Federal e Civil para ajudar em investigações criminais. Basta dar um Google com as palavras “UFMG” e “pesquisa” e você encontrará inúmeros exemplos de trabalhos sérios e incríveis feitos por pesquisadores de todas as faculdades dentro desta maravilhosa universidade.

Ah, sim: um grupo de pesquisadores da UFMG também estudou o impacto das fake news nestas eleições

Charge do Duke, no jornal “O Tempo” de 08.5.2019

Claro, a UFMG tem defeitos. Tem precariedades, como, de resto, tudo o que é público no Brasil. Pode ser melhorada e seu modelo de gestão pode e deve ser discutido. Mas não venham me dizer que lá é só um antro de “balbúrdia”. Balbúrdia é esse governo incapaz de manter um mesmo ministro da Educação por mais de um mês no cargo. Balbúrdia é esse governo, incapaz de conter rachas internos entre milicos e olavistas, milicianos e congressistas, com direito a debandada até de pessoas do mesmo partido do presidente, o PSL.

Eu tenho orgulho de dizer que estudei na UFMG (assim como meu pai e minha mãe e dois dos meus irmãos). E foi lá minha primeira experiência profissional, como estagiária da Rádio UFMG Educativa, que faço questão de listar no currículo. Foi lá que cobri minha primeira eleição presidencial. Foi lá que expandi minha cabeça, conheci todo tipo de gente, ainda que não pudesse estar 100% focada na universidade, porque comecei a trabalhar aos 19 anos. No meu curso de Comunicação Social, aprendi sobre todo tipo de narrativas jornalísticas e teorias da comunicação, mas, estando numa universidade como a que eu estava, pude também ter aulas diversas, como de cinema, de economia, de estatística e até de pré-história! Aproveitei o fato de a grade curricular do meu curso ser aberta para sugar ao máximo as possibilidades daquele campus imenso e tão rico. Nada melhor para uma jornalista do que poder usufruir de conhecimento tão diversificado.

Porque técnica é só técnica, a gente aprende em uma semana na Redação. Já o saber, é algo mais. É o que fica na nossa alma para sempre. É o que nos previne de cair em paspalhices como as lorotas que este Jair Bolsonaro conta. É o que nos dá estofo para seguir firme, forte e desafiadora, nesta vida maluca, nesta sociedade sem pé nem cabeça.

Charge do Duke, no jornal “O Tempo” de 21.5.2019

 

P.S. Recentemente, um leitor do jornal popular “Super Notícia” publicou uma carta lá dizendo que a Faculdade de Direito da UFMG era toda pichada, só tinha bagunça, drogas, essas coisas que os papagaios ficam repetindo sem saber. Os diretores da faculdade responderam à carta, no mesmo espaço, na maior educação, convidando o leitor a conhecer a instituição. Ele foi. Escreveu uma segunda carta para pedir desculpas pela primeira e dizer que ficou impressionado com os trabalhos e pesquisas desenvolvidos pela Faculdade de Direito, que teve os prédios pintados recentemente e sem qualquer pichação ou qualquer tipo de bagunça. Ou seja, as pessoas não estão perdidas: ofereça a mão a elas e muitas saberão reconhecer os erros com humildade e parar de repetir as fake news dessa turma que idolatra a ignorância e que ocupou o poder no Brasil. Não desistamos dos brasileiros.

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10 pontos positivos das universidades públicas brasileiras

Reitoria da UFMG. Fotos: Wikimedia

O texto abaixo foi escrito por Douglas Garcia, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e colaborador frequente deste blog. Ele tem graduação na USP, mestrado e doutorado na UFMG e pós-doutorado na UERJ.

“Em três Estados diferentes, sou testemunha da seriedade e do tamanho do trabalho das universidades públicas neste país”, afirma o professor. Confira seu texto sobre o assunto do dia – quiçá do ano, ou da década, dependendo do estrago irreversível que este governo Bolsonaro causar sobre a educação no Brasil:

 

Se você tem um filho ou uma filha, provavelmente deseja que, quando crescer, ele ou ela estude em uma universidade pública. Se você mora em Minas Gerais, desejará que faça UFMG, UFOP, ou alguma das outras universidades públicas do Estado. Se mora em São Paulo, vai querer que faça USP, UNICAMP, ou outra das universidades públicas do Estado. O mesmo em todos os outros Estados brasileiros. Está na hora de chamar a atenção para as (muitas) coisas que fazem da universidade pública brasileira um bem público, um patrimônio de todos os brasileiros – e das gerações futuras, também. Aqui vão 10 pontos para a gente se lembrar disso:

#1. Melhor ensino

As universidades públicas brasileiras são, de fato, as melhores no ensino, segundo todos os rankings, como o da Folha de S.Paulo, do Guia do Estudante Editora Abril e do MEC.

#2. Pesquisa científica

As universidades públicas, de fato, fazem a grande maioria da pesquisa científica do país, segundo todos os rankings oficiais.

Biblioteca central da UFMG.

#3. Apoio na produção agropecuária

As universidades públicas, através de suas pós-graduações, vêm há décadas fornecendo apoio decisivo ao aumento de produtividade agrícola brasileira, por meio do excelente trabalho feito pela Universidade Federal de Lavras, pela ESALQ /USP, entre muitas outras.

#4. Pesquisa na saúde

As universidades públicas fazem pesquisa de ponta em áreas decisivas para a saúde da população brasileira, como medicina, farmácia e biotecnologia, com resultados em produtos, e custos muito mais baixos do que os envolvidos em importação de produtos finais similares.

#5. Preservação ambiental do país

As universidades públicas fazem pesquisas que ampliam o conhecimento da fauna e da flora brasileiras, contribuindo decisivamente para a sua preservação, não só através dessas pesquisas, mas também de ações diretas de preservação ambiental.

Portaria da Estação Ecológica da UFMG.

#6. História e cultura brasileiras

As universidades públicas fazem pesquisas que ampliam o conhecimento do passado do Brasil, permitindo entender melhor a forma atual da cultura brasileira, e, assim, uma valorização maior desse legado.

#7. Políticas públicas e desenvolvimento econômico

As universidades públicas fazem pesquisas que mapeiam as carências e as potencialidades das diversas regiões do país, permitindo formular políticas públicas que estimulem o desenvolvimento econômico de cada região.

#8. Hospitais públicos e formação médica

As universidades públicas mantêm grande número de hospitais universitários, os HCs, que realizam milhões de atendimentos por ano, inclusive tratamentos de alta complexidade. Nesses hospitais é feita a formação prática de boa parte dos médicos formados no Brasil.

Hospital das Clínicas da UFMG. Foto: Eber Faioli/UFMG

#9. Parcerias com outros países

As universidades públicas brasileiras realizam grande parte do intercâmbio com pesquisadores das principais universidades do mundo, através de congressos, missões de pesquisa e parcerias com grupos de pesquisa estrangeiros, o que permite que a atualização científica nas diversas áreas seja constantemente mantida.

#10. Ajuda para as comunidades mais carentes

As universidades públicas atendem, de fato, as diversas camadas de renda da população, tornando possível a ampliação de horizontes educacionais, econômicos e sociais tanto para o seu público estudantil, quanto para as comunidades das cidades onde estão instaladas.

 

Em resumo, cidades com universidades públicas têm maiores recursos e oportunidades em saúde, comércio, turismo, educação e desenvolvimento humano.

Se você tem filhos, apoie a universidade pública brasileira. Se não tem, apoie também. As gerações futuras agradecem.

 

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