‘Dumbo’: um Tim Burton mais contido em suas fantasias

Vale a pena assistir no cinema: DUMBO
Nota 8

Quando penso num filme de Tim Burton, logo imagino coisas criativas, fantásticas, extraordinárias ou simplesmente bizarras. Ele foi o mago, afinal, por trás de filmes como “Beetlejuice” (1988), “Edward Mãos de Tesoura” (1990), “Peixe Grande” (2003) e de outras duas adaptações de clássicos antigos: “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005) e “Alice no País das Maravilhas” (2010). Ao ver “Dumbo”, encontrei muitas cenas extraordinariamente bonitas, muita nostalgia, mas Burton esteve mais contido em sua criatividade.

E olha que estamos falando do universo dos circos, já carregados de magia por si só. Sempre imaginei aquelas trupes circenses da primeira metade do século 20, quando ainda não era ambientalmente incorreto carregar animais em jaulas e trilhos, como cenários de aventuras fantásticas, como ciganos detentores de poderes mágicos, capazes de voar pelos trapézios, fazer truques assombrosos e encher os olhos da gente de cores e luzes.

(Claro que, na prática, devia ser uma vida de muito menos glamour e sonhos do que na imaginação coletiva. Mais ou menos como acontece com os piratas, que eu sempre imaginava aventureiros maravilhosos, e me decepcionei ao descobrir que viviam em navios cheios de pulgas, com biscoitos duros estocados nos porões.)

Em “Dumbo”, Tim Burton parece querer explorar mais o lado realista dos circos formados por trupes em trapos do que o lado maravilhoso. Não quero dizer com isso que este filme, que é voltado para as crianças, em essência, intencione discutir o lado histórico ou sociológico das caravanas circenses. Só que, ao lado das cenas mágicas e maravilhosas do filhote de elefante voando, ou de profissionais reais de circo fazendo performances lindas, veremos também muita poeira, muita sombra e um ar mais soturno e de tons pasteis do que vibrante e colorido. Mais de filme de época do que de filme infantil.

Não vemos personagens bizarros e toda aquela loucura divertida, característica de Tim Burton, mas apenas a bizarrice já esperada de personagens de circo, e, de resto, uma história tocante sobre um filhotinho que vira alvo de pessoas gananciosas e que só quer mesmo estar reunido de volta com sua mamãe. Um enredo clássico, com direito aos heróis e vilões e a não muitas surpresas.

Quem leu até agora pode estar achando que não gostei do filme. Não é isso, muito pelo contrário. Só achei diferente da assinatura costumeira do diretor. Mas foi uma experiência nostálgica e muito divertida, ao longo de quase duas horas que passaram, literalmente, voando. O time de atores é de primeira, com feras como Colin Farrell, Michael Keaton, Danny DeVito e Eva Green. Os efeitos especiais, o design de produção e o figurino são impecáveis, dignos de concorrer ao Oscar.

É só que o “Dumbo” original, de 1941, é mais lisérgico e alucinante do que o de Tim Burton, de 2019 – quem diria! Mas em tempos de defesa dos animais, ver os olhinhos azuis expressivos escolhidos para Dumbo talvez faça mais sentido do que ouvir ratinhos conversando com elefantes. Talvez a mensagem contemporânea, mais sisuda, alcance a alma das nossas sérias crianças com mais eficiência do que o formato mais provido de imaginação. Ou talvez este seja mesmo um filme para adultos.

Assista ao trailer do filme:

P.S. Quando meu filho tinha acabado de completar 2 anos de idade, escrevi aqui no blog sobre eu ter levado ele ao cinema pela primeira vez. Naquela tentativa, fomos ver uma animação ruim e, passados dez minutos, tive que sair com ele da sala. Um mês depois, voltamos para ver outra animação (“Peixonauta”) e ele assistiu quase até o fim, mas era um filme bem curto. Depois cheguei a tentar uma terceira e última vez, para ver “Touro Ferdinando”, e a experiência não deve ter chegado aos 30 minutos de duração. Aí desisti. Cinema está muito caro para ficar testando assim, por mais cinéfila que eu seja e por mais vontade que eu tivesse de ter a companhia do meu filho comigo nas sessões.

Este “Dumbo” foi minha quarta tentativa, agora com o Luiz já com 3 anos e meio de idade. Não é uma animação, mas um filme com personagens de carne e osso – assim como em “Menino Maluquinho” e “Mary Poppins”, dois filmes que ele adora assistir em casa mesmo. E desta vez, pela primeira vez, ele viu tudinho comigo até o fim! Foi muito, muito legal a experiência, e nunca vou me esquecer da magia pessoal que “Dumbo” proporcionou nesta relação mãe-e-filho. Nunca vou me esquecer de como o Luiz entrou na história e, sentadinho ao meu lado, ficou olhando tudo sem piscar. De como, no fim, pediu para fazer foto com o cartaz do filme e disse que já estava com saudades. Isso é cinema! Espero transmitir meu amor pelo cinema ao meu baixinho, agora que ele já passou no teste.

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Um filme para quem gosta de DRs intermináveis

Veja se estiver com tempo sobrando: STEVE JOBS
Nota 5

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O filme cobre um período de 16 anos da vida de Steve Jobs, cofundador da Apple. Mas não mostra as coisas acontecendo: elas são contadas para nós, telespectadores, por meio de discussões infindáveis, divididas basicamente em três loooongas cenas. São discussões — em grande parte fictícias — que aconteceram logo antes de três lançamentos importantes da Apple, em 1984, 1988 e 1998.

Jobs, interpretado por Michael Fassbender (“12 Anos de Escravidão”), discute com seu parceiro Steve Wozniak (interpretado pelo normalmente pastelão Seth Rogen), com o ex-CEO da Apple John Sculley (Jeff Daniels), com o desenvolvedor Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg), com a diretora de merketing Joanna Hoffman (Kate Winslet) e com a mãe de sua filha, Chrisann Brennan (Katherine Waterston, de “Vício Inerente”).

Nessas discussões, sempre em cenários parecidos, ficamos conhecendo as histórias por trás do desenvolvimento do Mac, da fundação da Apple, das brigas internas que levaram à demissão de Jobs etc. Mas não vemos nada se desenrolar diante de nós: é como se estivéssemos ouvindo alguém contar como foi, sem ver, e sempre em tom de DR. Para ficar em um exemplo, os primeiros 50 minutos de filme se passam num mesmo cenário desses, com uma mesma discussão, longuíssima. [Bocejos].

Alguém pode achar que esse formato de roteiro, priorizando os diálogos gigantescos, é inovador e interessante. Eu achei um tédio. E mais: achei confuso para quem não conhecesse previamente as histórias por trás do arrogante Steve Jobs (por exemplo, para quem ainda não tivesse visto o filme “Jobs“, de 2013, em que o “gênio” é interpretado por Ashton Kutcher). Pisada de bola do diretor Danny Boyle, que ficou mundialmente famoso com um filme de muitas histórias e aventuras, “Quem Quer Ser Um Milionário?“.

Só não dou nota zero para o filme por causa da ótima atuação de seus atores (afinal, precisam ser realmente muito bons para sustentar duas horas de filme só com diálogos intermináveis), sendo dois deles concorrentes ao Oscar deste ano: Fassbender e Kate Winslet. E porque, em meio a essa barafunda de conversas chatas, gostei da abordagem que foi pensada para contar a relação entre Jobs e sua filha, Lisa. Finalmente um lado humano de Steve Jobs, que tem trabalho até em seu nome.

Veja o trailer do filme:

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Você pode ser um solitário, mas avise para onde vai

Para ver no cinema: 127 HORAS (127 Hours)

Nota 9

Quando a sessão terminou, não se ouvia um pio. Nenhuma daquelas conversinhas pós-filme de sempre, aquele burburinho na sala do cinema. O silêncio do estarrecimento coletivo é algo que poucos filmes conseguem atingir (de cabeça, me lembro de apenas outros dois que presenciei: “O Pianista” e “Dogville“). É sinal de que ali se passou algo marcante, quase pungente, que atingiu a todos da mesma forma.

127 Horas é o filme de um homem só. De um personagem estupendo, interpretado por um ator, James Franco, que merecia ter ganhado o Oscar, independente de ter tido como concorrente um sujeito como Colin Firth. Não é para qualquer um carregar 94 minutos num mesmo cenário, com personagem (praticamente) único.

Todo mundo já entra na sala do cinema sabendo que se trata de uma história real de um sujeito que ficou preso em uma pedra, pelo braço, e que conseguiu, depois de mais de cinco dias, sair dali. Todo mundo sabe que, para a libertação, seriam necessárias altas doses de masoquismo por parte do protagonista (e sadismo, da nossa parte, como espectadores daquilo). O que nos prende tão atentamente à tela, então?

As minúcias. Elas carregam o filme de belíssimas fotografia e edição o tempo todo. E quanto menos se souber sobre elas, melhor o filme vai ficar. Por isso, vou parar por aqui.

Apenas destaco que, de todos os excelentes filmes que concorreram ao Oscar e a que assisti até agora, 127 Horas foi, de longe, o que mais me tocou. Nesses 94 minutos, qual 127 horas, prendi minha respiração várias vezes, virei o rosto da tela, retorci as mãos, fiquei angustiada, ansiosa, em prantos, com medo, chocada, aliviada, pesarosa — e sorri, e ri. É raro um filme despertar tantos sentimentos com um enredo tão simples. Isso só é possível porque temos, diante de nós, um desses raríssimos homens que levam a vida ao extremo e a vivem até as últimas conseqüências. Saber que ele é real torna tudo muito mais valioso.