Pele, osso e uma missão

Para ver no cinema: CLUBE DE COMPRAS DALLAS (Dallas Buyers Club)

Nota 9

dallas

Mesmo hoje, se alguém pega o vírus da aids, a vida não é nada fácil pela frente, certo?

Pois imagine o cenário dos portadores de HIV há trinta anos: o desconhecimento e ignorância acerca da doença eram astronomicamente maiores — logo, o preconceito contra os doentes também era muito maior. E estamos falando de um período em que o coquetel para amenizar os sintomas era apenas experimental. Pacientes eram cobaias vivas de drogas muito mais tóxicas que as atuais –e estavam dispostos a sê-lo, em nome da sobrevivência.

Pra piorar o cenário vivido por Ron Woodroof, nosso herói no filme, ele não estava numa Nova York da vida, mas na conservadora Dallas, no Texas. Lá, e naquela época, era comum a aids ser chamada de “doença de viado” (com essa expressão mesmo). E, a propósito, a homofobia e o machismo estavam tinindo. As agressões e constrangimentos que os homossexuais sofrem hoje não chegam nem aos pés das que existiam naquele tempo.

O próprio Ron, vivido na pele (e no osso) de Matthew McConaughey, era um caubói beberrão e mulherengo, extremamente machista e homofóbico, que quase bate no médico que lhe dá a notícia de que havia contraído o “vírus das bichas”.

Ao longo do filme, vemos uma transformação acontecer em Ron, em todos os sentidos, movida pela vontade de sobreviver. A ponto de ele se associar — depois de todos os seus amigos machões lhe darem as costas — a um transsexual, que acaba virando grande amigo e parceiro de negócios. O negócio em questão é a venda de drogas alternativas para a cura da aids, numa briga que envolveria desde a Receita Federal até a FDA (que é a Anvisa dos Estados Unidos), passando pelo judiciário. No pano de fundo, uma questão que bate na nossa porta todos os dias: o governo tem o direito de determinar que tipo de droga alguém coloca no próprio corpo, mesmo quando essa droga pode trazer mais saúde? A questão é delicada, porque envolve o tráfico, mas também a poderosa indústria farmacêutica, geralmente mais preocupada com o lucro das vendas do que com o conforto real dos pacientes.

Bom, por aí vocês veem que o que faltou a Gravidade tem de sobra neste filme: história. São histórias pessoais de um homem que se transforma, são histórias de pessoas doentes lutando pela sobrevivência, é a história real do surgimento da aids no mundo, é a história dos conflitos éticos vividos por uma médica inserida naquele sistema poderoso e ambíguo das indústrias farmacêuticas. Mas não pensem que o filme corre na onda do melodrama, que vamos ficar chorando sem parar e assustados com tanta gente em dor. O filme é leve, inteligente, passa rápido. O personagem de Ron, à medida que corre sua vida pós-aids, se torna cada vez mais cativante. Até a venda das drogas deixa de ser uma ambição para ganhar ares de missão. Logo nos acostumamos até mesmo com sua aparência subsaariana.

Para fazer esse papel — que é o papel de sua vida — o ex-galã de comédia romântica Matthew McConaughey perdeu 21 quilos. Sobraram, basicamente, sorriso, bigode, chapéu, pele e osso. Sua perna ficou da espessura do meu braço. Se isso não é abraçar um personagem, não sei o que é. E ele não foi o único. Jared Leto, que faz o trans Rayon, parceiro de Ron, perdeu 13 quilos. E está brilhante, talvez até o melhor do filme. Os dois concorrem ao Oscar por suas atuações. O filme também foi indicado pelo roteiro original, edição, maquiagem e melhor filme.

Uma coisa curiosa deste Oscar, que já apontei aqui em outros posts, é como estamos diante de uma safra de filmes sobre personagens reais. Ron Woodroof, que lutou pela sobrevivência de pessoas com aids, se junta a Solomon Northup (o negro que nasceu livre e foi tornado escravo), ao capitão Richard Phillips (que foi feito refém por piratas da Somália), a Jordan Belfort (que fez dinheiro com fraudes em Wall Street), a Philomena Lee (que foi obrigada por freiras a dar o filho para a adoção) e ao pessoal que participou do escândalo Abscam, retratado em “Trapaça“. É um sinal de que a realidade e as pessoas reais — matéria-prima do jornalismo — ainda são mais incríveis do que nossa vã imaginação pode conceber. Sorte nossa.

Leia sobre outros filmes do Oscar 2014:

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2 comentários sobre “Pele, osso e uma missão

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