Um pastor e suas ovelhas negras

Para ver no cinema: O LOBO DE WALL STREET (“The Wolf of Wall Street“)

Nota 9

loboImaginem um pastor, diante de dezenas de fiéis. Seu deus é o dinheiro, que ele vangloria com deleite, elencando o prazer concedido por meio de iates, mansões, carrões e mulheres com peito siliconado. Sua pregação é uma venda dessa vida de luxo. Os fiéis são seus empregados, mas também seus admiradores, eufóricos com a possibilidade de um dia serem como ele. Fanáticos e vorazes, discando em seus telefones, à cata do próximo norte-americano boçal que cairá em um golpe.

Jordan Belfort, o lobo na pele de Leonardo DiCaprio, é um personagem real, embora seja difícil de acreditar. Seu combustível, além da ganância e da depravação, é um punhado de drogas — barbitúricos e cocaína, principalmente — e bastante sexo. Ele é um autêntico yuppie dos anos 80, que conseguiu enriquecer — muito, muito — jogando com a Bolsa de Valores.

O fato de tudo aquilo ter realmente acontecido dá um sabor especial ao filme. Como pode haver tantas pessoas sem qualquer escrúpulo, reunidas assim, com a única motivação de se darem bem? O filme é narrado em primeira pessoa e Jordan faz questão de sempre destacar seus bens. É a melhor mansão, na região mais nobre da cidade. É o melhor iate, é a mulher mais bonita. Etc. Um esbanjamento de fazer corar qualquer rei do camarote. Mas uma hora aquilo ia ter um fim, e a gente já entra prevendo isso. A expectativa de como ele finalmente se daria mal — o anti-herói que consegue ser tão cativante e ao mesmo tempo tão repulsivo — é o que torna a passagem das três horas de filme menos sentida.

Sim, porque o filme tem um defeito: é longo demais. Martin Scorsese gosta de cenas longas. Graças a deus ele também gosta de boa trilha sonora blueseira (com Elmore James, Bo Diddley, Charles Mingus e outros grandes), de bons personagens e gosta do Leonardo DiCaprio, que é um dos melhores atores de sua geração. Então só tenho coragem de tirar um ponto da avaliação, por causa desses 180 minutos de filme que poderiam ter sido 120 numa boa. Afinal, uma boa história bem contada pode durar o tempo que for.

O filme concorre a cinco estatuetas do Oscar: melhor ator (DiCaprio), melhor coadjuvante (o fenomenal Jonah Hill, um dos vários não famosos que completam o elenco de forma brilhante), melhor roteiro adaptado, melhor diretor e melhor filme. Acho que vai levar pelo menos umas três dessas.

Estamos premiando o pastor da sacanagem? Bom, nada muito diferente da lógica que reina até hoje e que levou a bolha dos Estados Unidos estourar há pouco tempo. O lobo é apenas o cara que faz melhor o que muitos como ele gostariam de saber fazer. E o filme é só um novelo que vai desfiando tudo o que condenamos, tudo o que é moralmente proibido, mas que muitos secretamente desejam.

Leia sobre outros filmes do Oscar 2014:

 

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2 comentários sobre “Um pastor e suas ovelhas negras

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