Invasão do Brasil por uma potência estrangeira teria impacto igual ao do programa de Paulo Guedes

Todas as charges deste post são do genial Duke e foram originalmente publicadas no jornal mineiro “O Tempo” – www.otempo.com.br

Texto escrito por José de Souza Castro:

Em setembro de 2017 tive oportunidade de resumir aqui um artigo do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães sobre o programa econômico feito pelo ministro Henrique Meirelles para o governo Temer. O autor se debruçou agora sobre o projeto do sucessor de Meirelles, Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga” do governo Bolsonaro.

O novo artigo tem aproximadamente duas mil palavras. Didático, fácil de ler e entender, o texto de Guimarães foi dividido por ele em 24 itens. A íntegra pode ser lida AQUI. O penúltimo item nem precisa ser resumido. É este:

“23.  A natureza do Governo do Presidente Jair Bolsonaro, em seu ataque permanente e enviesado às instituições econômicas, sociais e políticas, é tão radical que a implementação de suas políticas terá resultados mais graves do que as políticas que decorreriam da invasão e da ocupação do Brasil por uma Potência estrangeira, que se empenhasse em dificultar o desenvolvimento do país e de submetê-lo a seus interesses políticos, econômicos e militares.”

O embaixador tem 79 anos. Formou-se em 1963 em Ciências Jurídicas e Sociais na Universidade do Brasil e em 1969 concluiu o mestrado de economia na Universidade de Boston. Entre os diversos cargos que ocupou, foi secretário-geral de Relações Exteriores do Itamaraty entre 2003 e 2009 e ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos entre 2009 e 2010, no governo Lula.

Segundo Samuel Pinheiro Guimarães, é uma “terceirização” inédita na História do Brasil a decisão do presidente Bolsonaro de transferir a um economista ultraliberal, cuja visão é a visão do mercado, toda a responsabilidade para formular e executar a política econômica.

Guedes adotou, integralmente, o Projeto do Mercado para o Brasil. É o projeto dos muito ricos, dos megainvestidores, das empresas estrangeiras, dos rentistas, dos grandes ruralistas, dos proprietários dos meios de comunicação de massa, dos grandes empresários, dos grandes banqueiros, e de seus representantes na política, na mídia e na academia. “É o projeto de uma ínfima minoria de indivíduos, para se beneficiar como ínfima minoria do trabalho de 210 milhões de brasileiros”.

Acrescenta Guimarães que dos 150 milhões de brasileiros adultos (o que corresponde ao número de eleitores), 120 milhões ganham menos de dois salários mínimos por mês e estão isentos de apresentar declaração de renda. E cerca de 20 mil que declaram ter renda superior a 160 salários mínimos por mês são os que controlam o mercado. É para estes que o ministro de Bolsonaro quer governar.

E pretende convencer o restante da população de que são verdadeiras estas suas premissas: a iniciativa privada pode resolver sozinha todos os problemas brasileiros; a iniciativa privada estrangeira é melhor do que a brasileira; o Estado impede a ação eficiente da iniciativa privada; é correta a teoria das vantagens comparativas para explicar a divisão internacional do trabalho entre nações industriais e nações produtoras/exportadoras de matérias primas, e que incluiria, entre essas últimas, o Brasil; o Brasil deve procurar se aliar econômica e politicamente a Estados poderosos do Ocidente, em especial aos Estados Unidos, e não a países subdesenvolvidos, pobres, atrasados, turbulentos.

Entre as políticas que estão sendo executadas por Guedes, em conformidade com aquelas premissas, estão o congelamento constitucional dos gastos públicos primários, em termos reais, por vinte anos; a prioridade absoluta ao pagamento do serviço da dívida pública; o não aumento de impostos e até redução de impostos (e, portanto, de receitas públicas); a privatização, para o capital nacional ou estrangeiro, de todas as empresas do Estado, agora de forma acelerada; a reforma (privatização) da Previdência; a abertura de todos os setores da economia a empresas estrangeiras; a eliminação radical e unilateral de tarifas aduaneiras; a revogação da legislação trabalhista para reduzir o “custo” do trabalho; a política anti-inflacionária, de real valorizado e juros elevados, com consequente desindustrialização; a redução dos impostos sobre as empresas; a desregulamentação geral; a redução do Estado ao mínimo, e sua degradação técnica, com redução de órgãos, funcionários e salários; a descentralização de competência e de recursos da União para Estados e Municípios; e o alinhamento político, militar e econômico com os Estados Unidos, através da participação na OTAN e na OCDE.

Para quem acompanha o noticiário, sabe que essa política vem sendo implementada desde 2016,  no governo Temer.

E as consequências, de acordo com o embaixador, são visíveis: as medidas geraram 13 milhões de desempregados, mais de seis milhões de “desalentados”, 40 milhões de empregados informais (sem carteira e sem direitos), 60 milhões de endividados, falência de centenas de milhares de empresas, estagnação da economia, deterioração da infraestrutura, aumento da desindustrialização, precarização dos sistemas de saúde e educação, retorno de doenças que haviam sido erradicadas e não conseguiram, nem de longe, gerar a “confiança” dos investidores.

Tem mais, diz o embaixador. A política econômica de Paulo Guedes está destruindo os recursos naturais, mediante a liberação indiscriminada de agrotóxicos, da não repressão ao desmatamento e da leniência nas liberações ambientais. Está permitindo a degradação da infraestrutura de transportes, degradando a força de trabalho, destruindo a indústria, ameaçando-a com a redução unilateral e radical de tarifas aduaneiras, e o sistema de pesquisa científica e tecnológica.

Ao mesmo tempo, consolida o sistema financeiro improdutivo, o que se agravará com a eventual autonomia do Banco Central e sua “captura” definitiva pelos bancos, enquanto destrói a capacidade do Estado de promover o desenvolvimento, através da desarticulação e privatização dos bancos públicos, do corte de cargos; da transferência de competências da União para Estados e municípios.

Destrói também “a capacidade de construir um sistema dissuasório de Defesa da Soberania”, lamenta o embaixador, que poderia acrescentar que isso ocorre nas barbas dos generais que assessoram o governo Bolsonaro. Há mais coisas que ele diz, e que você pode ler no próprio artigo de Samuel Pinheiro Guimarães. Não perderá seu tempo.

Para concluir: o capitão Bolsonaro, se ele quer mesmo fazer tudo o que Paulo Guedes planeja, teria muito a ensinar a Hitler. Soubesse tudo o que sabemos agora, o ditador alemão poderia espalhar sua doutrina por todos aqueles países que invadiu e ocupou sem disparar nenhum tiro. E matar, igualmente, milhões de pessoas – de fome e miséria.

Leia também:

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‘Dor e Glória’: o filme da vida de Almodóvar, literalmente

Vale a pena ver no cinema: DOR E GLÓRIA (Dolor y Gloria)
Nota 9

Não foram tantos filmes assim que vi de Pedro Almodóvar, ainda mais para alguém que se define como cinéfila. A Pele que Habito (2011), Abraços Partidos (2009), Fale com Ela (2002), Tudo Sobre Minha Mãe (1999), Carne Trêmula (1997), e acho que só. Mas uma coisa todos eles tiveram em comum: são ótimos.

Este “Dor e Glória”, no entanto, me tocou de um jeito que poucos já tinham me tocado antes. Talvez a sensibilidade seja por conta de tratar-se, como só fui descobrir depois, de uma espécie de filme de memórias de Almodóvar. É como o “Roma” do mexicano Alfonso Cuarón: um filme feito com a nostalgia afetuosa apenas dedicada às nossas memórias mais antigas, às da infância, às da vida em família, às das primeiras descobertas importantes.

Em pelo menos duas cenas, chorei tanto, mas tanto, que fiquei com medo de soluçar e fazer barulho na sala do cinema Belas Artes. Assim, fiquei alguns segundos simplesmente retendo ar, com dificuldade de respirar, nas lágrimas mais mudas que pude. (Para quem já tiver visto: foi na cena do desenho encontrado e do ovo de herança).

Antonio Banderas está maravilhoso!

E por que tanta comoção? Porque é um filme belíssimo sobre muitas coisas, que envolvem o amor materno, o amor sexual, a identidade, a paixão pelo trabalho, as dores que imobilizam (inclusive as psicológicas), a capacidade de perdoar, a passagem do tempo, o reencontro com o passado, o vício, a dependência, a redenção. Em menos de duas horas, Almodóvar consegue tocar em todas essas questões, com delicadeza, profundidade, graça, muitas cor e numa narrativa que mescla presente e passado com grande desenvoltura. O filme corre tão bem que nem a colocação de um monólogo teatral bem no meio interfere em sua fluidez.

Não se enganem, porém, ao achar que trata-se de um dramalhão. Que é um filme apenas triste. A linguagem de Almodóvar, como aconteceu nos outros longas dele que vi, comporta muitos momentos de humor e leveza, que são sua marca registrada. E, sobretudo, de grande beleza.

Penélope Cruz faz um papel importante, embora pequeno.

Entre os atores que compõem um elenco enxuto, mas de muito peso, estão os sempre maravilhosos Antonio Banderas (que levou o prêmio de Cannes por este papel de alter-ego de Almodóvar) e Penélope Cruz. Os outros que se destacam são Asier Etxeandia (Alberto Crespo), Leonardo Sbaraglia (Federico Delgado) e Nora Navas (Mercedes). Mas o filme gira quase o tempo todo em torno de Banderas, em atuação impecável em todos os momentos. Podia ser um monólogo com ele, e talvez desse certo do mesmo jeito.

O outro prêmio importante que o filme levou em Cannes foi pela trilha sonora de Alberto Iglesias, que já foi indicado a três Oscars em sua carreira, por O Espião Que Sabia Demais (2011), O Caçador de Pipas (2007) e O Jardineiro Fiel (2005), que também lhe rendeu um Cannes.

A quem tiver curiosidade, a trilha impactante já está no Youtube:

Acho que os prêmios não vão parar por aí.

“Dor e Glória”, assim como Almodóvar, que é a mais pura definição desses substantivos, merecem arrebatar muitas audiências vindouras. Que venha o Oscar 2020!

Assista ao trailer do filme:

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Começou a caça aos ipês de 2019!

O inverno tinha começado havia apenas uma semana quando resolvi aproveitar minha folga, na última sexta-feira, para fazer alguns flagrantes de ipês maravilhosos espalhados pela cidade. Naquele dia, eu tinha ido ao Parque das Mangabeiras para um piquenique em família e fiquei triste por ter perdido a oportunidade de fotografar os lindos ipês que enchiam a Praça do Papa de rosa e roxo. Mas acabei escolhendo a região da Savassi para os cliques que fiz depois do almoço. Eles foram flagrados na avenida do Contorno, na Cristóvão Colombo, na Praça da Liberdade (em sua maioria) e na rua da Bahia. O destaque maior vai para o ipê roxo absolutamente DESLUMBRANTE que estava em seu auge na praça, bem na esquina com a rua Gonçalves Dias. Vocês verão que, só dele, fiz nada menos que seis fotos.

Ao todo, foram 32 fotografias (número atualizado para 54 fotos até 10.7.2019) das minhas árvores favoritas, espalhadas ao longo de apenas 2 km de percurso. Com elas, dou início à caça aos ipês deste ano!

Não sabe o que é isso? Explico: é uma tradição deste blog desde o inverno de 2014, quando recebi 70 fotos de ipês, enviadas por leitores de todas as partes do Brasil. Em 2015, recebi 56 fotos. E, em 2017, foram 84 cliques. Repito o desafio neste ano: você viu algum ipê dando sopa por aí? Roxo, rosa, amarelo, branco? Envie a foto com o nome de quem fez o clique, a data da foto e o endereço onde ela foi clicada (pelo menos a cidade, OK?). Ela vai ajudar a colorir a galeria definitiva do blog, que já tem mais de 200 fotos e é uma das páginas mais acessadas deste blog 😉

Você pode me mandar a foto por e-mail, pela página do blog no Facebook, pelo Twitter do blog, ou pode marcar o blog no Instagram (@blogdakikacastro). Não precisa ser nenhum profissional, o importante é demonstrar seu amor por esta beleza da natureza! ❤

Agora vamos ao que interessa:

P.S. Meus favoritos são os ipês amarelos, mas eles sempre florescem mais tarde. Vou atualizar esta galeria à medida que as fotos chegarem e, no início da primavera, vou postar aqui o resultado, ok? Espero que com muito mais cores e endereços! 😉

Leia também:

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Os posts mais lidos do primeiro semestre de 2019

Os posts mais lidos deste início de 2019, e escritos neste ano, são especialmente sobre duas tragédias que se abateram sobre o Brasil em janeiro: a de Brumadinho, com mais de 200 mortos, e a do governo Bolsonaro, com mais de 200 milhões de feridos. Entre mortos e feridos, sobrou vontade de assistir a alguma coisa na Netflix para espairecer.

Pra quem ainda não leu, pra quem gostaria de reler:

#1

Um poema para Brumadinho (ou: ‘O segundo crime da Vale’)

#2

Tragédia em Brumadinho: uma escolha humana

#3

Em 1 mês de governo Jair Bolsonaro, pelo menos 40 retrocessos e absurdos; veja a lista

#4

Para ver em 2019: as melhores séries da Netflix, segundo os leitores do blog

#5

UFMG não é espaço de balbúrdia, é espaço do saber; balbúrdia é este governo federal!

Teve outro post favorito neste ano? Conte aí qual foi! 😉 


Leia também:

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#PérolasDoLuiz – Entrevista com a pediatra

Luiz estava na consulta da pediatra, com o pai.

No meio da conversa, ao ser questionada sobre a tosse frequente dele, a pediatra pergunta:

– Ele está roncando à noite?

O Luiz, que estava brincando quietinho numa mesinha no canto, ouviu a pergunta e, antes que o pai tivesse tempo de responder qualquer coisa, declarou:

– Eu não, dra. Rita. Quem ronca é o papai!

 

Leia também:

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