Os Anos, de Annie Ernaux: leia minha resenha do livro

Foto de Annie Ernaux na capa do livro Os Anos (editora Fósforo)
Foto de Annie Ernaux na capa do livro Os Anos (editora Fósforo)

Embora não tenha sido meu livro favorito de Annie Ernaux (mesmo sendo o mais famoso dela, inclusive incluído na lista dos melhores livros do século 21), gostei de muitos pontos de “Os Anos”.

A começar pelo começo. E quando digo começo, me refiro ao começo mesmo, antes do começo, ou seja à epígrafe escolhida pela autora. Esta citação de Tchékhov:

“Sim. Seremos esquecidos. É a vida, nada podemos fazer. Aquilo que hoje parece importante, grave, cheio de consequências, um dia será esquecido, deixará de ter relevância. E o curioso é que não podemos saber hoje o que será um dia considerado grande e importante ou medíocre e ridículo. (…) Pode ser também que esta vida de hoje à qual nos agarramos seja um dia considerada estranha, desconfortável, desprovida de inteligência, insuficientemente pura e, quem sabe até, passível de culpa.”

Depois, já quando é a voz de Annie Ernaux que se inicia, a obra dela começa de cara com esta paulada:

“Todas as imagens vão desaparecer.”

E aí ela desfia uma porção de cenas, imagens e memórias, e conclui, quatro páginas depois:

Trecho da página 10 do livro Os Anos, de Annie Ernaux
Trecho da página 10 do livro Os Anos, de Annie Ernaux.

No capítulo seguinte, não numerado, outra paulada:

“Milhares de palavras vão sumir de repente, palavras que serviram para nomear coisas, rostos de pessoas, ações e sentimentos. Palavras que serviram para organizar o mundo, disparar o coração e umedecer o sexo.”

E segue listando várias dessas frases, palavras, ideais, reflexões que também vão ser esquecidas. Concluindo, pouco depois:

“Tudo vai se apagar em um segundo. O vocabulário acumulado, do berço ao leito final, será eliminado. Restará somente o silêncio, sem palavra alguma para nomeá-lo. Da boca aberta não vai sair mais nada. Nem eu, nem meu. A língua continuará inventando o mundo com palavras. Nas conversas ao redor de uma mesa em dias de festa, nós seremos apenas um nome, cujo rosto vai se desvanecer até desaparecer na massa anônima de uma geração distante.”

Bom, se começamos de cara com estas certezas, de que tanto as imagens das memórias quanto as palavras que as descrevem vão em breve desaparecer, o que vemos, nas mais de 200 páginas seguintes, é o esforço da escritora para preservá-las, guardá-las para a posteridade, documentá-las enquanto continuavam vivas dentro de si.

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E é assim que se passa “Os Anos”, com a documentação e registro detalhado de tudo o que Annie viveu e de que se lembra, desde sua infância (ela nasceu em 1940), até os dias atuais (o livro foi publicado em 2008).

Desta vez, contendo muito menos “autobiografia” do que “sociologia”. Ela usa, sim, sua experiência íntima e individual para contar sobre todos aqueles anos do conturbado século 20, inclusive com muitas descrições de fotografias em que ela aparece, desde bebê até idosa, e de almoços em família, com os assuntos que eram tratados ali.

Mas o foco do livro não é ela, nem sua família. É o coletivo, é a sociedade francesa, quiçá mundial. Tanto que ela nunca usa o pronome “eu”. É sempre “ela” (marcando o distanciamento proposital da sua pessoa) ou, no máximo, “nós” (reforçando a ideia de que estava querendo retratar a coletividade).

Ao tratar dos almoços, por exemplo, ela não descreve quem diz o quê, mas o que era discutido naquela época, entre aquela geração. Como era o relacionamento entre pais e filhos. Como os jovens tratavam os mais velhos. Qual guerra era o tema do momento etc.

Tanto os almoços quanto as fotos servem de respiros para abordagens mais detalhadas sobre o que se passava naqueles anos. Ou como costuras entre um período e outro.

E, assim, ela relembra a Segunda Guerra Mundial, e depois tantas outras: na Argélia, no Vietnã, no Afeganistão, no Irã, nas Malvinas, no Líbano, na Iugoslávia, no Kosovo, no Iraque.

Relembra também outros tantos momentos marcantes da história, como maio de 68, a queda do Muro de Berlim e o 11 de Setembro.

A luta pelo divórcio, a luta pelo direito ao aborto, a luta pela liberdade das mulheres, o declínio das religiões, a xenofobia, a islamofobia, as várias passeatas e greves, o surto de Aids, os atentados terroristas, as chegadas de novas tecnologias, como a TV, o fax, o computador, o celular. (Ela descreve o espanto que sentiam todos quando surgiu o celular, e a vergonha que era quando o telefone tocava no meio da rua.)

Muito politizada, ela relembra várias eleições na França, em detalhes. O medo quando a extrema-direita começou a se fortalecer de novo, com o discurso de Le Pen (não a Marine, que assombra os franceses hoje, mas seu pai, Jean-Marie Le Pen). Deixa claro, nesta breve história de 1940 a 2008, o quanto o mundo é cíclico, dá voltas, o quanto os fatos e discursos se repetem, as modas e ideologias vão e voltam, os conflitos geracionais, no fundo, se parecem.

Só uma coisa parece irrefreável: o consumo. Não só irrefreável, mas crescente mesmo, tendendo ao infinito.

Ela descreve, extraordinariamente, como a sociedade do consumo surgiu no pós-guerra, com a invenção de bens que ninguém tinha, que eram totalmente prescindíveis na vida das pessoas, e subitamente passaram a ser vistos como inestimáveis. Desde a TV, lá atrás, até os hipermercados modernos, abarrotados de quinquilharias pensadas para atender a milhões de “necessidades” desnecessárias:

“Tudo o que existe, o ar, quente e frio, a grama e as formigas, o suor e o ronco noturno, poderia infinitamente gerar mercadorias e produtos em uma subdivisão contínua da realidade e em um desdobramento dos objetos. A imaginação comercial não tinha limites.” (página 198)

E esse consumismo desenfreado, essa comercialização de TUDO, também está intimamente ligado ao surgimento contínuo de novas tecnologias: “Não acompanhar os novos produtos significava aceitar o envelhecimento”. (Paralelamente a essa profusão crescente de produtos para serem consumidos, até como se fosse “um preço a se pagar”, ocorria o aumento dos pobres, dos moradores de rua e da mendicância.)

Acho que isso foi o que mais me pegou neste livro. Ver como o tédio e a paradeza da infância dos anos 40 foram dando lugar a uma sociedade irrequieta, do ultraconsumo e da ultravelocidade. E olha que muito mais já aconteceu, numa velocidade ainda mais irrefreável, entre 2008, quando o livro saiu, e este 2026, quando o li.

Achei bem diferente de outros livros dela, que eram mais focados na sua história pessoal. Por outro lado, embora este tenha a pretensão de capturar todo um tempo, achei que muitos trechos acabaram ficando regionalizados demais, com personagens que só dizem respeito à França e aos franceses, desconhecidos do resto do mundo. Com uma pequena edição, poderia ter ficado mais universal, mais palatável para uma brasileira nascida nos anos 80, por exemplo.

Mas, no capítulo final, deu pra ver que ela queria mesmo era salvar essa memória afetiva que dizia respeito ao seu povo, mais do que a um tempo universal. E, por mais difícil que tenha sido essa missão que ela perseguiu por anos, acho que ela conseguiu a proeza que mais queria, diante do inevitável apagar de memórias, imagens e palavras sobre o qual já falamos:

“Salvar alguma coisa deste tempo no qual nós nunca mais estaremos.”

(Lembrando que o “nós”, neste livro, é ela própria – e sua geração.)

Pronto, Annie, você conseguiu. Suas memórias não vão mais ser esquecidas. Você tampouco. Estão salvas, e assim ficarão por muitos anos ainda, até muito depois que você se for.

 

Livro Os Anos, de Annie Ernaux“Os anos”
Annie Ernaux
ed. Fósforo
219 páginas
R$ 65 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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