Lenda eleitoral no interior de Minas

Foto: Wikimedia Commons

Câmara Municipal de Bom Despacho. Foto: Wikimedia Commons

Texto escrito por José de Souza Castro:

Confesso: nestas eleições, quase fiz parte dos mais de 40% dos eleitores de Belo Horizonte que não votaram em ninguém, ou porque se ausentaram ou porque preferiram anular o voto ou votar em branco. Na última hora, resolvi votar, sabendo que para o segundo turno seriam eleitos, não com o meu voto, os candidatos João Leite, do PSDB, e Alexandre Kalil, do PHS.

Depois li que boa parte dos 144 milhões de eleitores não se animou a sair de casa no domingo para votar. Coitados dos quase 500 mil candidatos espalhados pelos municípios brasileiros… Analisando o fenômeno, o professor Wanderley Guilherme dos Santos concluiu: “Ninguém, rigorosamente ninguém, tem a confiança sólida de eleitor”.

Pensei: se eu residisse em Bom Despacho, como moraram meus avós maternos e ainda moram inúmeros tios, primos, sobrinhos, cunhados e uma irmã – a outra, que criou sua família ali, já morreu –, não teria dúvida: eu votaria em Fernando Cabral, e não só por ser meu primo. É um dos 12 filhos do tio Totonho, o contador de histórias.

Fernando Cabral trabalhou comigo no “Jornal do Brasil” na década de 1970, cobrindo férias do fotógrafo da sucursal mineira. Depois foi para Brasília, formou-se em curso de Matemática e de Direito, fundou empresa na área de informática, passou num concurso para procurador da República, vendeu a empresa e, tempos depois, voltou a Bom Despacho, cidade do Oeste de Minas, onde havia nascido em 1951.

Em 2008, resolveu se candidatar a vereador pelo PPS. Apresentou à Justiça Eleitoral declaração de bens num total de quase R$ 1,7 milhão. Foi eleito com 1.430 votos, o mais bem votado. E dedicou-se a fazer oposição ao prefeito Haroldo Queiroz, do PMDB – um pobre coitado, com bens declarados de R$ 213,9 mil em 2008, mas com forte apoio de Newton Cardoso. Outro pobre coitado, como se sabe.

Em 2016, Queiroz se apresentou à Justiça Eleitoral mais uma vez como candidato a prefeito pela coligação “A Força do Povo Está de Volta”, formada pelo seu partido, o PMDB, mais seis outros, entre eles o PSB e o PCdoB. Então, declarou patrimônio de R$ 327,3 mil.

Por princípio, não votaria em nenhum candidato apoiado por Newton Cardoso, cujas peripécias como governador eu conheci bem quando trabalhava no “Jornal do Brasil”. Em Queiroz, eu tinha mais razão ainda. Em 2010, escrevi sobre ele para o blog do professor Fernando Massote e o artigo foi reproduzido no blog de Fernando Cabral.

Portanto, eu nunca estaria entre os 9.815 eleitores que votaram no ex-prefeito no último domingo. Muitos deles, certamente, acreditando que o patrimônio do candidato era mesmo de apenas R$ 327,3 mil. O pobre candidato do PMDB, em oito anos, quatro deles como prefeito, não aumentou seus bens em mais do que R$ 113 mil…

Mesmo assim, nesse aspecto, foi mais bem sucedido que o adversário Fernando Cabral, cuja evolução patrimonial, de 2008 a 2016, foi de 46,48%. Contra os 53,04% de Queiroz.

Vista Lateral da Igreja Matriz Nossa Senhora do Bom Despacho. Foto: Wikimedia Commons

Vista Lateral da Igreja Matriz Nossa Senhora do Bom Despacho. Foto: Wikimedia Commons

Os 17.322 eleitores que reelegeram Cabral devem saber o que faziam, pois tiveram quatro anos para avaliar a administração do prefeito. Em 2012, quando declarara bens de R$ 2,476 milhões (R$ 7 mil menos que em 2016), ele teve os votos de 8.296 eleitores, ou 31,4% do total. Agora, foram de 61,8%.

O terceiro candidato, Maurício Reis, do PRB, ficou com 3,1%. Votos brancos e nulos somaram 2.061, ou 8,1% dos eleitores inscritos. Bem menos da média brasileira. Certamente, bem menos que o relatado AQUI.

Em Bom Despacho, chama a atenção também o que os dois principais candidatos a prefeito declaram ter arrecadado e gastado em suas campanhas. A Justiça Eleitoral havia permitido gastar no máximo R$ 211.517,87 por candidato a prefeito. Cabral arrecadou R$ 31,3 mil doados por 28 doadores, dos quais R$ 10 mil do próprio candidato, e declarou gastos de apenas R$ 9,62 mil. Queiroz declarou arrecadação de R$ 7 mil, com três doadores – ele não foi um deles –, e um total de despesas de R$ 83,64 mil.

Posso afirmar que os dois fizeram campanhas baratas. Acho que qualquer candidato, Brasil afora, teria muito a aprender com o candidato eleito em Bom Despacho que, além de gastar pouco, ainda teve superávit na campanha, enquanto o outro teve déficit dez vezes maior que o arrecadado. Pobre coitado!

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