Tio Totonho, um contador de estórias

Tio Totonho na festa dos 90 anos. Bom Despacho, 21 de julho de 2013

 

Texto escrito por José de Souza Castro:

Na minha família, tivemos bons contadores de história. Os melhores deles talvez nunca tivessem escrito uma. Mas tinham um dom natural para a narrativa do que tinham ouvido outros contarem ou de acontecimentos engraçados de sua própria vida. Quando transcritas para o papel por um escriba como eu, perdem a graça. Fica faltando o gestual, a expressão do rosto, os tornos e contornos da fala.

Tio Totonho, que morreu neste dia 23 de abril, aos 91 anos, era um deles. Foi velado no Cemitério Novo de Bom Despacho, onde um dos 12 filhos, o Fernando Cabral, é o prefeito.

A família fez no dia 21 de julho de 2013 uma festa para comemorar os 90 anos de idade do Tio Totonho. O que menos aproveitou a festa deve ter sido ele, a julgar pela expressão de seu rosto, na foto acima. A sanfona que aparece atrás dele, não sei se a mesma, era uma velha companheira.

Quando menino, Tio Totonho e Tio Chico alegravam nossas noites com uma “oito baixos”. Tio Luiz cantava muito bem, como todos os outros irmãos. “Menino da Porteira” era uma das preferidas de todos nós, gente da roça.

Esses três irmãos já se foram, mas restam mais seis. Com uma pequena diferença de idade, Tio Totonho e Tio Chico eram inseparáveis, quando meninos. Os percalços da vida nunca os separaram – e sempre moraram na mesma cidade, desde que os pais foram morar em Bom Despacho, no começo da década de 40.

Uma das histórias que tio Totonho gostava de contar e que mostrava bem a pobreza da família. Só havia dinheiro para comprar um par de sapatos, para que caminhassem alguns quilômetros até a escola na cidade. Cada um calçava um pé. Para despistar, amarravam uma tira de pano no dedão do outro pé. O expediente foi descoberto por uma coleguinha mais observadora, que exclamou: “Uai, ontem o seu dedo machucado era do outro pé!”. Tio Totonho havia se enganado na hora de calçar o pé de sapato. O bom é que nunca mais precisou fingir que não era pobre.

Outra história que ouvi dele, no dia seguinte àquela festa de aniversário:

“Eu era gerente do cinema e resolvi montar um salão de sinuca. Comprei cinco mesas, para pagar a prestações. Custavam caro… Quando elas chegaram, eu estava muito preocupado, pois nunca tinha comprado em prestações na vida. Contei ao compadre Homero (meu pai), e ele falou assim: ‘Não precisa preocupar, compadre, porque uma coisa que dá muito dinheiro é o vício dos homens’. Então, instalei as mesas. Foi um trabalhão, daí pra frente. Tinha um empregado que tomava conta durante o dia. Depois do cinema, eu ia para lá e ele saía para descansar. Quando voltava no dia seguinte de manhã, ainda tinha gente jogando, ele ficava no meu lugar e eu ia para casa dormir. E olha que, depois da meia-noite, a hora de sinuca custava o dobro… Trabalhei muito e dormi pouco naquele tempo, mas deu um bom dinheiro. Depois que acabei de pagar as prestações, comprei mais cinco mesas.”

A seu modo, era um empreendedor. Com a mulher, Tia Maria, que se despediu dele ontem depois de mais de 60 anos juntos, criou os 12 filhos e deu a eles condições para que se formassem em cursos universitários. Bem calçados. Depois da sinuca, vieram outros pequenos negócios que garantiram ao casal e aos filhos, quando crianças e adolescentes, uma vida digna, numa cidade de hábitos simples.

É culpa minha, se lembrei de Antônio Cabral Sobrinho como contador de história, mais do que tudo mais que ele fez na vida.

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5 comentários sobre “Tio Totonho, um contador de estórias

  1. Se “Quando transcritas para o papel por um escriba como eu, perdem a graça” eu nunca mais escrevo nada na vida rs.
    Força e viva Tio Totonho

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  2. Totonho da Maria ou Maria do Totonho! De tanto tempo juntos se misturaram e se tornaram uma so carne ,uma so alma! Sempre tive muita admiraçao por este casal, que dei hoje a nota 1000. Parece que entramos agora no periodo das perdas dos primos e Totonho da Maria deixa um grande legado para uma instituiçao chamada FAMILIA! Obrigada primo pelas visitas alegres com seu irmao `Chico ao meu querido pai (Tenente Sousa). Vai em paz e abrace a todos que nos precederam e se encontram agora na Gloria de Deus!

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