De veterinária a retratista de cavalos

A artista Raquel Fernandes. Todas as fotos: Reprodução / Facebook. Clique para ver em tamanho real

Hoje vou contar a história de Raquel. É uma daquelas pessoas que a gente conhece na vida que, já bem estabelecidas em um caminho, decidem dar uma guinada, largar a estrada antiga na poeira e cursar outro trajeto completamente diferente. Ou seja, é uma pessoa inspiradora para todos aqueles que não estão lá muito satisfeitos em suas profissões escolhidas, mas tampouco criaram ainda coragem para arriscar o plano B.

O fato é que Raquel “sempre quis” ser veterinária.

Sabe aquele sonho de criança? “O que você vai ser quando crescer?”, costumavam perguntar os professores. E ela já tinha a profissão na ponta da língua. Não queria lidar com cães e gatinhos: sua paixão especial eram os cavalos. Ela aprendeu a conhecê-los e amá-los na fazenda do avô paterno, em Corinto (MG), onde ia passear quase todos os fins de semana. E uma de suas brincadeiras prediletas era, desde pequena, desenhar e pintar cavalos.

A vida foi seguindo o percurso previsto (e mais previsível). Ela fez faculdade de medicina veterinária, na UFMG, onde continuava pintando cavalos, mais por hobby e diversão, em camisetas que depois vendia. Formou-se em 2005 e, depois disso, passou nove anos entre sua casa e as fazendas onde clinicava. De um lado para o outro, eram 6.000 km de estradas rodadas por mês.

Desenhos que ela fazia a mão em camisetas, ainda na época da faculdade.

Desenhos que ela fazia à mão em camisetas, ainda na época da faculdade. Clique para ver em tamanho real

Cansada de tantas estradas, ela entrou naquela fase por que todo mundo passa pelo menos uma vez na vida. Sabe a crise dos 30? Será que essa profissão é mesmo aquela com que sempre sonhei? “Eu estava cansada do ritmo de trabalho, que me ocupava muito, daquele excesso de estrada”, contou-me Raquel. “Era um cansaço físico mesmo, da falta de reconhecimento da profissão e retorno financeiro que não condizia com as horas trabalhadas e riscos inerentes à profissão.”

Um dia, um amigo fez um convite que seria definidor: “Que tal colocar alguns de seus quadros (que ela sempre pintava por hobby) em meu estande na exposição nacional do Mangalarga Marchador?” Ela topou. Não só vendeu quase todos os quadros que tinha levado como começou a receber encomendas.

Era o ano de 2013 e aquela experiência foi a sacudida que Raquel precisava para largar a veterinária sem abandonar os amados cavalos.

Autodidata, Raquel Fernandes, hoje com 33 anos, foi se firmando em um mercado ainda restrito, chamando a atenção pela perfeição dos retratos, pelo cuidado com os detalhes que tornam cada animal único para seu dono. A paisagem ao redor dos cavalos e bois não é o principal: os quadrúpedes têm total foco dos pincéis de Raquel Fernandes, com todas as ruguinhas, dobrinhas e pelinhos mais minúsculos em seu devido lugar.

Detalhe de uma pintura em construção. Arte de Raquel Fernandes.

Detalhe de uma pintura em construção. Arte de Raquel Fernandes.

“O realismo está em mim, tenho esta facilidade e acho incrível também. É meu diferencial e, querendo ou não, são poucos artistas que fazem cavalos desta maneira, então tenho que aproveitar isso.”

O quadro e a foto de referência: qual é qual? Arte de Raquel Fernandes

O quadro e a foto de referência: qual é qual? Arte de Raquel Fernandes

Mesmo assim, de vez em quando ela explora outras possibilidades menos realistas. Gosta de experimentar materiais, do grafite, carvão e pastel às tintas a óleo, acrílica e aquarela. Entre suas principais influências, cita Salvador Dali (“tenho ele tatuado em mim!”), Picasso (“aquele cavalo todo monstruoso de Guernica mexia muito comigo!”), Franz Marc (“pelas cores e formas”) e Leonardo Da Vinci (“sou absolutamente apaixonada pelo estudo para a escultura do cavalo que nunca foi feita!”). Mas ela emenda: “As influências na arte são constantes, não vêm de um ou outro artista — o importante é estar aberto para tudo o que aparece, aprender a sentir, seja vendo uma pintura, ouvindo uma música, lendo um livro.”

Experimentações de Raquel Fernandes

Experimentações de Raquel Fernandes. Clique para ver em tamanho real.

Peço para ela me dizer qual de seus quadros é o favorito. Um mais realista ou algum mais solto? É categórica: “Não tem favorito… são como filhos!”

Mas acaba cedendo e aponta alguns dos que mais gostou de pintar:

Arte de Raquel Fernandes

Arte de Raquel Fernandes

Arte de Raquel Fernandes

Estanho de Alcatéia. Arte de Raquel Fernandes

Arte de Raquel Fernandes

Quadro “Piaffe”. Arte de Raquel Fernandes

Arte de Raquel Fernandes

Quadro “Sonho”. Arte de Raquel Fernandes

Quanto tempo leva para fazer um quadro desses? A resposta, como tudo na arte, é indefinida: de uma tarde a um mês. “O quadro ‘Sonho’ tem este nome por eu ter sonhado com ele… Em pouco tempo busquei uma referência na posição que queria, tracei a tela e pintei. Em uma tarde, o processo todo aconteceu.” É a danada da inspiração — nem sempre vinda em forma de sonho — que pode levar um quadro a demorar muito mais tempo para ficar pronto. Por isso, quando fecha uma encomenda, ela sempre pede um prazo mais esticado, de até 40 dias, para garantir tempo suficiente para um bom trabalho.

Trabalhando!

Trabalhando! Fotos: Reprodução / Facebook

Hoje, Raquel Fernandes recebe em média quatro encomendas por mês, principalmente para fazer retratos, que são sua especialidade. No Brasil inteiro, segundo ela, há no máximo seis retratistas que pintam cavalos com qualidade. Assim, embora o mercado não seja tão grande, a concorrência também não é o maior problema, e Raquel já consegue sobreviver só com a arte que faz desde aquela primeira feira em 2013, tendo desistido de vez da veterinária. “Quando decidi que colocaria a pintura como profissão, vi que se não me dedicasse não conseguiria alcançar resultados. E para exercer qualquer atividade na veterinária, acabaria tomando muito meu tempo e energia.”

O caminho mais tortuoso (e menos previsível) escolhido por ela se mostra bem-sucedido. A artista já produz quadros até para clientes de outros Estados, mesmo divulgando seu trabalho apenas nas redes sociais e no eficiente “boca a boca”. Cada trabalho custa de R$ 500 a mais de R$ 1.500, dependendo do tamanho do quadro.

“O meu diferencial é retratar bem o cavalo. É um animal difícil de colocar na tela, fácil ficar fora de proporção, ou estranho… Além de fazer bem um cavalo, eu faço ‘o’ cavalo daquela pessoa… As pessoas vêem meus quadros e sabem qual cavalo é aquele (nome, raça) sem eu falar nada. Isto é o mais difícil.”

Raquel Fernandes entregando o retrato deste Mangalarga Marchador, feito em lápis pastel

Raquel Fernandes entregando o retrato deste Mangalarga Marchador, feito em lápis pastel

A arte de Raquel Fernandes pode ser vista em sua página no Facebook e em seu blog. Se você quiser fazer uma encomenda (ela também pinta outros animais, viu?), pode procurá-la por email (artesraquelfernandes@gmail.com) ou telefone: (31) 8333-5505.

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