Razões para não ser privatista e moralista

Texto escrito por José de Souza Castro:

Leio hoje na “Folha de S.Paulo” que os acionistas da empresa telefônica Oi aprovaram em assembleia orçamento de R$ 74,6 milhões para remuneração de sua diretoria durante o ano de 2018, valor 73% maior do que o aprovado no ano passado. Tudo bem, se a Oi não tivesse decidido, em 2016, apelar à Justiça para tentar sobreviver ao elevado endividamento e estivesse agora em recuperação judicial com dívida de R$ 65 bilhões.

A Oi resultou do processo de privatização das telefônicas na década de 1990, pelo governo Fernando Henrique Cardoso, do PSDB. E agora, no governo Temer, do MDB, se volta a falar de privatizações sob a alegação moralista de combate à corrupção. Como se não houvesse, como se depreende dessa decisão da Oi, corrupção no setor privado.

Na década de 90 ainda havia justificativa econômica para privatizações, o que não ocorre agora, como bem observa André Araújo, que faz um levantamento sobre a importância das estatais no mundo. O autor é advogado formado pelo Mackenzie. Foi diretor do Sindicato Nacional da Indústria Eletroeletrônica e da Associação Brasileira da Associação Brasileira da Indústria Eletroeletrônica, entre outros cargos. Atualmente, tem um blog no site GGN.

Os grandes alvos dos privatistas que atuam no Brasil, depois de perderem força no resto do mundo, são: Petrobras, Eletrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES, todas estatais que impulsionam o desenvolvimento econômico brasileiro. Juízes moralistas deram as mãos aos neoliberais, “para juntos liquidarem com as empresas estatais e venderem tudo o que o Estado criou a partir dos anos 50”, lamenta André Araujo, para quem as prioridades e os desafios de hoje são diferentes daqueles da “Era Thatcher”.

Que acabou, “mas esqueceram de avisar aos privatistas brasileiros”.

O autor observa que 13 das vinte maiores empresas de petróleo do mundo são estatais que detêm 91,4% das reservas mundiais, como a Statoil da Noruega, e as quatro primeiras petroleiras no ranking das 20 maiores: Sinopec, China National Peroleum, Saudi Aramco e Petro China.

Todas de olho no petróleo do Pré-Sal brasileiro.

“Na Europa, grandes empresas estatais são eixos da economia de países ricos e de economia solida”, diz Araujo. Mesmo grandes multinacionais privadas têm forte participação do Estado, caso da Renault.

Na relação de empresas estatais europeias, ele cita a Électricité de France, a italiana ENEL, a francesa SNCF, a alemã Deutsche Bahn e a italiana FS, dos setores elétrico e ferroviário. “O padrão das ferrovias por toda a Europa é de empresas estatais, assim como bancos, empresas de energia e de telecomunicações; na Suécia são 49 empresas estatais com valor de mercado de 60 bilhões de dólares, submetidas ao Serviço Nacional de Auditoria, padrão de referencia no mundo”, diz André Araujo.

O governo francês controla, em conjunto com Itália, Espanha e Alemanha, o Airbus Group, segunda maior empresa aeronáutica do mundo. Também é estatal a RAI, maior rede de televisão e rádio da Itália. “França e Itália têm larga tradição de grandes e eficientes empresas estatais como eixo da economia”, assegura o autor.

Na Alemanha, diz Araujo, o Estado da Baixa Saxônia controla a Volkswagen, enquanto o Estado federal alemão comanda a Deutsche Telekon, grande empresa de telecomunicações  com forte participação na British Telecom. É também dono do banco de fomento KfG, financiador de exportações alemãs, enquanto estados federados controlam 11 bancos regionais importantes para a economia alemã. Continuar lendo

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Um SAC(o)

O post abaixo é longo, mas acho que merece ser lido do início ao fim, porque todos vão se identificar com os fatos, verídicos, relatados.

Acho que só existe uma coisa no mundo que é tão ruim quanto a tortura, mas nem é considerada uma tortura pelas entidades de direitos humanos internacionais: o labirinto a que somos submetidos a cada vez que precisamos falar com um serviço de televendas, ou central de atendimento ao consumidor.

Eu, que já detesto telefone até para falar com pessoas de quem gosto muito, literalmente paguei por todos os meus pecados, e ainda estou com saldo positivo na caderneta do inferno, desde o dia 7 de outubro, quando me mudei para Belo Horizonte. Vem sendo, disparado, a pior parte, a mais estressante da minha mudança.

De lá para cá, tive que entrar nos portais do inferno dos SACs no mínimo 50 vezes. Não é exagero: só dos números de protocolos que me lembrei de anotar, tenho 29. Vinte e nove! Fora que só me lembro de anotar esses números (ou tenho papel fácil na hora) a cada duas ligações. Falei mais com os adeptos do gerundismo e com aquelas máquinas infernais do que com todas as outras pessoas do meu círculo de amizades, somadas.

O mais legal é que, depois de tantas ligações para resolver problemas com a NET, Oi, Vivo, Comgas, Eletropaulo, Folha e Cemig, especialmente as duas primeiras, virei uma expert em teleatendimento. Estou quase doutorando no assunto. Como não sei qual cátedra aceitaria minha tese, deixo aqui, humildemente, no meu bloguinho. Que sirva de contribuição ao menos aos treinadores desses serviços abomináveis, aos gerentes de marketing, aos engenheiros dessas empresas. Talvez eles não tenham noção do tanto que o serviço que prestam é ruim e do tanto que, consequentemente, queimam a imagem da empresa com isso. Ou talvez tenham noção, mas deem de ombros, cientes de que todos os (dois ou três) concorrentes estão no mesmo nível e não há para onde nós, ratinhos do sistema, corrermos (bom, até que há. É cada vez maior o número dos que fogem desse sistema e, por exemplo, aderem a canais piratas da internet para assistirem ao que a TV a cabo ofereceria em seu pacote mais caro. Nesse caso, rá, quem perde é a TV, enfim).

13 protocolos na NET

A recordista dos meus desesperos é, sem chance de comparação, a NET. Esta provedora teve a capacidade de dificultar ao máximo um processo que seria do maior interesse dela própria: minha mudança de endereço, mantendo o pacote com eles, nos mesmos moldes. Era a chance de fazerem um serviço tão bom, mas tão bom, que me daria até vontade de dar um upgrade na velocidade da internet, que eu bem tou precisando, né?

Mas fizeram tudo errado, do primeiro ao último dia. O desencontro de informações foi risível. Primeiro dia: peço para cancelar minha conta em São Paulo, pensando em abrir um novo contrato quando chegasse a Beagá (que é o que, vocês verão, eu deveria ter feito mesmo). A atendente diz que posso simplesmente suspender o pacote e, quando eu já tivesse me mudado, pedir a mudança. Mas que eu deveria esperar uns dias para fazer isso, enquanto o chamado dela era conferido, para ver se meu endereço novo poderia ter NET.

Passados esses dias, volto a ligar. A outra atendente não entende a ideia da suspensão. Não sabe do que se trata. Fica batendo na tecla de que só devo suspender se eu for viajar. “Mas eu vou, minha filha!” Ela, por fim, compreende o que a outra havia me orientado. Pergunto: “Devo levar os aparelhos da NET comigo?” “Sim.” Pergunto isso umas quatro vezes, para ter certeza de que ela sabia o que estava dizendo, para eu não levar algo que não me pertence de forma errada.

Assim que me mudo, ligo para a NET de novo, para reativar a conta suspensa e pedir a mudança de endereço. O sujeito dá a entender que tudo está feito e que vão me ligar nas próximas horas apenas para confirmar a visita do técnico. E que em até 5 dias úteis eu teria internet em casa. Era uma segunda, então espero que até sábado tudo já esteja certo.

Passam três dias, nenhuma ligação. Retorno à NET. E a tortura prossegue: “Não há nenhum pedido de mudança de endereço aqui, minha senhora.” Tenho que informar tuuuuudo de novo, desde o início da suspensão, e ela garante que, dessa vez, vão me ligar para agendar a mudança de endereço.

Claro, não ligam. Eu ligo de novo. Esbravejo pela primeira vez: minha filha, trabalho com internet em casa, já é quinta-feira, não posso ficar esperando mais cinco dias, era pra ter sido resolvido até sábado etc. Ela anota meu pedido de urgência.

Surpreendentemente, passam-se apenas dois minutos até que uma atendente ligue para agendar a mudança de endereço e visita do técnico. Aleluia! Começo a pensar que eu sou intransigente, não são tão ruins assim, afinal. Até que ela diz que o sistema de agendamento deu pau e ela vai me ligar de volta em até quatro horas pra finalizar tudo.

Não liga.

No dia seguinte, lá vou eu ligar de novo. “Já é sexta-feira, queria agendar pra amanhã, mas a moça que ficou de me retornar sumiu!” Registram de novo de manhã. Ninguém liga. Retorno à noite, já desesperada. Nunca mais ligam.

Sem a menor paciência mais, decido cancelar minha assinatura e contratar em outras. A mulher que liga para confirmar meu cancelamento diz que ia ligar de volta para marcar a retirada dos equipamentos.

Não liga.

Retorno em seguida e outra atendente diz que aquela tinha agendado, por livre e espontânea vontade, para retirar no dia 17/11, um sábado. Ok, não marquei nada, mas pode ser essa data. Confirmo o endereço de BH para retirada. “Sim, esse mesmo.” Beleza então.

Até que um infeliz da Ouvidoria da NET me liga e diz que não, ao contrário do que me disseram antes, eles não fazem retirada em BH. Ou eu envio pelo Correio ou vou até um endereço presencial de BH, no bairro Renascença, para entregar.

Até para encerrar a conta é difícil!

Detalhe: registrei na Anatel e não adiantou nada. Nunca me ligaram de lá também.

Anatel

A agência do governo federal que controla e fiscaliza as prestadoras do serviço de comunicação do país merece um capítulo à parte.

Sempre defendi que a ouvidoria da Anatel valia muito mais do que as das operadoras, que as soluções vinham mais rápido e de forma mais efetiva. Desta vez, falhou. Não só não me responderam, nem a empresa me procurou para falar desse registro, como, quando fui ver com a Anatel no que tinha dado minha reclamação, descobri que a agência havia repassado minha reclamação a outra empresa que nada tem a ver com o assunto e nem sequer atua em Minas Gerais.

Bomba!

Outras tentativas

Bom, resolvi ver com a concorrência. Não é possível que seria pior que a NET. Até a voz daquela máquina que nos atende no início estava me dando calafrios. Aliás, até a máquina é ineficaz. Pede que eu confirme meu email, soletra ele inteirinho, eu confirmo, pensando que nunca mais será pedido isso para mim. Quando ligo dois minutos depois, lá vem a máquina pedir a mesma coisa de novo. Fala sério!

Tentei primeiro a TIM. Não oferece o serviço em BH.

A Vivo chega a ser ridícula. Em vez de dar opção de digitar o número X para falar sobre tal assunto, ela quer que a gente diga em voz alta. O problema é que o computador deles não entende de jeito nenhum o que é dito.

“Diga se você quer para sua residência ou escritório.”

“Residência.”

“Desculpe, não entendi.”

“RESIDÊNCIA.”

“Vamos tentar novamente.”

“R-E-S-I-D-Ê-N-C-I-A!”

“Desculpe não entendi.”

Tentei com um sotaque mais paulistano e passou. Mas depois: “O que você quer?”

“Comprar um produto.”

“Desculpe não entendi…”

E assim por diante.

Ok se eu tivesse a língua presa, fosse uma gringa etc. Mas não sou. Aliás, quem tem língua presa nunca pode ser atendida por alguém da Vivo? Eu hein.

Pior foi depois:

“Qual produto: linha fixa, televisão ou internet?”

“Internet.”

“Certo: você quer linha fixa. Vou te transferir para um dos nossos atendentes.”

Oi?

Oi, então

Eis que tento na Oi. Pra falar a verdade, achei os atendentes da Oi bem melhores que os da NET e Vivo (que, no final, disse que sou obrigada a ter uma linha fixa para adquirir TV ou internet. Como assim “obrigada”?! Anatel, você está acompanhando a venda casada, por favor?). Mais gentis, menos maquinais e menos indispostos. Talvez porque todas as atendentes tinham aquele sotaque nordestino supersimpático, um dos mais bonitos do Brasil.

Mesmo assim, coisas misteriosas aconteceram.

Por exemplo, eu contratei uma TV a cabo e registraram uma TV com antena externa.

Marquei visita para terça, a partir das 16h. Fiquei esperando até as 21h, fiz duas ligações no meio do caminho para perguntar cadê o sujeito (“Pode chegar até as 21h, senhora. Aguarde mais”), e nada. Nenhuma satisfação básica. No dia seguinte, quando fui perguntar o que houve, a atendente disse que nunca tinha sido agendada essa visita anterior!

Claro, devo estar imaginando coisas. Inclusive imaginando as duas conversas que tive com a própria Oi sobre essa visita…

Dois dias depois, chega o técnico, e descobrimos o negócio da antena, que nem posso ter no meu prédio. Liguei para corrigir, já que eu sempre pedi TV a cabo, e ouvi: “Não trabalhamos com TV a cabo em Belo Horizonte, senhora.”

Uai, como não? Foi o que contratei desde o início. Peço pra me enviarem a gravação que mostra o que contratei. A atendente diz que, para isso, preciso informar também o nome do atendente, coisa que ninguém no planeta sabe que precisa anotar nem é avisado disso durante o atendimento.

Resultado: cancelei a TV, já que não tive opção, e, sem nenhuma outra perspectiva à vista (fora do mundo mágico dos gatos) voltei quase chorando para a NET só pela TV.

Para cancelar, uma novela à parte. Aliás, para contratar também: na Oi você liga, grava, informa tudo, faz todos os procedimentos normais de contratação ou cancelamento. Mas depois precisa esperar uma segunda ligação para confirmar tuuuuudo de novo. Se essa ligação não chega, recomeça o ciclo malévolo. E lá não adianta ligar para a central esperando resolver todos os pepinos de uma vez: é um número para contratar TV, um para contratar internet, um para atendimento de TV, um para atendimento de internet, um para combo, um para acompanhamento de pedidos. O atendente de um setor não conversa com o do outro, não sabe nada do outro assunto, não consegue consultar e nem sequer transferir direto. Resignadamente, apenas te informa o novo telefone a ser chamado.

Consegui cancelar a TV da Oi. Contratar a da NET. Desta vez, foram eficazes e vieram em um dia. Daí porque, desde o início, acho que o problema foi a tal da suspensão, que a primeira atendente me orientou a fazer…

Resolvo checar com a Oi se minha internet está chegando, já que contratei na segunda-feira (da segunda semana, reparem bem) e me disseram que levaria dez dias corridos para o modem chegar pelo Correio. Mas, surpresa!, já é sexta-feira e nem sequer a contratação foi confirmada, porque está perdida num limbo chamado “auditoria de crédito”.

Acabo tomando outra decisão resignada e humilde: retornar para a NET também minha internet, com a esperança de que eles levem menos de dez dias para instalá-la, como agora fizeram com a TV.

Ligo para a NET e me informo sobre valores. A internet sairia a R$ 59,90, diz a atendente. Faço minhas contas, decido fechar negócio. Mas descubro que tenho que esperar primeiro pela instalação da TV para conseguir pedir a internet. Paciência…

Assim que a TV é instalada, ligo para contratar a internet. Mas a outra atendente diz que o valor, agora, seria de R$ 129,90! Que a promoção valeria só se eu também comprasse um telefone fixo, que não quero. Brinco com ela, antes de desligar: “Vou esperar dez minutos e ligar de novo. Quem sabe a primeira atendente não vende para mim o produto que ela ofereceu e você agora diz que não existe, né?” Ela faz um muxoxo.

Era brincadeira, mas foi exatamente o que aconteceu.

Liguei, e a outra atendente ofereceu a internet pelos R$ 59,90 numa boa. Roleta russa. Quando fechei o contrato, eu estava tão aliviada que disse a ela que era a melhor atendente da NET. Pelo menos alguém ficou feliz hoje.

Carrossel do inferno

E agora tenho que cancelar a internet da Oi. Começa aqui um dos espetáculos mais sinistros de mau atendimento que já presenciei na face da Terra. A Oi tem menos protocolos que a NET, mas por uma simples razão: não fornecem o protocolo. Se não, certamente seria a recordista da minha listinha de trocentas ligações.

Lá vou eu, pelo número 1057: “Olá, gostaria de cancelar minha internet, que contratei na segunda e ainda nem chegou.”

“Qual seu número Oi fixo?”

“Não tenho Oi fixo, só contratei a internet.”

“Um momento, senhora.”

Segue um vácuo que dura aproximadamente 16 minutos.

“Não é nesse número. Ligue para o 0800-031-0001 ou 0800-285-3131.

Respiro fundo e ligo. Repito tudo. Repete-se o tempo exasperante de espera. Ao fim: “Não é aqui, senhora. Ligue para o telefone 10331.”

Já com raiva, ligo para o 10331. Mais um tempão de espera.

“Não é aqui, senhora. É no 1057.”

“Mas já liguei pra lá! Me passaram pro 0800 que passou pra cá!”

“Alguém errou na informação, senhora.”

(Não me diga.)

Resignada, ligo de novo para o 1057.

Tudo se repete. Sempre. De lá, para o 0800, de lá, para o 10331, deste, para o 1057. Pegadinha do Malandro.

Juro que minha paciência me fez cumprir este ciclo vicioso TRÊS digníssimas vezes. Ou seja, liguei três vezes para os três números, igual a uma pateta. No final, comecei a chorar. Nem assim a atendente fria e cruel se comoveu. “Não é aqui, senhora. Ligue para…”

Tentei registrar na Ouvidoria (que chamam de Ombudsman) da Oi, que só atende pela internet. Mas até para isso você é obrigada a ter um número de Oi Fixo, que não tenho. Ou seja, a Ouvidoria só atende a alguns clientes da Oi, não a todos… Alô, Anatel?

Fim

Agora é o seguinte: consegui ter a TV e a internet, tudo ainda na NET, como era em São Paulo. Mas, para isso, tive que ficar uns 200 minutos conversando com máquinas, tive que esperar mais de duas semanas, tive que chorar por ser feita de idiota em tantos desencontros de informação, me vi presa numa cilada de ser empurrada de um número para outro para outro e de volta para o primeiro. Hoje conheço os SAC como a palma da minha mão e tenho uma certeza nesta vida: o inventor desse serviço de atendimento aos moldes do que existe hoje é o Diabo em pessoa. Vendo minha alma a qualquer um, do céu ou do inferno, desde que eu não precise, nunca mais na minha vida terrena, ter que falar com esse pessoal sádico. (Mas fica a dica para os masoquistas.)

P.S.

Minha intenção, com este post, não é desrespeitar os teleatendentes, que não são, no fundo, culpados por esse caos. Muitos deles até se esforçam, são claramente bem-intencionados. Há, claro, os maleducados e preguiçosos, que já dizem alô com má vontade, mas isso há em qualquer profissão. O que eu acho o fim do mundo é que essas megaempresas milionárias não invistam em treinamento e tecnologia para facilitar a vida do cliente, inclusive na hora em que o cliente vai exercer seu direito sagrado de cancelar um contrato. Proponho uma solução simples para isso: que os dirigentes dessas companhias se deem ao trabalho de contratar e cancelar um serviço de sua empresa e das concorrentes, de forma anônima, via SAC, para constatarem o desastre que é. Talvez assim criem vergonha na cara e façam algo digno dos milhões que faturam às nossas custas nesse oligopólio de dois ou três camaradas.

Lulinha e o corriqueiro da política brasileira

texto de José de Souza Castro:

Afinal, Lulinha, o filho do presidente Lula, é mesmo um grande empreendedor? Ou será que o que se diz dele há alguns anos não passa de uma baita ficção? Como no caso do Rolls-Royce de Getúlio Vargas, só a história, depuradas as paixões políticas com o decorrer do tempo, poderá responder a essas perguntas. Até lá, limito-me aqui a contar algumas das coisas que se diz de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

Ele ficou nacionalmente conhecido em outubro de 2006, principalmente quando sua foto apareceu na capa da revista Veja ao lado da manchete “O Ronaldinho de Lula” e a explicação: “O presidente comparou o filho empresário ao craque do futebol. Mas os dons fenomenais de Fábio Luís, oLulinha, só apareceram depois que o pai chegou ao Planalto”.

A reportagem revelava como Lulinha, então com 31 anos, já se tornara milionário. Formado em Biologia e recebendo, em 2002, salário de 600 reais como monitor no zoológico de São Paulo, reforçados com aulas de inglês e computação, sua sorte começou a mudar em dezembro de 2003, quando o pai completava seu primeiro ano no governo. Lulinha se tornou sócio da Gamecorp, uma empresa de jogos eletrônicos, que ainda se chamava G4 Entretenimento e Tecnologia Digital. A empresa havia sido fundada anos antes pelos outros dois sócios. Um deles, Fernando Bittar, é filho de um velho amigo de Lula, o ex-prefeito de Campinas Jacó Bittar, um dos fundadores do PT.

“Em janeiro de 2005, apenas um ano depois da chegada de Lulinha àempresa, a Gamecorp já estava recebendo o aporte milionário de 5,2 milhões de reais da Telemar – e Lulinha já era um empreendedor de raro sucesso”, acrescentou a revista.

A maneira como se deu a associação da Gamecorp com a Telemar, hoje Oi, está sendo discutida na Justiça. Em outubro passado, o processo completava um ano à espera de uma decisão do Superior Tribunal de Justiça sobre quem seria o responsável para continuar o inquérito – se os Tribunais da Justiça Federal do Rio de Janeiro, onde se localiza a sede da ex-Telemar, ou de São Paulo, local da sede da Gamecorp. O inquérito foi aberto em 2007 para ver se houve tráfico de influência na milionária associação.

Enquanto nem isso se resolve, o campo se mostrou fértil para o nascimento e propagação de boatos, principalmente pela Internet. O mais popular desses boatos, certamente, foi o de ter Lulinha comprado, por R$ 47 milhões, uma fazenda em Valparaíso, no interior paulista, de propriedadedo criador de nelore José Carlos Prata Cunha. Apesar das muitas negativas, o boato continua na Internet. Um exemplo pode ser lido aqui.

Pela ilustração no texto, vê-se que não há compromisso com a verdade. Afoto da sede da “fazenda de Lulinha” em Valparaíso mostra, na realidade,a famosa Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, pertencente ao governo paulista.

Deixando de lado os boatos, vamos às notícias que foram divulgadas nos últimos quatro dias pela Folha de S. Paulo.

A primeira, de quarta-feira, indica que Lulinha não é o “Ronaldinho”das finanças que o pai imaginava. Sob o título “Oi investe em empresa deficitária de Lulinha”, o jornal paulista informa que a Gamecorp acumulou prejuízo de R$ 8,7 milhões até 2009 e dívidas superiores aR$ 5 milhões. “Ainda assim, continua a receber investimentos da tele. Desde 2007, a Oi elevou em 28% o aporte na empresa. A inflação foi de 11%. Beneficiada por decisão do governo, a tele é a maior cliente da Gamecorp, que produz conteúdo para TV. Segundo Lulinha, a empresa rejeita publicidade do setor público.”

A segunda, no dia seguinte, também mereceu chamada na primeira página: “Empresário paga aluguel de R$ 12 mil de Lulinha”. Afirma que a conta é paga pelo grupo Gol, que vendeu livros didáticos ao governo. “Lulinha diz que quem paga é Jonas Suassuna, seu sócio na Gamecorp e dono do grupo Gol.” A reportagem revela que o apartamento alugado nos Jardins, bairro nobre da capital paulista, é avaliado em R$1,8 milhão. Lulinha mora ali desde 2007, quando se separou da mulher. Morava com o sócio, que é primo do ex-senador Ney Suassuna (PMDB-PB). Há quatro meses, depois que Lulinha se tornou pai, ficou com todo o apartamento, mas o aluguel continua sendo pago por Suassuna.

E ontem o jornal volta ao caso para repercutir o noticiário da véspera, e só políticos da oposição se dispuseram a falar. “Será que haveria benevolênciacom outra pessoa que não tivesse nenhuma ligação com o governo? Quem no Brasil tem seu aluguel pago de forma despretensiosa por quem quer que seja?”, questionou o deputado federal, Gustavo Fruet (PSDB-PR). O líder do PSDB na Câmara, João Almeida (BA), ironizou dizendo que
a melhor obra de Lula é seu filho. “Ele é um sucesso empresarial, uma obra fantástica.” E o líder do DEM, Paulo Bornhausen (SC): “Espero, no mínimo, que a Receita esteja de olho nisso tudo. Infelizmente é uma banalização de valores.”

Lula e seu governo preferiram manter distância desse assunto. Quem tiver vida para isso, verá o que dirão os futuros historiadores sobre esses episódios menores – mas corriqueiros – da política brasileira.