Ponte: o novo canal de segurança pública e direitos humanos

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O Brasil vai ganhar, a partir de semana que vem, um canal de jornalismo independente que abordará exclusivamente pautas de segurança pública, Justiça e direitos humanos, o Ponte. E eu já aviso desde já: é bom todo mundo ficar atento ao que será veiculado por ali, porque tenho certeza de que vai ser só reportagem bombástica e muitos furos (e é o que espero já para a estreia).

Falo isso por causa do time de jornalistas que estão tocando o projeto. Começa com meu amigo André Caramante, que já citei várias vezes aqui no blog, passa pela excepcional Laura Capriglione e segue com os feras Bruno Paes Manso, Fausto Salvadori Filho, Claudia Belfort, dentre outros. São “só” os melhores jornalistas de segurança pública e direitos humanos deste Brasil. Sou fã de todos eles e os tenho como inspiração (ao lado do meu pai).

Eles não vão sair publicando qualquer vídeo de celular capturado nas ruas, como já fazem bem outros grupos de jornalismo independente que contam com o caráter viral das redes sociais: se tiverem acesso a um vídeo com carga grave de denúncia, vão publicá-lo junto com um trabalho de jornalismo investigativo, com uma apuração profissional, de quem já trabalha há anos com reportagem e sabe como se faz. Esse é o diferencial em que aposto.

Por isso, recomendo desde já que não só os leitores em geral, mas principalmente os jornalistas de outras Redações fiquem atentos ao que será produzido ali, porque certamente haverá material para grande repercussão e debate público.

Conheça mais a intenção de alguns dos criadores do projeto no vídeo abaixo:

CLIQUE AQUI para ir para o site do Ponte — e salvar o endereço nos Favoritos para acompanhá-lo a partir da semana que vem 😉

VEJA AQUI a lista de apoiadores do projeto, que inclui figuras como Julian Assange, editor do WikiLeaks, os ex-ministros da Justiça José Gregori e Marcio Thomaz Bastos, o cientista político Luiz Eduardo Soares (co-autor de “Tropa de Elite”), o dramaturgo José Celso Martinez Correa, o escritor Paulo Lins (autor de “Cidade de Deus”), o rapper Emicida, o grupo Racionais MC’s, e várias outras pessoas e instituições de peso.

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São Paulo em chamas

São Paulo vive uma explosão de homicídios. Uma guerra civil entre policiais e membros do PCC toma conta das ruas da cidade, com mortes a cada dia. 12 mortos em uma só madrugada. 22 baleados no fim de semana. E segurança é da alçada do governo estadual, não do prefeito. Mas imagino como está o clima entre os paulistanos e quase desejo os pêsames ao petista Fernando Haddad.

O clima, aliás, foi bem retratado em duas charges do gênio Angeli, publicadas com um intervalo de apenas cinco dias na “Folha de S.Paulo”:

Enquanto isso, quem faz o serviço de informar aos leitores quem são os bandidos e quem são os mocinhos, separando nominalmente cada um, tem que se esconder fora do país para proteger a própria vida.

Já falei do Caramante duas vezes neste blog: aqui e aqui. Mas ainda não tinha indicado a leitura da entrevista que a repórter Eliane Brum fez com ele. Leiam AQUI, sem falta.

Quando a divulguei em meu Facebook, fiz o seguinte comentário: “Apesar de eu ter certeza de que o admirável André Caramante e sua família seguirão firmes e fortes na luta/serviço que prestam à sociedade, não posso deixar de ter vontade de chorar quando leio um relato como este, organizado pela Eliane Brum. Caramante escondido, para preservar sua família, e Telhada eleito em São Paulo, e o delegado Edson Moreira, do caso do José Cleves, eleito em Belo Horizonte. É uma inversão de valores, uma regressão absurda, e um risco à democracia e ao direito de informar. Choro pelo Caramante, por imaginar o quanto ele deve estar sofrendo por trabalhar de forma mais limitada, o quanto deve estar preocupado e tenso por sua família. Mas também choro por vivermos num Brasil com esses valores e por ver pessoas das mais esclarecidas, de todos os matizes ideológicos, pregando o fim e o cerceamento da imprensa, atirando palavras ignorantes contra o trabalho de jornalistas honestos, prejudicando tantas pessoas com essa atitude. Registro aqui meu imenso desprezo por esses “ativistas de sofá”, que atacam com um ódio burro e fanático, protegidos por um suposto anonimato, e, com isso, incitam reais criminosos com acesso ao poder. Toda força ao Caramante e aos seus queridos. Esperemos que as coisas melhorem algum dia, para o bem da nossa sociedade.”

Policiais-bandidos* = bandidos

Mais de 4.000 pessoas foram assassinadas por policiais — só em São Paulo — entre 2005 e maio deste ano.

Já falei aqui do trabalho do meu amigo André Caramante e das consequências de fazer jornalismo corajoso e sério como o que ele faz, numa área delicada como a segurança pública.

Terminei aquele post dizendo: “O que me exaspera é saber que as ideias do coronel são compartilhadas por centenas de pessoas.”

E são mesmo. Acabo de travar uma discussão de mais de uma hora (ainda não sei se acabou) com um colega que eu nem suspeitava que teria essa visão reacionária de mundo. Quantos outros existem no meu círculo de amigos? E fora dele?

A discussão passa pela ideia de que, se um policial mata um bandido, tudo bem. “Bandido bom é bandido morto”, etc. Acontece que não há pena de morte no Brasil. E, para cada “bandido” morto por um policial, há milhares de inocentes apagados juntos. E, então, o policial se torna bandido e deve responder pelo crime de homicídio. E, como tal, deve ser julgado, condenado e preso, como está previsto na lei (e como deveria ocorrer a todo “bandido”).

Enfim, nada que valha a pena de discutir no meu bloguinho de novo. É tão óbvio a quem dá valor à vida, mas tão óbvio, que não carece tanto esforço mental e das juntas.

Eu retomei o assunto só porque hoje li uma bela aula de jornalismo dada pelo mesmo André Caramante ao jornalista André Maleronka, editor da “Vice”.

Essa entrevista deveria ser lida de cabo a rabo por todo mundo: os que lêem jornais, os que não lêem; os que defendem a polícia que mata, os que se indignam com ela; os que acreditam em direitos humanos e os que acham que um ou outro inocente morto é só um “efeito colateral” desejável para a limpeza dos males da sociedade (chamo isso de fascismo); os que defendem um jornalismo combativo e aqueles que acham que jornalista tem que ser chapa-branca e ficar puxando saco de policial e gritando que todo mundo é bandido, sem se preocupar em apurar os fatos e aguardar (ou fazer) as investigações, ao pior estilo Datena.

Leia AQUI e bom desfrute!

***

Para relembrar:

* Fiz questão do hífen para não desmerecer os policiais sérios, que também existem.

De bandidos e “bandidos”

Essa é a polícia que queremos?

Só jornalista tem o hábito de ler o nome do repórter que assina uma matéria. Os demais mortais vão direto da foto pro título pro olho pro lide e, lá pelo quarto parágrafo, se tanto, costumam já pular para a próxima reportagem.

Mas quando eu ainda não era nem rascunho de jornalista, tinha lá pelos meus 17 anos, eu já me empenhava em ler tudo, inclusive as assinaturas. E assim descobri o nome do André Caramante, repórter de polícia da Folha que, há alguns anos, já fazia reportagens diferenciadas, daquelas que fazem o leitor não-jornalista decorar o nome do sujeito que escarafunchou todas aquelas informações.

[Não é que eu esteja chamando o André de velho, mas acho que ele começou novo no ofício…]

Assim, foi com muita honra que me vi trabalhando ao lado dele (e de outros ótimos repórteres, que não preciso enumerar). Tento aprender todo dia com esse povo.

Esse nariz-de-cera é para explicar por que hoje me vi indignada com uma clara tentativa de intimidação que foi feita contra ele.

Tudo começou com uma matéria, que acabou editada como nota do jornal, com apenas quatro parágrafos, mas altamente informativa, descritiva, sem espaço para opinião. Em poucas linhas, apresenta um perfil de um coronel reformado da PM que é candidato a vereador de São Paulo pelo PSDB. Diz que ele tem vários “seguidores” no Facebook, onde exibe imagens de caveiras com o uniforme da Rota (tipo esta acima), outras de sunga com a mulher, na praia, e relata supostos confrontos com “vagabundos” (civis), chegando a postar a foto de alguns deles, incitando a violência de usuários.

Me recuso a dar o link para a página do coronel aqui em meu blog.

Mas a matéria pode ser lida AQUI.

Muito bem. Eis que o coronel resolve intimidar o repórter, chamando-o de “notório defensor de bandidos” e outros quetais.

Felizmente, a reação foi imediata. Dezenas de pessoas já se solidarizaram com Caramante e o Sindicato dos Jornalistas soltou uma nota de repúdio e pediu diversas providências contra a intimidação e em proteção ao jornalista (proteção é algo muito necessário a repórteres de polícia, como já relatei certa vez).

O que me exaspera é saber que as ideias do coronel são compartilhadas por centenas de pessoas, como se vê em comentários pela internet. Então são grandes as chances de ele integrar o quadro da Câmara Municipal paulistana a partir do próximo ano. Desejo sorte aos “bandidos” da cidade, sabe-se lá quantos de nós.