Os oito desconfiados

Para assistir: OS OITO ODIADOS (The Hateful Eight)
Nota 7

odiados

O enredo desse filme é do tipo que eu adoro: um grupo de personagens muito marcantes — um caçador de recompensas, um enforcador, um carrasco, uma assassina prisioneira, um xerife, um cowboy, um velho general confederado e um mexicano — se encontra preso em uma mesma casa, sem possibilidade de sair, por causa da forte nevasca. Ninguém confia em ninguém, e eles têm motivos para odiar uns aos outros e querer vê-los mortos.

Como se trata de um filme de Tarantino, podemos prever mesmo muitas mortes, com direito a bastante sangue jorrando para todos os lados. Mas o filme, que é dividido em capítulos, traz um ingrediente especial, nem sempre presente nos outros longas do diretor: suspense. Muitos personagens não são quem dizem ser e o clima de paranoia e desconfiança toma conta do espectador à medida que a história avança.

Ótimos atores foram recrutados para darem vida a esses personagens insólitos, cinco deles com indicações ao Oscar em seu currículo: Samuel L. Jackson, Tim Roth, Bruce DernDemián Bichir e a excelente Jennifer Jason Leigh, que me lembrou Janis Joplin do início ao fim. Também fazem parte do elenco os ótimos Kurt RussellWalton GogginsMichael Madsen, que já tinham trabalhado em outros filmes do diretor. Só Jennifer foi indicada ao Oscar desta vez, como melhor atriz coadjuvante. O filme também concorre a melhor fotografia e melhor trilha sonora original.

Qual é o grande problema de “Os Oito Odiados”? É que a história demora demais a engrenar. Só lá pelo terceiro ou quarto capítulos é que sentimos alguma emoção, depois de passar, penosamente, por diálogos muito compridos e sem sal. O filme, que tem quase três horas de duração, poderia bem ser reduzido para umas duas, sem problemas. Enfim, faltou edição.

Mas, uma vez que engrena, quando todos os personagens principais já estão devidamente confinados em seu purgatório, o filme rapidamente se torna o terceiro melhor da carreira de Tarantino, atrás apenas de “Bastardos Inglórios” e “Pulp Fiction”. Com todo o sangue a que o diretor tem direito.

Assista ao trailer:

Leia também:

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O Rio de Janeiro continua… o mesmo das reportagens de Tim Lopes

Uma das cenas do vídeo. Este aí trabalha na boca, mas ainda está bem abaixo do chefão.

Uma das cenas do vídeo. Este aí trabalha na boca, mas ainda está bem abaixo do chefão.

Vi na coluna do Ancelmo Góis, no jornal “O Globo”, que a TV norte-americana ABC News fez uma série de reportagens sobre o tráfico de drogas nas favelas do Rio. Nas palavras de Góis, trata-se de “uma das maiores reportagens em favelas, desde que Tim Lopes foi preso, julgado e condenado à morte por traficantes, em junho de 2002”. E é verdade: muito pelo fato de os veículos terem decidido preservar a segurança de seus repórteres, que passaram a ser muito visados pelo crime organizado, e muito também por boicote deliberado a este “Estado paralelo”, que, na opinião de alguns veículos, acaba sendo legitimado ao ganhar as páginas dos jornais.

Bom, agora fui assistir ao vídeo da ABC e achei as imagens e relatos bastante impressionantes. Em pouco mais de 16 minutos, o repórter Dan Harris, acompanhado de um cinegrafista e um intérprete que já tinha sido membro do tráfico no Rio e conhecia o pessoal que ele queria entrevistar, mostra as seguintes cenas:

1) As cracolândias (fechada e aberta), onde até garotos de 14 anos fumam sua droga. Essas cenas não me marcaram tanto, porque eu morava a poucos quarteirões da cracolândia paulistana, que é provável que seja bem maior, e já ficava com estômago embrulhado ao ver, de perto, todos aqueles homens, mulheres e crianças transformados em zumbis. Beagá também já tem uma cracolândia para chamar de sua e acho que isso já está comum até em pequenas cidades do interior.

2) A boca de fumo, que mais parece um feirão a céu aberto, com caixas e caixas de papelotes, separados por seu peso, cada um com uma embalagem de cor diferente, e sendo anunciados aos berros: “Pó de 2! Pó de 5! Pó de 10! Pó de 15!” Eu também já tinha visto reportagens mostrando essas feiras, se não me engano, do próprio Tim Lopes. Mas são sempre impressionantes. E, tantos anos depois, continuam intactas, ainda muito mais organizadas.

3) O chefe do tráfico, branco, cujo rosto é escondido (condição para que a reportagem fosse feita), que, em dado momento, pergunta ao repórter: “E se eu decidir te matar ou te sequestrar agora? Quem tá podendo? Eu ou você?” (Depois diz que estava brincando e começa a rir do repórter)

4) Aquelas cenas que já estamos mais acostumados a ver — infelizmente — de mães e soldados sendo assassinados e enterrados, pessoas chorando e protestando com rostos de vítimas estampados na blusa, e o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, dizendo que excessos da polícia são “exceção”.

Convido todos os brasileiros a também assistirem. Infelizmente, não encontrei versão com legenda. Mas mesmo quem não entender inglês, vai compreender muito bem o vídeo, que tem vários diálogos em português:

As duas partes do vídeo também podem ser vistas no site da ABC, AQUI e AQUI. Acima, já foram juntadas em um vídeo só.

Brasil tem extermínio de negros, inclusive institucional

Texto escrito por José de Souza Castro: 

“Os negros e pardos brasileiros são vítimas de racismo institucional?”. Essa pergunta fecha o artigo do jornalista Luciano Martins Costa, do Observatório da Imprensa, publicado neste sábado sob o título “O genocídio dissimulado”.

Ele começa por criticar o desinteresse da imprensa pelo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre racismo no Brasil. Apenas os jornais “O Estado de S. Paulo” e “O Globo” publicaram notícia a respeito. O primeiro, numa pequena nota escondida no meio de uma coluna. O segundo, numa reportagem que, segundo Luciano, parece ter sido baseada na apresentação feita pelo diretor do instituto, Daniel Cerqueira, ao estudo publicado no 4º Boletim de Análise Político-Institucional do Ipea, no capítulo intitulado “Segurança Pública e Racismo Institucional”.

O articulista desconfia de negligência da imprensa, mas também pode ser que o Ipea tenha falhado na divulgação do estudo.

Indiscutível é a importância de suas revelações, como se pode ver neste pequeno resumo do texto de Luciano Martins Costa:

  • Mais de 60 mil pessoas são assassinadas a cada ano no Brasil; há um forte viés de cor/raça nessas mortes; o negro é discriminado duas vezes – pela condição social e pela cor da pele.
  • O risco de morte violenta se apresenta muito mais elevado para adolescentes e jovens do sexo masculino, independentemente da cor da pele ou da classe de renda e educação, do que para pessoas adultas. Ou seja: no período da vida em que mais se expõem à interação social é quando os jovens brasileiros estão sob maior risco de morte.
  • Os brasileiros negros e pardos, sejam ricos ou pobres, seja homem ou mulher, têm quase oito vezes mais possibilidade de se tornar vítima de homicídio do que as pessoas não-negras. Para cada três vítimas de assassinato no Brasil, duas têm a pele escura.
  • O estudo expõe o relativo equilíbrio entre os dois universos comparados – 96 milhões de negros e pardos e 94 milhões de não-negros. O resultado é chocante: apesar de serem as maiores vítimas da violência, negros e pardos evitam fazer queixa à polícia em caso de agressão, porque não acreditam na instituição ou por medo de represália.
  • Os números contextualizados pelo Ipea revelam a persistência de uma política de extermínio causada ou permitida por instituições públicas no Brasil, seja pelo desinteresse em atender ocorrências que têm negros e pardos como vítimas, seja pela ação letal da polícia quando esses cidadãos estão envolvidos ou são suspeitos de participar de ações delinquenciais.
  • Apenas no caso de suicídios os índices de mortes entre não-negros é superior, ou seja, mesmo com chances muito menores de segurança e bem-estar, negros e pardos dão mais valor às suas vidas.

Não é a primeira vez que este blog tem escrito sobre o racismo no Brasil, que torna nossa democracia tão incompleta. Se a imprensa desse a importância necessária ao tema, talvez nosso racismo dissimulado não fosse tão persistente.

***

Nota da Cris: Nem todo jornal ignorou o estudo do Ipea. O mineiro “O Tempo” (onde hoje trabalho) dedicou a capa da editoria Brasil ao estudo, em material de página inteira que saiu na edição impressa de 18/10 e no portal.

O cartunista Latuff é um dos que mais abordam a questão em sua polêmica arte. Abaixo, alguns exemplos:

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Leia também:

Brasil, um país de assassinos ambientais

ambientalistasmortosVejam com atenção o gráfico-pizza acima.

Vou traduzir. Trata-se dos assassinatos de ambientalistas cometidos entre 2002 e 2011 no mundo inteiro. Apenas os notificados. De 711 assassinatos notificados, 365 (51%, ou mais da metade) ocorreram no Brasil.

Repito: mais da metade de todos os ambientalistas mortos na última década em todo o planeta estavam no Brasil.

Os dados são da ONU e os descobri AQUI, por meio do jornalista e professor Idelber Avelar.

Dizem um bocado sobre nosso país e o futuro que nos espera.

 

São Paulo em chamas

São Paulo vive uma explosão de homicídios. Uma guerra civil entre policiais e membros do PCC toma conta das ruas da cidade, com mortes a cada dia. 12 mortos em uma só madrugada. 22 baleados no fim de semana. E segurança é da alçada do governo estadual, não do prefeito. Mas imagino como está o clima entre os paulistanos e quase desejo os pêsames ao petista Fernando Haddad.

O clima, aliás, foi bem retratado em duas charges do gênio Angeli, publicadas com um intervalo de apenas cinco dias na “Folha de S.Paulo”:

Enquanto isso, quem faz o serviço de informar aos leitores quem são os bandidos e quem são os mocinhos, separando nominalmente cada um, tem que se esconder fora do país para proteger a própria vida.

Já falei do Caramante duas vezes neste blog: aqui e aqui. Mas ainda não tinha indicado a leitura da entrevista que a repórter Eliane Brum fez com ele. Leiam AQUI, sem falta.

Quando a divulguei em meu Facebook, fiz o seguinte comentário: “Apesar de eu ter certeza de que o admirável André Caramante e sua família seguirão firmes e fortes na luta/serviço que prestam à sociedade, não posso deixar de ter vontade de chorar quando leio um relato como este, organizado pela Eliane Brum. Caramante escondido, para preservar sua família, e Telhada eleito em São Paulo, e o delegado Edson Moreira, do caso do José Cleves, eleito em Belo Horizonte. É uma inversão de valores, uma regressão absurda, e um risco à democracia e ao direito de informar. Choro pelo Caramante, por imaginar o quanto ele deve estar sofrendo por trabalhar de forma mais limitada, o quanto deve estar preocupado e tenso por sua família. Mas também choro por vivermos num Brasil com esses valores e por ver pessoas das mais esclarecidas, de todos os matizes ideológicos, pregando o fim e o cerceamento da imprensa, atirando palavras ignorantes contra o trabalho de jornalistas honestos, prejudicando tantas pessoas com essa atitude. Registro aqui meu imenso desprezo por esses “ativistas de sofá”, que atacam com um ódio burro e fanático, protegidos por um suposto anonimato, e, com isso, incitam reais criminosos com acesso ao poder. Toda força ao Caramante e aos seus queridos. Esperemos que as coisas melhorem algum dia, para o bem da nossa sociedade.”