‘Depressão e suicídio: os dramas deste século triste’, por Ricardo de Moura Faria

Pedintes não são exclusividade do Brasil. Esta mora em Barcelona. Foto: Izabel Faria

A contribuição recebida hoje foi de ninguém menos que o professor e historiador Ricardo de Moura Faria, que já foi citado várias vezes aqui no blog e tem até livro publicado na nossa biblioteca, para ser baixado e lido gratuitamente. Ricardo é historiador, autor de mais de 70 livros didáticos e paradidáticos, e atualmente tem se dedicado a publicar romances de época: “O amor nos tempos do AI-5” e “Amor, opressão e liberdade”. É também blogueiro e meu amigo virtual de debates na blogosfera desde os tempos do “Tamos com Raiva”, minha primeiríssima página, criada em 2003. No artigo abaixo, ele trata de temas importantíssimos da nossa sociedade atual. Boa leitura!


Depressão e suicídio: os dramas deste século triste

Os tempos que estamos vivendo estão muito tristes, e eu diria que no Brasil atual essa tristeza ainda é maior do que em outros locais. E é a nossa realidade aquela que cientificamente ou empiricamente podemos debater.

Fiquei espantado com um dado que foi noticiado neste ano: se pudessem, 62% dos jovens brasileiros emigrariam. E não vou negar que já dei esse conselho a alguns amigos.

Homem em parque de BH. Foto: Ricardo Faria

Por que emigrariam? Sem dúvida, pela tristeza de viver em um país que não lhes acena com a possibilidade de um futuro promissor, associada com a quase certeza de que a situação do país só tende a piorar, que nada dá certo… enfim…

Os poucos momentos de alegria social, que são, basicamente, o carnaval e o esporte, notadamente o futebol, creio que já esgotaram sua capacidade de provocar alegria. A seleção brasileira é formada por estrangeiros milionários que estão se lixando para o país; o carnaval que se vê na mídia é, em essência, aquele que acontece dentro dos parâmetros estabelecidos, enquanto a violência que acontece nas ruas, durante os desfiles de blocos, pouco é noticiada.

Nossa democracia, tão frágil, é esculhambada diariamente pelos integrantes dos três poderes. O que aparece, dia após dia, são fatos de estarrecer. Somos roubados nos impostos que pagamos para sustentar mordomias inacreditáveis a qualquer país sério. A violência nas ruas, o aumento do número de sem-teto, sem-terra, a miséria exposta a cada esquina. Como alguém consegue ser feliz em meio a tudo isso?

Nossas mulheres são espancadas, estupradas, mortas. O número de assassinatos anualmente supera o número de mortos na Guerra do Vietnã, que durou cerca de vinte anos! Jovens e negros são a maioria dos assassinados.

Essa tristeza toda é que, a meu ver, explicaria o incontável número de depressivos, de suicídios, inclusive entre jovens.

Por uma dessas coincidências da vida, chegou-me às mãos um artigo da escritora Eliane Brum, em que o tema do suicídio entre jovens é analisado com profundidade, inclusive com uma entrevista feita por ela com o psicanalista Mario Corso. E, dissertando sobre o absurdo número de suicídios de jovens (a segunda causa de mortes de adolescentes, em todo o mundo), a grande pergunta que ela levanta é: “Por que mais jovens se suicidam hoje do que antigamente?”

Ela observa que a pouca divulgação na mídia dos suicídios de jovens acaba levando à conclusão de que se trata de um problema individual. Resposta com a qual ela não concorda, pois aborda a questão não como individual, mas social.

“Quando adolescentes se matam, eles dizem algo sobre si mesmos, mas também dizem algo sobre a época em que não viverão. A inversão da pergunta não é um jogo retórico. Ela é decisiva. É decisiva também porque devolve a política à pergunta, de onde ela nunca poderia ter saído. E a recoloca no campo do coletivo.”

Então, as perguntas corretas seriam: 1) Por que não haveria mais adolescentes interrompendo a própria vida nos dias atuais do que no passado? E 2) como conseguir uma resposta que não seja a brutalidade de tirar a própria vida?

Homem em Ouro Preto. Foto: Ricardo Faria

A primeira pergunta remete ao mundo em que estamos vivendo, pois se trata de um mundo em que, nas redes sociais, as curtidas e bloqueios assumem importância para os jovens sem perspectivas de futuro num mundo sem emprego e com destruição ambiental sem limites.

Trabalho? Já na década de 1980 a pensadora francesa Vivienne Forrester apontava em livro brilhante – “O horror econômico” – que, num curto espaço de tempo, os robôs passariam a ocupar o lugar dos seres humanos, que se tornariam, portanto, descartáveis. O que fazer com bilhões de pessoas sem emprego, sem renda e, portanto, não-consumidoras, que vivem num sistema que clama pelo consumo para se reproduzir?

A visão dela se completa com a de Robert Kurz em “O colapso da modernização”, em que ele aponta exatamente esse problema que o sistema terá de solucionar. Esperamos que não seja uma solução de extermínio global.

Para a segunda pergunta, eu me confesso incapaz de dar uma resposta. Vocês teriam?

 


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Rolezinho, arrastão, vandalismo ou um caldeirão de preconceitos

Charge do gênio Angeli, publicada na "Folha de S.Paulo"

Charge do gênio Angeli, publicada na “Folha de S.Paulo”

Tou com um bloqueio danado. Li três jornais, uma timeline gigante do Facebook, todos os blogs que assino no Feedly, tudo à cata de inspiração para o post de hoje. O ano mal começou e tanta coisa já aconteceu… Confrontos no Maranhão, crianças morrendo sugadas por ralos de piscina, Nelson Ned morto, etc. Mesmo assim, nada me deu um estalo para um post. É como se minha cabeça ainda estivesse nas miniférias, presa na virada do ano, recusando-se a voltar à rotina de um calendário inteirinho pela frente.

Enquanto volto à normalidade hiperativa, deixo aqui uma recomendação. Para que leiam a excelente coluna da jornalista Eliane Brum, publicada em 23 de dezembro na edição brasileira do “El País“, mas que só fui ver hoje, graças ao blog do jornalista Talis Andrade, que assino.

Eliane discorre sobre os “rolezinhos” que os jovens da periferia combinam por meio de redes sociais, em shoppings normalmente frequentados pela classe média e alta. Eles aconteceram muito no final do ano passado, em Belo Horizonte e São Paulo (e talvez outras cidades, mas não vi notícias). E foram duramente oprimidos pela polícia, mesmo sem casos de furto, roubo ou qualquer tipo de crime — além do “susto” (susto é crime?).

O texto é imenso, gasta-se meia hora para ler, mas faz pensar bastante. Um trecho:

“Os jovens negros e pobres das periferias de São Paulo, em vez de se contentarem em trabalhar na construção civil e em serviços subalternos das empresas de segunda a sexta, e ficar trancados em casas sem saneamento no fim de semana, querem também se divertir. Zoar, como dizem. A classe média até aceita que queiram pão, que queiram geladeira, sente-se mais incomodada quando lotam os aeroportos, mas se divertir – e nos shoppings?”

Para ler tudo, CLIQUE AQUI.

Atualização em 15.1.2014: O melhor texto que li até hoje sobre o assunto foi o de Leandro Beguoci. Leiam AQUI 😉

São Paulo em chamas

São Paulo vive uma explosão de homicídios. Uma guerra civil entre policiais e membros do PCC toma conta das ruas da cidade, com mortes a cada dia. 12 mortos em uma só madrugada. 22 baleados no fim de semana. E segurança é da alçada do governo estadual, não do prefeito. Mas imagino como está o clima entre os paulistanos e quase desejo os pêsames ao petista Fernando Haddad.

O clima, aliás, foi bem retratado em duas charges do gênio Angeli, publicadas com um intervalo de apenas cinco dias na “Folha de S.Paulo”:

Enquanto isso, quem faz o serviço de informar aos leitores quem são os bandidos e quem são os mocinhos, separando nominalmente cada um, tem que se esconder fora do país para proteger a própria vida.

Já falei do Caramante duas vezes neste blog: aqui e aqui. Mas ainda não tinha indicado a leitura da entrevista que a repórter Eliane Brum fez com ele. Leiam AQUI, sem falta.

Quando a divulguei em meu Facebook, fiz o seguinte comentário: “Apesar de eu ter certeza de que o admirável André Caramante e sua família seguirão firmes e fortes na luta/serviço que prestam à sociedade, não posso deixar de ter vontade de chorar quando leio um relato como este, organizado pela Eliane Brum. Caramante escondido, para preservar sua família, e Telhada eleito em São Paulo, e o delegado Edson Moreira, do caso do José Cleves, eleito em Belo Horizonte. É uma inversão de valores, uma regressão absurda, e um risco à democracia e ao direito de informar. Choro pelo Caramante, por imaginar o quanto ele deve estar sofrendo por trabalhar de forma mais limitada, o quanto deve estar preocupado e tenso por sua família. Mas também choro por vivermos num Brasil com esses valores e por ver pessoas das mais esclarecidas, de todos os matizes ideológicos, pregando o fim e o cerceamento da imprensa, atirando palavras ignorantes contra o trabalho de jornalistas honestos, prejudicando tantas pessoas com essa atitude. Registro aqui meu imenso desprezo por esses “ativistas de sofá”, que atacam com um ódio burro e fanático, protegidos por um suposto anonimato, e, com isso, incitam reais criminosos com acesso ao poder. Toda força ao Caramante e aos seus queridos. Esperemos que as coisas melhorem algum dia, para o bem da nossa sociedade.”