‘Depressão e suicídio: os dramas deste século triste’, por Ricardo de Moura Faria

Pedintes não são exclusividade do Brasil. Esta mora em Barcelona. Foto: Izabel Faria

A contribuição recebida hoje foi de ninguém menos que o professor e historiador Ricardo de Moura Faria, que já foi citado várias vezes aqui no blog e tem até livro publicado na nossa biblioteca, para ser baixado e lido gratuitamente. Ricardo é historiador, autor de mais de 70 livros didáticos e paradidáticos, e atualmente tem se dedicado a publicar romances de época: “O amor nos tempos do AI-5” e “Amor, opressão e liberdade”. É também blogueiro e meu amigo virtual de debates na blogosfera desde os tempos do “Tamos com Raiva”, minha primeiríssima página, criada em 2003. No artigo abaixo, ele trata de temas importantíssimos da nossa sociedade atual. Boa leitura!


Depressão e suicídio: os dramas deste século triste

Os tempos que estamos vivendo estão muito tristes, e eu diria que no Brasil atual essa tristeza ainda é maior do que em outros locais. E é a nossa realidade aquela que cientificamente ou empiricamente podemos debater.

Fiquei espantado com um dado que foi noticiado neste ano: se pudessem, 62% dos jovens brasileiros emigrariam. E não vou negar que já dei esse conselho a alguns amigos.

Homem em parque de BH. Foto: Ricardo Faria

Por que emigrariam? Sem dúvida, pela tristeza de viver em um país que não lhes acena com a possibilidade de um futuro promissor, associada com a quase certeza de que a situação do país só tende a piorar, que nada dá certo… enfim…

Os poucos momentos de alegria social, que são, basicamente, o carnaval e o esporte, notadamente o futebol, creio que já esgotaram sua capacidade de provocar alegria. A seleção brasileira é formada por estrangeiros milionários que estão se lixando para o país; o carnaval que se vê na mídia é, em essência, aquele que acontece dentro dos parâmetros estabelecidos, enquanto a violência que acontece nas ruas, durante os desfiles de blocos, pouco é noticiada.

Nossa democracia, tão frágil, é esculhambada diariamente pelos integrantes dos três poderes. O que aparece, dia após dia, são fatos de estarrecer. Somos roubados nos impostos que pagamos para sustentar mordomias inacreditáveis a qualquer país sério. A violência nas ruas, o aumento do número de sem-teto, sem-terra, a miséria exposta a cada esquina. Como alguém consegue ser feliz em meio a tudo isso?

Nossas mulheres são espancadas, estupradas, mortas. O número de assassinatos anualmente supera o número de mortos na Guerra do Vietnã, que durou cerca de vinte anos! Jovens e negros são a maioria dos assassinados.

Essa tristeza toda é que, a meu ver, explicaria o incontável número de depressivos, de suicídios, inclusive entre jovens.

Por uma dessas coincidências da vida, chegou-me às mãos um artigo da escritora Eliane Brum, em que o tema do suicídio entre jovens é analisado com profundidade, inclusive com uma entrevista feita por ela com o psicanalista Mario Corso. E, dissertando sobre o absurdo número de suicídios de jovens (a segunda causa de mortes de adolescentes, em todo o mundo), a grande pergunta que ela levanta é: “Por que mais jovens se suicidam hoje do que antigamente?”

Ela observa que a pouca divulgação na mídia dos suicídios de jovens acaba levando à conclusão de que se trata de um problema individual. Resposta com a qual ela não concorda, pois aborda a questão não como individual, mas social.

“Quando adolescentes se matam, eles dizem algo sobre si mesmos, mas também dizem algo sobre a época em que não viverão. A inversão da pergunta não é um jogo retórico. Ela é decisiva. É decisiva também porque devolve a política à pergunta, de onde ela nunca poderia ter saído. E a recoloca no campo do coletivo.”

Então, as perguntas corretas seriam: 1) Por que não haveria mais adolescentes interrompendo a própria vida nos dias atuais do que no passado? E 2) como conseguir uma resposta que não seja a brutalidade de tirar a própria vida?

Homem em Ouro Preto. Foto: Ricardo Faria

A primeira pergunta remete ao mundo em que estamos vivendo, pois se trata de um mundo em que, nas redes sociais, as curtidas e bloqueios assumem importância para os jovens sem perspectivas de futuro num mundo sem emprego e com destruição ambiental sem limites.

Trabalho? Já na década de 1980 a pensadora francesa Vivienne Forrester apontava em livro brilhante – “O horror econômico” – que, num curto espaço de tempo, os robôs passariam a ocupar o lugar dos seres humanos, que se tornariam, portanto, descartáveis. O que fazer com bilhões de pessoas sem emprego, sem renda e, portanto, não-consumidoras, que vivem num sistema que clama pelo consumo para se reproduzir?

A visão dela se completa com a de Robert Kurz em “O colapso da modernização”, em que ele aponta exatamente esse problema que o sistema terá de solucionar. Esperamos que não seja uma solução de extermínio global.

Para a segunda pergunta, eu me confesso incapaz de dar uma resposta. Vocês teriam?

 


Se você também tem alguma análise, poema, conto, crônica, resenha de filme ou outro texto bacana de sua autoria que queira ver divulgado aqui no blog, envie para meu e-mail! Vou analisar com carinho e, se tiver a ver com nossa proposta, seu texto poderá ser publicado na seção de textos enviados pelos leitores 😉

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Coca-Cola experimenta o gosto amargo da greve dos caminhoneiros

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ricardo Faria, historiador mineiro, autor de livros didáticos de História e do romance “O amor nos tempos do AI-5”, entre outros livros, é também blogueiro e vem-se destacando, em seu blog, na defesa do meio ambiente. Alguns artigos daqui foram republicados em seu blog, mas não é sobre isso que pretendo escrever e sim sobre os malefícios da Coca-Cola, inclusive para o meio ambiente na vizinhança de Belo Horizonte.

No último domingo, o blog deu com destaque reportagem da BBC News sobre o derretimento acelerado da Antártida, que está perdendo 200 bilhões de toneladas de gelo por ano. Nos últimos 25 anos, o continente perdeu 2,7 trilhões de toneladas de gelo. Não vai demorar tanto tempo para que o mundo conheça a dimensão dessa tragédia ambiental.

Até aí, porém, não se pode culpar a Coca-Cola, que não se opõe a um refrigerante bem gelado. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo da tragédia que se está registrando em Minas, provocada por uma fábrica da Coca-Cola em Itabirito, cujo funcionamento foi autorizado no governo Antonio Anastasia, do PSDB.

Conforme a reportagem, que pode ser lida aqui, o biólogo Francisco Mourão, da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (AMDA) , afirma que, desde a instalação dos poços artesianos para abastecer a fábrica da Coca-Cola, estão secando as nascentes dos rios Paraopeba e das Velhas, responsáveis por quase toda a água consumida em Belo Horizonte.

Segundo Mourão, a fábrica põe em risco também o rico ecossistema do monumento natural da Serra da Moeda. Ao contrário do que afirma a empresa, que diz que esta é “a maior fábrica verde do sistema Coca-Cola do mundo”.

Ela foi inaugurada em junho de 2015, com incentivo do governo de Minas, representado por desconto no pagamento do ICMS. Teriam sido investidos 258 milhões de dólares. A área construída é de 65 mil metros quadrados, num terreno cinco vezes maior. E a promessa de gerar 600 empregos diretos e 3 mil indiretos e de produzir 2,1 bilhões de litros por ano, podendo duplicar a capacidade no futuro.

Claro, se houver água.

Não descobri qual o valor do incentivo oferecido pelo governo para que a Coca-Cola pudesse transferir sua velha fábrica de Belo Horizonte para Itabirito. Segredo de Estado – ou vergonha.

Em vez de reduzir impostos para fabricantes de refrigerantes, dever-se-ia (obrigado, Temer), aumentá-los. É um grupo mexicano (Femsa), maior distribuidor da Coca-Cola no Brasil, que está à frente da fábrica em Itabirito. Pois bem, desde 2014, encontra-se em vigor no México uma sobretaxa de 10% sobre bebidas açucaradas, num esforço para diminuir o problema da obesidade. Em dois anos, a venda dos refrigerantes caiu 14% no México.

O Brasil enfrenta uma epidemia de sobrepeso. Uma de cada três crianças é obesa. Entre adolescentes, um em cada quatro. E cerca de 60% dos adultos estão acima do peso. A população brasileira é mais obesa que a média mundial.

Não surpreendentemente, no Brasil são oferecidas isenções fiscais, tanto na produção como na comercialização dos refrigerantes. As empresas teriam deixado de recolher aos cofres públicos cerca de 7 bilhões de reais por ano. Valor equivale a cerca de dois Programas de Alimentação Escolar que atende anualmente 40 milhões de estudantes.

Se o governo Temer resistir às pressões, isso pode mudar. Em seguida à greve dos caminhoneiros, ele publicou no dia 30 de maio decreto que reduz incentivos fiscais para parcela da cadeia produtiva de refrigerantes. O governo concedia redução de 20% do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos concentrados produzidos na Zona Franca de Manaus. Para elevar sua arrecadação, exigida a partir da greve, o incentivo baixou para 4%. Os maiores prejudicados são a Coca-Cola e a Ambev. Mas elas continuam contando com incentivos de ICMS, PIS-Cofins e Imposto de Renda.

E não para aí. Conforme denúncia publicada pelo blog do Ricardo Faria, quanto maior o valor da nota fiscal emitida, maior o crédito a que se tem direito na etapa seguinte – um incentivo ao superfaturamento. O concentrado da Coca-Cola, quando vendido ao mercado externo, custa em torno de R$ 70. Quando repassado a empresas no Brasil, chega a valer até R$ 470.

Não é a primeira vez que o governo brasileiro tenta enfrentar o setor representado pela ABIR (Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas) que se apressou a declarar-se surpresa com o decreto de Temer. Ao reagir a medida parecida no governo Lula, em 2008, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), um dos maiores engarrafadores de Coca-Cola do Brasil, conseguiu anular o decreto.

Se não conseguir agora, será graças à greve dos caminhoneiros e ao exemplo de quase 40 governos ao redor do mundo que já adotaram tributação especial sobre esses produtos, para combater a obesidade.

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Tem livro novo na Biblioteca do Blog!

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Que ótimo! A Biblioteca do Blog acaba de receber seu nono exemplar — o oitavo para download gratuito. Desta vez, tivemos a honra de sermos presenteados com um livro do professor, historiador e blogueiro Ricardo de Moura Faria, que é autor de mais de 70 livros didáticos e paradidáticos sobre História e é meu amigo há uns 12 anos 🙂

O livro que ele deixa em nossa biblioteca é o Utopias do Século XX, que também pode ser comprado por quem quiser ter a versão impressa (custa R$ 43,96 no Clube de Autores). Mas, aqui no blog, pode ser consultado e baixado de graça, basta clicar AQUI e escolher o livro.

E de que se trata?

Nas palavras do autor, o livro “tem o objetivo de realizar um inventário histórico e crítico das principais revoluções socialistas que ocorreram no século XX.

A instituição — ou não — do socialismo na URSS, na China e em Cuba é o pano de fundo para a discussão sobre as utopias políticas que foram geradas no decorrer do século passado.

O livro não aborda o momento das revoluções em um recorte desvinculado de conteúdo; antes, fundamenta e refaz os processos revolucionários de sua origem aos dias atuais.

Um livro fundamental para aqueles que desejam compreender os momentos em que boa parte da humanidade se viu dividida e amedrontada.”

Um trechinho da introdução do livro também ajuda a mostrar a que ele vem:

Devemos entender que as utopias igualitárias perderam seu lugar com a “vitória” do mundo capitalista? Ou, pelo contrário, que hoje, mais do que nunca, elas são necessárias? Afinal, será possível sonhar com uma sociedade na qual haverá justiça social, igualdade, liberdade, o fim da exploração do homem pelo homem, enfim, uma sociedade 18 em que os homens possam ser felizes, dispondo de tudo aquilo que a tecnologia é capaz de produzir e podendo dedicar parte de seu tempo à cultura, às outras pessoas… ou será que não temos sequer o direito de sonhar?”

Enfim, este livro vai enriquecer muito nossa biblioteca! Fica como sugestão de leitura a todos que se interessem minimamente pela história do mundo e as ideologias e utopias dos séculos 19 e 20, que ajudaram a formatar a sociedade em que hoje vivemos.

Você também escreveu algum livro e quer disponibilizá-lo para download gratuito? Envie para o email do blog e eu terei o maior prazer em colocá-lo em nossa biblioteca 😉


 

CLIQUE AQUI e navegue pela Biblioteca do Blog, que tem oito livros para download gratuito, sobre diversos assuntos.

Acervo da Biblioteca:

  1. Guia Turístico de Belo Horizonte com 90 Dicas de Passeio
  2. A Saga do Galo na Libertadores — poesia ilustrada
  3. Sucursal das Incertezas — a história vista por um jornalista dos tempos do telex ponta a ponta
  4. Injustiçados — O Caso Portilho
  5. Sagaetê (infantojuvenil)
  6. Uma eterna aprendiz no PT (autobiografia de Sandra Starling)
  7. Utopias do Século XX
  8. Criacionismo – um (longo) diálogo sobre ciência e religião

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Professor universitário precisa de mestrado? (parte 3)

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Esta é a terceira e última parte do debate que resolvi promover aqui no blog nesta semana, depois que dois excelentes professores da PUC Minas foram demitidos apenas por não terem título de mestres (embora sejam os mestres das centenas de alunos que protestaram contra a demissão).

Na primeira parte, contei o episódio dos professores e dividi o texto que meu pai escreveu homenageando um deles, que também trouxe uma bela reflexão sobre o assunto.

Na segunda parte, eu trouxe minha opinião e a experiência que eu tive na universidade. Falei também sobre como meus melhores professores não foram os que acumulam títulos acadêmicos.

Hoje, quero trazer as opiniões dos leitores, que foram muito boas e vão enriquecer demais este debate. Alguns concordaram, outros discordaram, mas todos trouxeram argumentos muito legais — que é o que importa nos debates, né? Bom proveito!


 

Ricardo Faria, historiador:

“Olha, fui professor universitário durante 18 anos. Até que tentei fazer um mestrado, mas coincidiu que eu era chefe do departamento e o pró-reitor inventava de fazer reuniões sempre na semana que havia aulas. Resultado, desisti depois da terceira disciplina. E depois fiquei pensando se valia a pena participar da verdadeira palhaçada que são as defesas de dissertação que pude presenciar. Cartas marcadas, a sua dissertação só vai ser defendida quando o seu orientador achar que está boa. E a banca não vai te dar bomba porque isso equivale a dar bomba no orientador. O resultado é que qualquer coisa passa e o sujeito vira mestre.

Claro, existem os mestrados mais sérios, os orientadores mais sérios. E os mestres mais sérios também.

Mas, sem querer me vangloriar, nos 18 anos em que dei aula, assisti a 36 formaturas (2 por ano). Em mais de 15 eu fui escolhido paraninfo e em umas vinte fui homenageado.

Vi professores com mestrado escreverem palavras erradas no quadro, vi professores sem qualquer didática. Vi doutores encerrando seu curso com duas semanas de aula, porque só sabiam falar da sua tese e depois não tinham ideia do que fazer na sala.

Entrevistei professora com mestrado e doutorado na Sorbonne (é, isso mesmo), que, quando foi apresentada ao programa da disciplina, confessou que não sabia nada daquilo, pois só entendia o assunto da sua dissertação e tese.

Conheci mestres e doutores para quem tiro o chapeu até hoje e me pergunto se caso eles não tivessem seus mestrados, doutorados e pós-doutorados seriam melhores ou piores.

Escrevi mais de 70 livros didáticos, alguns dos quais ficaram conhecidos como revolucionários (no sentido de propor mudanças pedagógicas no ensino de história). Milhões de brasileiros estudaram em meus livros. Só em Minas Gerais, uma coleção vendeu 750.000 exemplares. Isso me granjeou respeito entre os professores de ensino fundamental e médio, e também doutores e mestres. E um mal disfarçado desprezo por parte de alguns mestres e doutores.

Eu ainda poderia fazer um mestrado, tenho ideias interessantes para pesquisar. Mas me pergunto: pra quê?”

 

 


Leonardo Kenji:

“Eu respeito profundamente os títulos acadêmicos, talvez até mais do que eles realmente mereçam 🙂 então me sinto dividido para responder.

Eu realmente acho que, na média, mestrado e doutorado atestam sim uma pessoa mais capacitada, sobretudo quando falamos sobre orientar alunos a fazer pesquisa científica.

Por outro lado, eu já lecionei em cursos de extensão para concluir que sou um péssimo professor :-).

Da mesma forma, muitos ótimos professores não tem título e péssimos professores ostentam belos títulos. De forma que eu sinceramente acho que a atividade de ensino superior devia ser repensada quanto aos critérios de ensino.

Acho que o problema passa por outra linha: para ser professor, as habilidades necessárias são muito maiores do que atestam um mero título. Talvez o mundo acadêmico, da forma como historicamente evoluiu, tenha escapado da discussão das habilidades necessárias para ser professor de curso superior.

A impressão que tenho é que muitos bons professores ficam limitados pelas instituições em que trabalham, ao mesmo tempo em que maus professores são protegidos por colegas e instituições de ensino sob o discurso do “o aluno que se vire para aprender”.

No fim das contas, acho que a discussão é mais profunda que a exigência ou não de título, mas neste aspecto específico, confesso que não tenho opinião formada.”


 

Talis Andrade, poeta e jornalista:

“Para ser professor universitário basta o notório saber. Falo como ex-professor de ginásio, vestibular, Escola Normal (Filosofia), de curso internacional de doutores em Odontologia (Cultura) e faculdades de RP, Jornalismo e Turismo. E basta de chamar reitor de magnífico.”


 

Bruna Saniele, jornalista, graduada em jornalismo e em direito:

“Eu acho que um professor não deveria ser obrigado a ter mestrado. Inclusive me incomodei muito quando tive aula com professores que tinham acabado de entrar no mestrado e que, ao meu ver, estavam aptos ao mestrado, mas inaptos para dar aulas, pelo menos naquele momento. Tive ótimos professores, especialmente na faculdade de direito, sem título, e péssimos professores com toda a titulação exigida. Ensinar é uma arte e com mestrado ou sem mestrado nem todos têm o dom.”


 

Pedro Abreu, graduado em publicidade e graduando em engenharia, pela UFMG:

“Os ‘fora de série’ e já reconhecidos talvez não precisem, mas e os novos professores que ainda não possuem experiência profissional nem reconhecimento notório? Nesse caso, um mestrado ou um doutorado é diferencial determinante entre dois candidatos à vaga, sendo um titulado e o outro não.
Outra questão é que talvez não faça muito sentido um doutorado em publicidade mas um doutorado em mecânica quântica pode ser fundamental.

Sem contar que o número de mestres e doutores conta e muito na avaliação de uma instituição pelos renomados rankings de excelência. Pode não ser a melhor forma de avaliação, mas é um fator quantitativo que está relacionado, de forma geral, a um bom desempenho da instituição. A discutir.”


 

Luana Macieira:

“Para um professor da pós-graduação strictu sensu, acho que é necessário sim. Afinal, como um professor vai orientar um aluno a escrever uma dissertação ou tese se ele nunca escreveu uma? Acho que um professor que tenha experiência com pesquisa esteja mais qualificado pra orientar uma pesquisa. Agora, no caso da graduação, que é algo muito mais técnico, talvez o título não devesse ser o mais importante.

Mas entendo o lado da PUC porque as universidades são avaliadas pelo número de professores mestres e doutores. Então dá pra entender o porquê de ela estar buscando isso nos seus professores (se esse modo de avaliação é bom ou ruim, aí já são outros quinhentos….)”


 

Marcelo Soares, jornalista:

“Eu acho assim: se a disciplina for de teoria do blablablá (e tem tantas em faculdade de jornalismo!), quanto mais canudos na parede melhor. Se a disciplina for de arregaçar a manga, quanto mais calos nas mãos melhor e canudo é secundário.”


 

José de Souza Castro, jornalista (e meu pai!):

“Eu não tive professores doutores na UFMG – ou, se tive, eles não ficavam por aí se chamando de professores doutores, como faz hoje uma colega minha de faculdade que se tornou sócia proprietária de uma dessas escolas superiores privadas que pululam por aí cheia de professores doutores, e por isso não sabia que eles eram doutores. Mas tive bons professores com ampla experiência em suas áreas, inclusive no jornalismo. Entre esses últimos, posso citar os jornalistas Jacques do Prado Brandão, Plínio Carneiro e José Mendonça. Tive também bons colegas que se tornaram bons jornalistas, como José Silvestre Gorgulho, Thais de Mendonça Jorge, Leonardo Mendonça Brito, José Alves de Lima, Elma Heloísa de Almeida, Maria Genoveva Ruisdias Fonseca, Roberto Drummond Mello Silva, Raquel Moraes de Mattos, Pedro Luiz Lobato, Eustáquio Trindade Neto e Amauri Fraga,

Muito pudemos aprender, uns com outros. E principalmente na excelente biblioteca da Fafich, rica em livros sobre sociologia, filosofia, política, história e literatura. Muitos deles escritos por mestres e doutores brasileiros e estrangeiros, mas também por quem nunca fizera universidade, como Machado de Assis. Ou que foram bons jornalistas sem nunca terem estudado comunicação social, como Ruy Barbosa (que se considerava antes de tudo um jornalista, sabia? Nem eu, foi seu tio Antônio, um advogado e grande conhecedor desse colega baiano, quem me disse, nesta semana).

Para o jornalista, mais que a faculdade e seus professores doutores, a melhor escola é a vida. Sobretudo a vida dos outros, pois é nela, geralmente, que, sabendo olhar e perguntar, é onde mais aprendemos a arte de viver e escrever.”


 

Gabriel, do blog O Albergueiro:

“De fato, de fato não é necessário. O importante é o conhecimento, embora presume-se que com esses diplomas (mestrado e doutorado) você demonstra ter “oficialmente” o conhecimento tão necessário para se vencer na vida social e capital, mas de fato não é necessário não. Mas penso ainda que essa questão pode gerar uma discussão bem interessante.”


 

Elisa, leitora do blog:

“Sou formada em Direito e super concordo com você. Alguns professores na faculdade abordavam a matéria de modo tão abstrato que, ao final de um semestre, se me fizessem qualquer questão simplíssima sobre o assunto, eu não sabia responder.

Sem contar que, para alunos da UFMG (meu caso e seu), há tantos e tantos e tantos professores substitutos recém egressos da graduação que chega a ser meio hipócrita essa exigência do mestrado e doutorado – de que adianta ter o corpo docente tão qualificado se quem de fato ministra aulas são os substitutos? (atenção: não estou criticando os professores substitutos que, acima de tudo, são heróis por assumirem inúmeras turmas e matérias com uma remuneração simbólica. Estou apenas mostrando a incoerência.)”


 

Tenerifegalo, leitor do blog:

“Acho que a parte técnica ou teórica, qual seja, mestrado, doutorado etc…para um aspirante é muito importante, mas o traquejo real com a coisa, a hora de correr atrás e fazer a coisa acontecer, tem de vir da soma de fatores como: a aptidão natural que corre na veia do sujeito, o aprendizado adquirido, e a experiencia, de preferência referenciada por uma cobra já criada, juramentada e sacramentada, que muitas vezes, não tem títulos, mas é imprescindível para fazer a coisa funcionar e ensinar os meandros de como a coisa realmente funciona.”


 

Sincero Silva, leitor do blog:

“O que está acontecendo é que as Universidades e Faculdades estão priorizando a área científica em detrimento ao magistério, os professores têm que ter mestrado, doutorado e produção intelectual… Agora, o magistério, aquele negócio de ensinar, prender a atenção dos alunos e, quem sabe, formar novos professores não é o que as universidades pretendem. Fiz dois cursos superiores e sei que os melhores professores destes cursos não tinham mestrado ou doutorado. Eram simplesmente professores por dom divino.”


Wander Veroni Maia, jornalista, blogueiro e professor:

Eu acredito que o Jornalismo, como parte da Comunicação, precisa ter em sua grade elementos teóricos e técnicos, de forma equilibrada que permita o graduando sair da faculdade sabendo a técnica, mas que também possa pensar sobre esta técnica e, quem sabe, ir para um programa de pós-graduação (especialização, mestrado, doutorado, pós-doutorado).

O que percebo hoje é que o jornalismo está mudando. Cursei a faculdade entre 2003/2007 e falo sem sombra de dúvida que aquela realidade que estudei ou vivenciei no mercado está completamente diferente da de hoje. Os veículos tradicionais estão cada vez mais enxutos, enquanto numa outra ponta, mais tímida, a Comunicação está mais empreendedora.

Aos poucos, o Jornalista está se apoderando do Jornalismo, no sentido de que ele hoje não precisa só ir para assessoria de imprensa ou redação. Existem outras possibilidades profissionais, muitas delas ligadas ao empreendedorismo e à internet. Eu, por exemplo, se não estivesse me dedicando aos estudos, adoraria ter uma bolsa da Agência Pública para trabalhar a temática do Jornalismo Investigativo. Acho isso um barato!

Vejo colegas jornalistas se unindo e criando experiências empreendedoras por meio de crowdfunding, da criação de blogs, sites, revistas, jornais de bairro, livros, livro-reportagem, cursos de curta duração, etc. Tem muita coisa que ainda não foi explorada ou que precisa ser melhor explorada!

Desde 2011, atuo como professor de curso de extensão ligado a gestão e produção de conteúdo na web. Apesar de ser pós-graduado em “Rádio e TV” e graduando em “Comunicação e Saúde”, ainda não tenho mestrado e atuo como professor. Pretendo fazer mestrado, não só pelo título, mas sobretudo pelo conhecimento adquirido.

Penso que, por mais que tenhamos a tecnologia a nossa mão, o modo de fazer do jornalismo ainda não mudou. Ainda temos que ligar para a nossa fonte, apurar, entrevistar, investigar, editar, reportar, opinar, enfim, o que muda hoje é a plataforma.

Me incomoda muito a visão dos veículos que ainda encaram a internet como rival, quando na verdade deveria ser um apoio importante para dar visibilidade ao trabalho jornalístico e, mais do que isso, que possamos cumprir com ética e discernimento a nossa função essencial que é prestar serviço à sociedade. Particularmente, fiquei com “vergonha alheia” de alguns veículos de comunicação na cobertura eleitoral. Mas, enfim…rs

Como jornalista e professor, fiquei sensibilizado com o que os alunos da PUC fizeram. E este coordenador da PUC deveria repensar isso. O que adianta um professor com Mestrado e Doutorado se ele não tem prática ou não quer dar prática aos alunos? Um professor vale muito mais pelo seu repertório do que pelos seus títulos. Nesse sentido, a PUC deu um tiro no pé. Pena que as outras universidades de BH dormiram no ponto e não contrataram esses professores… Seria uma resposta importante ao mercado e ao mundo acadêmico.

Ultimamente, estou muito pessimista com a nossa imprensa em BH. Pouquíssimos investimentos. sucateamento, salários defasados, muita agressão moral, verbal, e um foco quase que exclusivo a cobertura policial. Espero que isso mude um dia. Mas esta mudança tem que começar de nós, jornalistas, nos apropriando do Jornalismo e dizendo mais “NÃO” do que sim para o mercado.


 

E você, pensa o que da questão? Envie seu comentário e eu acrescento aqui ao post 😉

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Você sabe conversar com meninas de 5 anos? — um contraponto

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Anteontem postei aqui o texto de Lisa Bloom sobre como conversar com crianças, enfatizando a inteligência e o valor da leitura e menos o da aparência.

Hoje trago um contraponto que também é muito bom. Foi escrito por Renata Ferrer, que é mãe de uma criança nessa idade. Ela enviou o texto ao professor Ricardo Faria, que me enviou, com a devida autorização para publicar aqui no blog.

Para complementar nossa reflexão:

“Li este texto da Lisa Bloom uns meses atrás… Concordo sim, mas com cuidado. Tenho visto algumas pessoas que, na minha opinião, exageram. Cresci brincando de usar batom, salto alto, esmalte, brincando de boneca. Pior: cresci à base de muita Xuxa e Barbie na veia. E, olha, além de ter me tornado provavelmente uma das menos vaidosas moradoras de ‘Belzonte’, nada disso me impediu de adorar ler, de me interessar por diversos assuntos, de questionar, buscar entender o porquê das coisas antes de aceitar qualquer opinião. Jamais segui moda, em área nenhuma da vida, e nunca vivi em função de beleza.

Enfim, só fico com preguiça de quem exagera quando vê, por exemplo, minha filha brincando de passar batom, e me olha como se eu fosse a pior mãe do mundo. E quando ela vai toda orgulhosa e escolhe sua própria roupa (doidamente descombinada), e me pergunta se está bonita, eu respondo que sim, está bonita, muito legal a roupa que ela escolheu sozinha. Isso não quer dizer que eu esteja passando para ela a mensagem de que a aparência é o que mais importa na vida. Na minha opinião, um dos principais problemas relativos a tudo que a Lisa Bloom diz no texto é a publicidade e como os próprios pais estão inseridos na mentalidade consumista, mas muitas vezes não percebem. Não adianta ler esse texto e achar que parar de elogiar a ‘beleza’ de meninas vai resolver alguma coisa, se os exemplos que os adultos dão em casa são de valorizar o que não importa, seja a aparência da mulher maquiadérrima e com photoshop que aparece na revista, sejam carros caros, sejam roupas de grife… Se o exemplo é de rir dos outros, comentar a vida alheia, agir como se tivéssemos que levar vantagem em tudo, não ser solidário, ou mais ainda deixar transparecer preconceitos de qualquer tipo, sejam de gênero, contra negros, gays, ou preconceitos de classe (o que mais tenho visto), de nada adianta patrulhar os elogios às menininhas. E mais: também não adianta nada patrulhar os elogios às meninas, mas continuar proibindo os meninos de brincar de fazer comidinha, de pegar uma boneca no colo, de brincar com a vassourinha rosa da irmã… Mas isso dá pano pra manga, deixa pra outro dia.

Bem, acho que o problema é ficar só na aparência e não cuidar de forma integral e consciente dos próprios filhos (ou ao menos tentar), não estimular leitura, não estimular generosidade… Não prestar atenção (ou controlar enquanto é possível) o que assistem na televisão, no computador etc… A overdose de propaganda desses canais infantis (discovery kids não me desce na garganta, proíbo mesmo) é absurda! Fora aberrações como a tal novelinha “Carrossel”, pelamordedeus! (aliás, recomendo muito o site http://www.infancialivredeconsumismo.com.br).

Mais uma coisinha: ensinar a se cuidar, se arrumar um pouco, cuidar da saúde sem neura de magreza, mas praticando exercícios – nada disso acho que seja prejudicial em si. Acredite, fui criada com mãe e tia que jamais se cuidaram, quase desleixadas mesmo, e isso não é nem um pouco saudável, em nenhum sentido – um pouquinho mais de vaidade não me teria feito mal, não prejudicaria meu cérebro, pois fui criada de forma a construir um senso crítico que nenhum batonzinho rosa destruiria.

Enfim, só acho que a coisa toda é muito mais complexa do que a Lisa Bloom põe no texto que sua amiga reproduziu!”

E é, né. Espero mais textos e comentários de mães experientes (ou em experiência) aqui no blog! 😉

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