Professor universitário precisa de mestrado? (parte 3)

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Esta é a terceira e última parte do debate que resolvi promover aqui no blog nesta semana, depois que dois excelentes professores da PUC Minas foram demitidos apenas por não terem título de mestres (embora sejam os mestres das centenas de alunos que protestaram contra a demissão).

Na primeira parte, contei o episódio dos professores e dividi o texto que meu pai escreveu homenageando um deles, que também trouxe uma bela reflexão sobre o assunto.

Na segunda parte, eu trouxe minha opinião e a experiência que eu tive na universidade. Falei também sobre como meus melhores professores não foram os que acumulam títulos acadêmicos.

Hoje, quero trazer as opiniões dos leitores, que foram muito boas e vão enriquecer demais este debate. Alguns concordaram, outros discordaram, mas todos trouxeram argumentos muito legais — que é o que importa nos debates, né? Bom proveito!


 

Ricardo Faria, historiador:

“Olha, fui professor universitário durante 18 anos. Até que tentei fazer um mestrado, mas coincidiu que eu era chefe do departamento e o pró-reitor inventava de fazer reuniões sempre na semana que havia aulas. Resultado, desisti depois da terceira disciplina. E depois fiquei pensando se valia a pena participar da verdadeira palhaçada que são as defesas de dissertação que pude presenciar. Cartas marcadas, a sua dissertação só vai ser defendida quando o seu orientador achar que está boa. E a banca não vai te dar bomba porque isso equivale a dar bomba no orientador. O resultado é que qualquer coisa passa e o sujeito vira mestre.

Claro, existem os mestrados mais sérios, os orientadores mais sérios. E os mestres mais sérios também.

Mas, sem querer me vangloriar, nos 18 anos em que dei aula, assisti a 36 formaturas (2 por ano). Em mais de 15 eu fui escolhido paraninfo e em umas vinte fui homenageado.

Vi professores com mestrado escreverem palavras erradas no quadro, vi professores sem qualquer didática. Vi doutores encerrando seu curso com duas semanas de aula, porque só sabiam falar da sua tese e depois não tinham ideia do que fazer na sala.

Entrevistei professora com mestrado e doutorado na Sorbonne (é, isso mesmo), que, quando foi apresentada ao programa da disciplina, confessou que não sabia nada daquilo, pois só entendia o assunto da sua dissertação e tese.

Conheci mestres e doutores para quem tiro o chapeu até hoje e me pergunto se caso eles não tivessem seus mestrados, doutorados e pós-doutorados seriam melhores ou piores.

Escrevi mais de 70 livros didáticos, alguns dos quais ficaram conhecidos como revolucionários (no sentido de propor mudanças pedagógicas no ensino de história). Milhões de brasileiros estudaram em meus livros. Só em Minas Gerais, uma coleção vendeu 750.000 exemplares. Isso me granjeou respeito entre os professores de ensino fundamental e médio, e também doutores e mestres. E um mal disfarçado desprezo por parte de alguns mestres e doutores.

Eu ainda poderia fazer um mestrado, tenho ideias interessantes para pesquisar. Mas me pergunto: pra quê?”

 

 


Leonardo Kenji:

“Eu respeito profundamente os títulos acadêmicos, talvez até mais do que eles realmente mereçam 🙂 então me sinto dividido para responder.

Eu realmente acho que, na média, mestrado e doutorado atestam sim uma pessoa mais capacitada, sobretudo quando falamos sobre orientar alunos a fazer pesquisa científica.

Por outro lado, eu já lecionei em cursos de extensão para concluir que sou um péssimo professor :-).

Da mesma forma, muitos ótimos professores não tem título e péssimos professores ostentam belos títulos. De forma que eu sinceramente acho que a atividade de ensino superior devia ser repensada quanto aos critérios de ensino.

Acho que o problema passa por outra linha: para ser professor, as habilidades necessárias são muito maiores do que atestam um mero título. Talvez o mundo acadêmico, da forma como historicamente evoluiu, tenha escapado da discussão das habilidades necessárias para ser professor de curso superior.

A impressão que tenho é que muitos bons professores ficam limitados pelas instituições em que trabalham, ao mesmo tempo em que maus professores são protegidos por colegas e instituições de ensino sob o discurso do “o aluno que se vire para aprender”.

No fim das contas, acho que a discussão é mais profunda que a exigência ou não de título, mas neste aspecto específico, confesso que não tenho opinião formada.”


 

Talis Andrade, poeta e jornalista:

“Para ser professor universitário basta o notório saber. Falo como ex-professor de ginásio, vestibular, Escola Normal (Filosofia), de curso internacional de doutores em Odontologia (Cultura) e faculdades de RP, Jornalismo e Turismo. E basta de chamar reitor de magnífico.”


 

Bruna Saniele, jornalista, graduada em jornalismo e em direito:

“Eu acho que um professor não deveria ser obrigado a ter mestrado. Inclusive me incomodei muito quando tive aula com professores que tinham acabado de entrar no mestrado e que, ao meu ver, estavam aptos ao mestrado, mas inaptos para dar aulas, pelo menos naquele momento. Tive ótimos professores, especialmente na faculdade de direito, sem título, e péssimos professores com toda a titulação exigida. Ensinar é uma arte e com mestrado ou sem mestrado nem todos têm o dom.”


 

Pedro Abreu, graduado em publicidade e graduando em engenharia, pela UFMG:

“Os ‘fora de série’ e já reconhecidos talvez não precisem, mas e os novos professores que ainda não possuem experiência profissional nem reconhecimento notório? Nesse caso, um mestrado ou um doutorado é diferencial determinante entre dois candidatos à vaga, sendo um titulado e o outro não.
Outra questão é que talvez não faça muito sentido um doutorado em publicidade mas um doutorado em mecânica quântica pode ser fundamental.

Sem contar que o número de mestres e doutores conta e muito na avaliação de uma instituição pelos renomados rankings de excelência. Pode não ser a melhor forma de avaliação, mas é um fator quantitativo que está relacionado, de forma geral, a um bom desempenho da instituição. A discutir.”


 

Luana Macieira:

“Para um professor da pós-graduação strictu sensu, acho que é necessário sim. Afinal, como um professor vai orientar um aluno a escrever uma dissertação ou tese se ele nunca escreveu uma? Acho que um professor que tenha experiência com pesquisa esteja mais qualificado pra orientar uma pesquisa. Agora, no caso da graduação, que é algo muito mais técnico, talvez o título não devesse ser o mais importante.

Mas entendo o lado da PUC porque as universidades são avaliadas pelo número de professores mestres e doutores. Então dá pra entender o porquê de ela estar buscando isso nos seus professores (se esse modo de avaliação é bom ou ruim, aí já são outros quinhentos….)”


 

Marcelo Soares, jornalista:

“Eu acho assim: se a disciplina for de teoria do blablablá (e tem tantas em faculdade de jornalismo!), quanto mais canudos na parede melhor. Se a disciplina for de arregaçar a manga, quanto mais calos nas mãos melhor e canudo é secundário.”


 

José de Souza Castro, jornalista (e meu pai!):

“Eu não tive professores doutores na UFMG – ou, se tive, eles não ficavam por aí se chamando de professores doutores, como faz hoje uma colega minha de faculdade que se tornou sócia proprietária de uma dessas escolas superiores privadas que pululam por aí cheia de professores doutores, e por isso não sabia que eles eram doutores. Mas tive bons professores com ampla experiência em suas áreas, inclusive no jornalismo. Entre esses últimos, posso citar os jornalistas Jacques do Prado Brandão, Plínio Carneiro e José Mendonça. Tive também bons colegas que se tornaram bons jornalistas, como José Silvestre Gorgulho, Thais de Mendonça Jorge, Leonardo Mendonça Brito, José Alves de Lima, Elma Heloísa de Almeida, Maria Genoveva Ruisdias Fonseca, Roberto Drummond Mello Silva, Raquel Moraes de Mattos, Pedro Luiz Lobato, Eustáquio Trindade Neto e Amauri Fraga,

Muito pudemos aprender, uns com outros. E principalmente na excelente biblioteca da Fafich, rica em livros sobre sociologia, filosofia, política, história e literatura. Muitos deles escritos por mestres e doutores brasileiros e estrangeiros, mas também por quem nunca fizera universidade, como Machado de Assis. Ou que foram bons jornalistas sem nunca terem estudado comunicação social, como Ruy Barbosa (que se considerava antes de tudo um jornalista, sabia? Nem eu, foi seu tio Antônio, um advogado e grande conhecedor desse colega baiano, quem me disse, nesta semana).

Para o jornalista, mais que a faculdade e seus professores doutores, a melhor escola é a vida. Sobretudo a vida dos outros, pois é nela, geralmente, que, sabendo olhar e perguntar, é onde mais aprendemos a arte de viver e escrever.”


 

Gabriel, do blog O Albergueiro:

“De fato, de fato não é necessário. O importante é o conhecimento, embora presume-se que com esses diplomas (mestrado e doutorado) você demonstra ter “oficialmente” o conhecimento tão necessário para se vencer na vida social e capital, mas de fato não é necessário não. Mas penso ainda que essa questão pode gerar uma discussão bem interessante.”


 

Elisa, leitora do blog:

“Sou formada em Direito e super concordo com você. Alguns professores na faculdade abordavam a matéria de modo tão abstrato que, ao final de um semestre, se me fizessem qualquer questão simplíssima sobre o assunto, eu não sabia responder.

Sem contar que, para alunos da UFMG (meu caso e seu), há tantos e tantos e tantos professores substitutos recém egressos da graduação que chega a ser meio hipócrita essa exigência do mestrado e doutorado – de que adianta ter o corpo docente tão qualificado se quem de fato ministra aulas são os substitutos? (atenção: não estou criticando os professores substitutos que, acima de tudo, são heróis por assumirem inúmeras turmas e matérias com uma remuneração simbólica. Estou apenas mostrando a incoerência.)”


 

Tenerifegalo, leitor do blog:

“Acho que a parte técnica ou teórica, qual seja, mestrado, doutorado etc…para um aspirante é muito importante, mas o traquejo real com a coisa, a hora de correr atrás e fazer a coisa acontecer, tem de vir da soma de fatores como: a aptidão natural que corre na veia do sujeito, o aprendizado adquirido, e a experiencia, de preferência referenciada por uma cobra já criada, juramentada e sacramentada, que muitas vezes, não tem títulos, mas é imprescindível para fazer a coisa funcionar e ensinar os meandros de como a coisa realmente funciona.”


 

Sincero Silva, leitor do blog:

“O que está acontecendo é que as Universidades e Faculdades estão priorizando a área científica em detrimento ao magistério, os professores têm que ter mestrado, doutorado e produção intelectual… Agora, o magistério, aquele negócio de ensinar, prender a atenção dos alunos e, quem sabe, formar novos professores não é o que as universidades pretendem. Fiz dois cursos superiores e sei que os melhores professores destes cursos não tinham mestrado ou doutorado. Eram simplesmente professores por dom divino.”


Wander Veroni Maia, jornalista, blogueiro e professor:

Eu acredito que o Jornalismo, como parte da Comunicação, precisa ter em sua grade elementos teóricos e técnicos, de forma equilibrada que permita o graduando sair da faculdade sabendo a técnica, mas que também possa pensar sobre esta técnica e, quem sabe, ir para um programa de pós-graduação (especialização, mestrado, doutorado, pós-doutorado).

O que percebo hoje é que o jornalismo está mudando. Cursei a faculdade entre 2003/2007 e falo sem sombra de dúvida que aquela realidade que estudei ou vivenciei no mercado está completamente diferente da de hoje. Os veículos tradicionais estão cada vez mais enxutos, enquanto numa outra ponta, mais tímida, a Comunicação está mais empreendedora.

Aos poucos, o Jornalista está se apoderando do Jornalismo, no sentido de que ele hoje não precisa só ir para assessoria de imprensa ou redação. Existem outras possibilidades profissionais, muitas delas ligadas ao empreendedorismo e à internet. Eu, por exemplo, se não estivesse me dedicando aos estudos, adoraria ter uma bolsa da Agência Pública para trabalhar a temática do Jornalismo Investigativo. Acho isso um barato!

Vejo colegas jornalistas se unindo e criando experiências empreendedoras por meio de crowdfunding, da criação de blogs, sites, revistas, jornais de bairro, livros, livro-reportagem, cursos de curta duração, etc. Tem muita coisa que ainda não foi explorada ou que precisa ser melhor explorada!

Desde 2011, atuo como professor de curso de extensão ligado a gestão e produção de conteúdo na web. Apesar de ser pós-graduado em “Rádio e TV” e graduando em “Comunicação e Saúde”, ainda não tenho mestrado e atuo como professor. Pretendo fazer mestrado, não só pelo título, mas sobretudo pelo conhecimento adquirido.

Penso que, por mais que tenhamos a tecnologia a nossa mão, o modo de fazer do jornalismo ainda não mudou. Ainda temos que ligar para a nossa fonte, apurar, entrevistar, investigar, editar, reportar, opinar, enfim, o que muda hoje é a plataforma.

Me incomoda muito a visão dos veículos que ainda encaram a internet como rival, quando na verdade deveria ser um apoio importante para dar visibilidade ao trabalho jornalístico e, mais do que isso, que possamos cumprir com ética e discernimento a nossa função essencial que é prestar serviço à sociedade. Particularmente, fiquei com “vergonha alheia” de alguns veículos de comunicação na cobertura eleitoral. Mas, enfim…rs

Como jornalista e professor, fiquei sensibilizado com o que os alunos da PUC fizeram. E este coordenador da PUC deveria repensar isso. O que adianta um professor com Mestrado e Doutorado se ele não tem prática ou não quer dar prática aos alunos? Um professor vale muito mais pelo seu repertório do que pelos seus títulos. Nesse sentido, a PUC deu um tiro no pé. Pena que as outras universidades de BH dormiram no ponto e não contrataram esses professores… Seria uma resposta importante ao mercado e ao mundo acadêmico.

Ultimamente, estou muito pessimista com a nossa imprensa em BH. Pouquíssimos investimentos. sucateamento, salários defasados, muita agressão moral, verbal, e um foco quase que exclusivo a cobertura policial. Espero que isso mude um dia. Mas esta mudança tem que começar de nós, jornalistas, nos apropriando do Jornalismo e dizendo mais “NÃO” do que sim para o mercado.


 

E você, pensa o que da questão? Envie seu comentário e eu acrescento aqui ao post 😉

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Professor universitário precisa de mestrado?

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Em sua opinião, professor universitário precisa, necessariamente, ter mestrado ou doutorado?

Começo com a pergunta/provocação, para que reflitam sobre a resposta antes de lerem o relato a seguir.

***

Na semana passada, fiquei sabendo que dois professores da PUC Minas estavam sendo mandados embora por um motivo: não terem título de mestres. O detalhe é que conheço pelo menos um deles — o Fernando Lacerda — e sei que, nos 21 anos em que ele dá aula na PUC, formou uma legião de alunos-fãs. Além de professor, ele é o editor do jornal Marco, então ensinou muito estudante a fazer jornalismo por aí. E o mais legal é que ele nunca abandonou o exercício do jornalismo, então não se tratava de um cara que um dia teve experiência em Redação e depois, enferrujado e sem títulos acadêmicos, continuou dando aulas. Não, ele estava lá, no batente.

A PUC alega que a decisão é exigência do MEC, via Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Mas, cá pra nós, essa lei é de 1996 e nunca foi empecilho para que houvesse centenas e milhares de professores sem título nas faculdades de todo o Brasil — inclusive nas federais, como a UFMG. Ou seja, essa justificativa é balela.

O resultado é que, no momento em que escrevo, quase 700 alunos, ex-alunos e ex-colegas de trabalho de Fernando Lacerda se mobilizaram em um grupo de Facebook, onde organizaram uma homenagem e um protesto contra a saída dos dois professores. Você pode ler a reportagem que Bruna Carmona fez sobre a manifestação AQUI.

***

Meu pai foi um dos primeiros chefes de Fernando Lacerda (se não o primeiro), pela sucursal do “Jornal do Brasil” em Minas, na década de 80. E ele também escreveu um texto para homenagear o professor agora afastado (o mestre de centenas, mesmo que sem título de mestrado). Mais do que isso, o texto que meu pai escreveu ajuda nesta reflexão sobre a obrigatoriedade do título para professores de jornalismo — profissão, aliás, em que não se obriga nem o diploma de graduação para seu exercício (outra discussão, que deixo para outro dia). Fecho o post com ele:

“Num bate-papo promovido pelo UOL em 7 de julho de 1997, Alberto Dines, um dos mais respeitados jornalistas brasileiros, foi perguntado sobre sua formação autodidata. É sabido que ele jamais concluiu um curso universitário. Dines respondeu: “Para mim, isto é um fato irrelevante. Eu preferia ostentar um belíssimo currículo acadêmico. Não deu, porque foi uma opção política, tomada quando eu tinha apenas 18 anos. Em compensação, tenho uma biografia”.

E que biografia! Dines foi editor-chefe do Jornal do Brasil, de 1962 a dezembro de 1973. Nesse meio tempo, transformou o JB numa espécie de escola de jornalismo. Depois de assumir o cargo, fez um curso rápido na Columbia University, juntamente com editores convidados de jornais importantes de outros países, e na sua volta o JB passou a editar, a partir de 1965, os Cadernos de Jornalismo.

Eu os lia quando fazia (entre 1968 e 1972) o curso na UFMG, onde nenhum de meus professores tinha mestrado ou doutorado. Posso dizer que Dines foi o meu melhor professor, mesmo que eu tenha entrado no JB apenas um ano e meio antes de ele sair. Pois o jornal deixado por Dines continuava sendo uma excelente escola de jornalismo. E a competência dele na área foi reconhecida pela Universidade de Columbia, que o contratou, sem querer saber se ele tinha curso de mestrado ou doutorado, depois que foi demitido do JB. No início de 1975, Dines terminou o contrato com a universidade e foi convidado por Cláudio Abramo para ajudá-lo a transformar a Folha de S. Paulo num jornal de peso, chefiando a sucursal do Rio de Janeiro.

Logo após se formar na PUC Minas, Fernando Lacerda foi admitido, em outubro de 1983, como repórter da sucursal do JB em Minas – onde eu era chefe da Redação –, para cobrir esporte. Ele cobria também outras áreas, com a mesma competência. E o fez por 10 anos, até a sucursal ser fechada. (Eu já havia saído quatro anos antes.)

Não sei quando Fernando Lacerda começou a dar aulas na PUC Minas, mas sei que não lhe exigiram mestrado. Sua grande experiência como jornalista era considerada, com razão, suficiente para ensinar futuros profissionais, fato não desmentido pelo tempo. Se a decisão de demiti-lo por não ter mestrado ou doutorado for mantida, quem mais vai perder é a universidade – e os alunos do Curso de Jornalismo. Disso não tenho qualquer dúvida. Talvez ele não tenha o mesmo currículo de Dines, mas tem de sobra o que poucos mestres e doutores de cursos de jornalismo têm: experiência.”

Agora volto a perguntar: qual é a sua opinião sobre o dilema que propus no início do post? Amanhã vou escrever minha opinião 😉

Leia também:

Os estupros coletivos de jovens meninas ocorrem debaixo do nosso nariz

Vídeo feito por atores indianos ironizando os estupros corriqueiros sofridos por jovens indianas. Reprodução/Youtube.

Vídeo feito por atores indianos ironizando os estupros corriqueiros sofridos por jovens indianas. Reprodução/Youtube.

A cena é a seguinte: uma festa de jovens universitários, todos com 17 a 20 e poucos anos, querendo curtir a vida adoidado, como no filme do Matthew Broderick. Começa a chapação: vodca com suco, cerveja, uísque com energético. Mas os homens bebem em garrafas diferentes das mulheres. Na delas, um pó branco se mistura à bebida, disfarçadamente. Ao beber o batidão “bolado”, elas apagam. São levadas para um quartinho, onde são estupradas, às vezes por vários homens, que se revezam. Estupro coletivo. Muitas, jovens demais, acordam no meio do estupro, morrendo de dor, sangrando. Violentadas em sua primeira vez. O crime é acobertado pela vergonha das vítimas e pela visão dos homens envolvidos, os abusadores, de que tudo aquilo é normal.

A cena descrita acima não aconteceu na Índia, desta vez. Acontece rotineiramente em uma das cidades mais importantes de Minas, e patrimônio cultural da humanidade: Ouro Preto. Mais precisamente, nas repúblicas universitárias que existem aos montes na primeira capital mineira.

A denúncia foi manchete do jornal “O Tempo” desta segunda-feira. Recomendo a leitura a todos que se interessam pelos temas em que a reportagem resvala, como direitos das mulheres e machismo. Que deveriam ser caros a todos nós — mulheres, homens, universitários, ex-universitários, atuais ou futuros pais e mães de meninas e meninos vulneráveis etc.

CLIQUE AQUI para ler e ajude a compartilhar.

Leia também:

O fim do vestibular (e dos trotes)

Vestibular é um sistema de avaliação massacrante e restritivo, que é criticado desde que me entendo por gente. Um sistema que valoriza a decoreba e que filtra os alunos que estudaram em escolas caríssimas — e um ou outro gênio ou iluminado de escolas públicas. E desde sempre havia um esforço para se buscar uma alternativa a ele.

O embrião dessa alternativa nasceu durante o governo Fernando Henrique, primeiro com o objetivo de avaliar o ensino médio das escolas para ajudar o Ministério da Educação a fazer políticas públicas. Era, na época, basicamente, um indicador. No governo Lula, com a criação do Sisu, o Enem passou a funcionar como porta de entrada unificada para várias faculdades. E agora, na gestão Dilma, ele se ampliou, corrigiu falhas, mais que triplicou o número de inscritos em relação ao primeiro ano de Lula no poder e passa agora a ser adotado como única forma de seleção para uma das melhores universidades do país, que é minha querida UFMG.

Infelizmente, os veículos de comunicação paulistas só vão dar importância a esse fato quando a USP e a Unicamp resolverem também adotar o Enem — que hoje é uma prova muito mais analítica e de interpretação de textos e dados do que voltada para a decoreba. Mas quem tem um mínimo interesse em Educação sabe que a decisão tomada pela UFMG — e logo seguida por outras duas federais do Estado, no Triângulo Mineiro e em São João Del Rey — é histórica e de interesse direto para todos os vestibulandos e futuros-vestibulandos (essa palavrinha terá que ser trocada, né?) do país inteiro, que agora têm condições muito mais democráticas e justas de acessar o ensino superior (claro que serão ainda mais democráticas quando todas as universidades tiverem adotado o sistema, mas estamos chegando lá).

***

Infelizmente, também, a mesma UFMG vem sendo palco de trotes com cunho racista e nazista, que nunca tinham sido vistos lá. Trote, aliás, que é uma prática medieval, passando da hora de ser abolida. (Já participei de uma campanha no blog “Novo em Folha”, cujo “garoto-propaganda” foi o Márcio Marques da Silva, uma vítima do trote, contra a prática. É possível ler todos os posts a respeito AQUI).

Hoje saíram dois bons textos sobre os dois assuntos que rondaram a UFMG nesta semana, em dois jornais mineiros.

Sobre o trote, escreveu o Murilo Rocha, do “O Tempo”, um texto que pode ser lido AQUI. Trechinho: “Mesmo quando não há conotações preconceituosa ou agressiva, obrigar alguém a se submeter a uma situação constrangedora apenas por sadismo está errado.”

E sobre o fim do vestibular, meu pai escreveu um ótimo editorial no “Hoje em Dia”, que pode ser lido AQUI. Mas, como está excelente, também vou reproduzir neste post, para comemorar o 100º artigo do meu pai neste blog (no blog anterior, como contei anteontem, já havia outras centenas de artigos dele):

 

“Má tradição
A Universidade Federal de Minas Gerais deu um passo importante, na última terça-feira (19), para se tornar uma instituição mais democrática. O Conselho Universitário decidiu, por 40 votos a favor, dois contra e duas abstenções, acabar com o vestibular para a seleção de seus alunos. Termina assim, finalmente, uma tradição infeliz imposta em 1970 pelo governo militar, de forma autoritária.
A indústria do vestibular que se montou desde então e que só beneficiava a camada mais rica da população começou a ser desmontada, democraticamente, com a criação do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) pelo Ministério da Educação, com base nas notas do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem). Este, por sua vez, surgiu em 1998, no governo Fernando Henrique Cardoso, e foi sendo ampliado e aperfeiçoado, desde então. É um processo lento de aprendizado. A cada ano, apontam-se falhas no Enem, que são corrigidas, sempre que possível.
A adesão ao novo sistema de seleção de alunos é voluntária. Cada instituição pública de ensino superior decide, por meio de seu Conselho Universitário, a adesão total ou parcial ao Sisu. No último vestibular, a UFMG já havia aderido parcialmente. A partir de agora, a adesão é total. A universidade aplicará testes de seleção numa segunda etapa do processo, apenas para preencher vagas em cursos que exigem habilidades específicas, como música, teatro e dança.
Uma das vantagens de um sistema de seleção inteiramente aprovado em países adiantados é que o estudante não precisa se deslocar para outros municípios ou estados para fazer exames em diversas universidades, em busca de uma vaga. “É mais democrático”, resumiu o reitor da UFMG, Clélio Campolina.
Antes da UFMG, outras universidades federais, como as do Rio de Janeiro e do Ceará, tinham decidido acabar com o vestibular. Cláudio Moura Castro, um conhecido especialista em educação, acredita que a adesão da UFMG, uma universidade “bastante séria e conservadora”, abre caminho para que outras instituições adotem o sistema.
Esse avanço ocorre exatamente quando a maior universidade mineira se vê constrangida pelo comportamento atrasado de alguns alunos do curso de Direito que insistiram, apesar da proibição da UFMG, em dar trotes nos calouros aprovados no último vestibular. Pior, trotes considerados racistas ou nazistas, devidamente condenados pela reitoria e pelas entidades estudantis. É uma tradição fadada à extinção, tal como o vestibular.”

Algumas charges que encontrei na internet sobre os trotes:

Charge do Jean, brilhante.

Charge do Jean, brilhante.

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