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O fim do vestibular (e dos trotes)

Vestibular é um sistema de avaliação massacrante e restritivo, que é criticado desde que me entendo por gente. Um sistema que valoriza a decoreba e que filtra os alunos que estudaram em escolas caríssimas — e um ou outro gênio ou iluminado de escolas públicas. E desde sempre havia um esforço para se buscar uma alternativa a ele.

O embrião dessa alternativa nasceu durante o governo Fernando Henrique, primeiro com o objetivo de avaliar o ensino médio das escolas para ajudar o Ministério da Educação a fazer políticas públicas. Era, na época, basicamente, um indicador. No governo Lula, com a criação do Sisu, o Enem passou a funcionar como porta de entrada unificada para várias faculdades. E agora, na gestão Dilma, ele se ampliou, corrigiu falhas, mais que triplicou o número de inscritos em relação ao primeiro ano de Lula no poder e passa agora a ser adotado como única forma de seleção para uma das melhores universidades do país, que é minha querida UFMG.

Infelizmente, os veículos de comunicação paulistas só vão dar importância a esse fato quando a USP e a Unicamp resolverem também adotar o Enem — que hoje é uma prova muito mais analítica e de interpretação de textos e dados do que voltada para a decoreba. Mas quem tem um mínimo interesse em Educação sabe que a decisão tomada pela UFMG — e logo seguida por outras duas federais do Estado, no Triângulo Mineiro e em São João Del Rey — é histórica e de interesse direto para todos os vestibulandos e futuros-vestibulandos (essa palavrinha terá que ser trocada, né?) do país inteiro, que agora têm condições muito mais democráticas e justas de acessar o ensino superior (claro que serão ainda mais democráticas quando todas as universidades tiverem adotado o sistema, mas estamos chegando lá).

***

Infelizmente, também, a mesma UFMG vem sendo palco de trotes com cunho racista e nazista, que nunca tinham sido vistos lá. Trote, aliás, que é uma prática medieval, passando da hora de ser abolida. (Já participei de uma campanha no blog “Novo em Folha”, cujo “garoto-propaganda” foi o Márcio Marques da Silva, uma vítima do trote, contra a prática. É possível ler todos os posts a respeito AQUI).

Hoje saíram dois bons textos sobre os dois assuntos que rondaram a UFMG nesta semana, em dois jornais mineiros.

Sobre o trote, escreveu o Murilo Rocha, do “O Tempo”, um texto que pode ser lido AQUI. Trechinho: “Mesmo quando não há conotações preconceituosa ou agressiva, obrigar alguém a se submeter a uma situação constrangedora apenas por sadismo está errado.”

E sobre o fim do vestibular, meu pai escreveu um ótimo editorial no “Hoje em Dia”, que pode ser lido AQUI. Mas, como está excelente, também vou reproduzir neste post, para comemorar o 100º artigo do meu pai neste blog (no blog anterior, como contei anteontem, já havia outras centenas de artigos dele):

 

“Má tradição
A Universidade Federal de Minas Gerais deu um passo importante, na última terça-feira (19), para se tornar uma instituição mais democrática. O Conselho Universitário decidiu, por 40 votos a favor, dois contra e duas abstenções, acabar com o vestibular para a seleção de seus alunos. Termina assim, finalmente, uma tradição infeliz imposta em 1970 pelo governo militar, de forma autoritária.
A indústria do vestibular que se montou desde então e que só beneficiava a camada mais rica da população começou a ser desmontada, democraticamente, com a criação do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) pelo Ministério da Educação, com base nas notas do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem). Este, por sua vez, surgiu em 1998, no governo Fernando Henrique Cardoso, e foi sendo ampliado e aperfeiçoado, desde então. É um processo lento de aprendizado. A cada ano, apontam-se falhas no Enem, que são corrigidas, sempre que possível.
A adesão ao novo sistema de seleção de alunos é voluntária. Cada instituição pública de ensino superior decide, por meio de seu Conselho Universitário, a adesão total ou parcial ao Sisu. No último vestibular, a UFMG já havia aderido parcialmente. A partir de agora, a adesão é total. A universidade aplicará testes de seleção numa segunda etapa do processo, apenas para preencher vagas em cursos que exigem habilidades específicas, como música, teatro e dança.
Uma das vantagens de um sistema de seleção inteiramente aprovado em países adiantados é que o estudante não precisa se deslocar para outros municípios ou estados para fazer exames em diversas universidades, em busca de uma vaga. “É mais democrático”, resumiu o reitor da UFMG, Clélio Campolina.
Antes da UFMG, outras universidades federais, como as do Rio de Janeiro e do Ceará, tinham decidido acabar com o vestibular. Cláudio Moura Castro, um conhecido especialista em educação, acredita que a adesão da UFMG, uma universidade “bastante séria e conservadora”, abre caminho para que outras instituições adotem o sistema.
Esse avanço ocorre exatamente quando a maior universidade mineira se vê constrangida pelo comportamento atrasado de alguns alunos do curso de Direito que insistiram, apesar da proibição da UFMG, em dar trotes nos calouros aprovados no último vestibular. Pior, trotes considerados racistas ou nazistas, devidamente condenados pela reitoria e pelas entidades estudantis. É uma tradição fadada à extinção, tal como o vestibular.”

Algumas charges que encontrei na internet sobre os trotes:

Charge do Jean, brilhante.
Charge do Jean, brilhante.

trote1trotes3trotes4TROTES2

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

3 comentários em “O fim do vestibular (e dos trotes) Deixe um comentário

  1. Ei, Cris!
    Hoje vou discordar de você.
    Não é o fim do vestibular. O sistema de avaliação continua sendo o mesmo. A prova do ENEM consegue ser mais cansativa e cheia de detalhes que a de qualquer vestibular do país. A prova da UFMG era muito mais leve e bem elaborada (e valoriza mais a interpretação e o raciocínio) que a prova do ENEM.
    A evolução apresentada não está na forma de avaliar. Continua sendo um vestibular. Vai continuar beneficiando quem estudou em bons colégios.
    Mas ontem, juntamente com o anúncio de que a UFMG usaria o SISU, veio a notícia de que haveria o aumento de vagas para cotistas. Esse, sim, um grande avanço.
    O único avanço de verdade apresentado pelo ENEM é o SISU. Que não está relacionado à forma de avaliação. O SISU traz uma certa democracia para o acesso às vagas de universidades pública, além de outras facilidades já citadas.
    Enfim, o fim do vestibular ainda está muito longe, infelizmente.
    As provas continuarão sendo a forma de avaliação enquanto não inventarem nenhuma forma melhor de avaliar objetivamente o potencial dos alunos (sim, o potencial dos alunos é que deveria ser medido na entrada de uma universidade, e não aquilo que ele conseguiu aprender até lá).

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    • Você tem razão. O maior avanço é o Sisu e a UFMG ter optado por adotá-lo integralmente como forma de avaliação.
      A questão dos cotistas eu não tinha visto, boa notícia mesmo!
      Fique à vontade para discordar por aqui mais vezes 🙂

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  2. Sobre os trotes eu simplesmente acho que não dá para generalizar. Sempre participei de trotes e todos foram bem tranquilos. Só participava quem queria. Era uma forma de confraternização e servia para apresentar os novos alunos aos outros alunos do curso.
    E imagino que a maioria dos trotes Brasil afora sejam assim. Não são todos que possuem esse grande desvio como o visto esse ano na faculdade de direito da UFMG.
    A própria UFMG, aliás, possui trote “do bem”, com programas sociais e coisas do tipo.
    O importante é saber fazer as coisas…

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