Sim, existe machismo — detecte-o e combata-o neste “Dia das Mulheres” e nos demais

Charge encontrada neste site: http://sinlasmujeresnohayeconomia.blogspot.com.br/2012/03/carlos-arroyo-el-machismo-de-todos.html , que lista 57 outras formas de machismo modernas.

Charge encontrada neste site: http://sinlasmujeresnohayeconomia.blogspot.com.br/2012/03/carlos-arroyo-el-machismo-de-todos.html , que lista 57 outras formas de machismo modernas.

Dia das mulheres. Momento em que os noticiários relembram grandes personagens e grandes conquistas que o ex-sexo-frágil já obteve, a duras penas.

Eu aproveito mais esta efeméride para relembrar os pequenos e grandes machismos que ainda sobrevivem, e infelizmente acho que sobreviverão por muito tempo, não importa quantas lutas e quantas lutadoras passem por este mundo.

Muitos deles são culturais, são tipicamente brasileiros, ligados a pensamentos mais antigos que se perpetuaram por várias gerações, ou tipicamente ligados a heranças de um mundo que era mais religioso que laico. Às vezes se limitam a palavras, mas se tornam mais graves quando alcançam a agressão física que levou à necessidade de se criar uma Maria da Penha no Brasil. Não raro, partem das próprias mulheres, que os reproduzem na criação dos filhos e dos netos e no trato com os namorados e maridos.

O importante é que, independente de quantas Dilmas Rousseff, Hillarys Clinton, Agathas Christie, Liz Taylor, Meryl Streep, Simones de Beauvoir, Cocos Chanel, Janis Joplin, Angelas Merkel, Cristinas Kirtchner, Indras Nooyi, Sonias Gandhi, Michelles Obama, Christines Lagarde, Amys Winehouse, Martas, Marias Esther Bueno, Elis Reginas, Madonnas, Clarices Lispector, Pattis Smith, Cecílias Meireles, Adélias Prado, Tarsilas do Amaral, Tomies Otake, Oprahs, Marinas Silva, J.K. Rowlings, Ritas Lee, e tantas outras tenham passado por este mundo, deixando suas maravilhosas contribuições e marcas, mostrando do que as mulheres são capazes, ainda somos obrigadas, em pleno 2013, a ouvir as seguintes pérolas:

  • “Se isso é feio para um homem, imagina para uma mulher.”
  • “Homem que é homem tem que pegar todas!”
  • “Mulher que fica com mais de um na mesma noite é vagabunda.”
  • “Meu marido me “ajuda” nas tarefas de casa, olha que maravilha!”
  • “Mulher não sabe dirigir.”
  • “Mulher não pode morar sozinha.”
  • “Com mulher é diferente. Homem pode fazer isso, mas mulher não.”
  • “Pega mal.”
  • “A mulher que pediu pra ser estuprada, olha como se vestia!”
  • “Mulher não entende nada de futebol.”
  • “Que estranho, uma taxista mulher!”
  • “Você não sabe se defender sozinha.”
  • “Mulher bêbada é ridículo [como se homem bêbado fosse lindo].”
  • “Aquela ali não casou.”
  • “Você não está se valorizando.”
  • “Isso não é coisa de mulher.”
  • “Isso não é coisa de homem.”

E por aí vai.

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Pedi às minhas amigas e aos meus amigos para darem exemplos de situações machistas, que tenham visto ou vivenciado. Surgiram vários depoimentos. Como este, de uma amiga:

“Eu tenho um amigo que há anos que me defende de outros homens, geralmente bêbados. Ele considera que me atrapalham — o que é certo — mas também que eu não me sei defender sozinha. Aí ele acostuma a entrar como um galo e sempre acaba em briga, com o cara e comigo. Ele chama isso de paternalismo, eu de machismo.”

Outra observação de uma amiga:

“Salto alto. Acho um machismo velado e socialmente aceito. Tem mulher que reclama do sutiã, mas, para algumas, o sutiã é um mal necessário. O salto não. Ferra teus joelhos e tua coluna. Só existe para empinar a bunda. E não adianta dizer que você pode optar por não usar salto. Tem ocasiões, como casamentos e outras festas que exigem traje social, em que o salto é uma imposição.”

Boas lembranças de uma terceira:

“Homem ser promovido no trabalho é normal, mulher ser promovida é porque tá tendo caso com alguém. Homem bravo é normal, mulher brava é ‘falta de sexo’.”

E o depoimento de um amigo:

“Um homem que vai em uma festa e ‘fica’ com, sei lá, 4, 5 mulheres é considerado ‘macho’, ‘garanhão’, e é todo ‘orgulho’; uma mulher que faz isso, vixe, pense aí nos adjetivos que ela recebe…”

Outro amigo:

“O machismo besta que me incomoda é que marketing pra homem se resume a carro-futebol-mulher-cerveja-cor preta. Nunca teve um barbeador do rock and roll. O machismo sério que me incomoda é quando alguém fala em feminismo e vem neguinho com mimimi falando que é frescura ou que ele tá só brincando.”

Sim, meus melhores amigos homens também se indignam com o machismo. Inclusive porque tanto homens quanto mulheres sofrem com o machismo persistente da nossa vida contemporânea. Vejam o que diz outra amiga a respeito:

“Eu trabalhei com dependentes químicos que o primeiro contato na vida com droga que eles tiveram foi com o álcool, antes dos 10 anos, fornecido pelo pai, pra mostrar a ‘macheza’ do filho. É uma forma de agressão ao filho.”

Meu depoimento:

“Por morar sozinha, já cheguei a enfrentar resistências – preconceitos até – por isso; do olho torto do zelador ou porteiro do prédio a questionamentos de pessoas da família, superesclarecidas e inteligentes. Perdi as contas de quantas vezes ouvi a expressão “com homem é diferente”, até dentro de casa.”

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O resultado disso tudo é que todos sofrem, homens e mulheres, especialmente os da minha geração e os mais jovens que eu. Como conclui um amigo meu:

“Os homens não reconhecem que querem desesperadamente uma mulher para amar, e as mulheres vivem o dilema entre explorar o prazer de suas ‘vergonhas’ ou serem respeitadas pela opinião pública formada pela cultura machista.”

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Contei com vários depoimentos de amigos* para montar este post em homenagem às maravilhosas mulheres deste mundo, que trabalham horrores (pra ganhar salários estatisticamente muito piores que os de homens no mesmo cargo e função), cuidam da família e da casa (muitas vezes sem a devida ajuda dos companheiros), cuidam dos amores, da saúde, do corpo, e ainda arranjam tempo pra postar, criar e disseminar suas ideias para o mundo. Sempre dirigindo pra lá e pra cá, coordenando o orçamento familiar, tentando arranjar uma pausa pro chopp, ou cinema ou futebol, e antenadíssimas com as novas tecnologias.

Parabéns especial às que conseguem lidar com tudo isso e ainda encontram disposição para bater de frente contra esses velhos clichês machistas que as obrigam a andar de salto e maquiagem e as humilham dia após dia. Orgulhosamente me declaro uma dessas “brigadoras” e espero poder repassar aos meus futuros filhos esses valores, que me são muito importantes.

Que todas, um dia, tenham coragem para fugir deste estereótipo (que ainda existe, claro, já que muitas mulheres também são machistas) da mulher-chuteira:

Por fim, recomendo ESTE “curso rápido de feminismo para homens” (que também serve para algumas mulheres), que meu amigo Bill me enviou.

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 Lembrou de alguma outra forma de machismo? Passou por alguma recentemente? Escreva aí nos comentários, caros amigos homens e mulheres não-machistas 😀

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* Agradeço pelas contribuições de: Thalita Chargel, Jaime Guimarães,  Marcelo Soares, Sílvia Amélia de Araújo, María Martín, Gisele Lobato, Carol Araújo, Urian Vieira, Danilo, Leonardo Kenji e Gabriel Sampaio.

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