O dia em que paguei R$ 2 pela fé no ser humano

UMA-NOTA-DE-R-2-00

Com sede, num calor de 37 graus informados pelo termômetro de rua, retirei meus últimos R$ 2 da carteira e os coloquei naquele espaço do carro, entre os dois bancos da frente, de onde poderia retirar rapidamente para estender ao primeiro vendedor ambulante de garrafinhas d’água que me aparecesse no semáforo.

Sem sorte, não vi nenhum, ao contrário de todos os dias menos quentes anteriores. Ou, melhor: até vi um ou outro, mas os sinais estavam verdes e aquela avenida não é do tipo em que se pode encostar na faixa da esquerda sem esperar por uma batida brutal e cinco carros encavalados atrás.

O fato é que a sede era tanta que minha única urgência urgentíssima era chegar o quanto antes ao trabalho, com seu maravilhoso bebedouro do corredor.

Já com a sorte mudada, minutos depois, encontrei uma vaga para parar o carro logo de cara. Agarrei a bolsa pela alça e saí correndo do carro, língua passando pelos lábios secos, cumprindo os 500 metros até o bebedouro o mais rápido que pude.

Quando já estava, outros minutos depois, devidamente instalada na cadeira, sob fortíssimo ar condicionado, tive o estalo: os R$ 2!

Eles ficaram lá, parados conformadamente sob o painel do carro, à vista de quem passasse e olhasse para dentro.

Imediatamente aquela falta de fé na espécie humana me invadiu. A mesma que me fez um dia pensar que as crateras nas ruas próximas ao meu trabalho, na cidade de Contagem (MG), jamais seriam tapadas – a ponto de, quando finalmente foram, dois meses depois que comecei a frequentar aquelas paragens, eu ter me surpreendido tanto que perdi o rumo, literalmente, e fui parar dentro de uma favelinha algumas ruas depois daquela em que eu deveria ter entrado.

A falta de fé me fez pensar: um desses desocupados que perambulam pedindo pra “olhar o carro” vai acabar descobrindo a nota de R$ 2 ali e, sem nada que o impeça, vai quebrar o vidro do carro para pegá-la. E quanto é um vidro do carro? E o carro nem é meu! A esta altura, um pessimismo atípico já tinha me feito formular duas dezenas de perguntas do gênero.

Assim, me vi obrigada a voltar os 500 metros, até a vaga privilegiada, com figa nas duas mãos, tentando relembrar esquecidas orações, pedindo ao “Lord” para que o carro estivesse intacto (“Oh, Lord, won’t you buy me a Mercedes-Benz?”).

Lá chegando, ao constatar a nota de dois bonitinha, no mesmo lugar, e até uma sombra cobrindo o carro, que não havia antes, me senti culpada. Afinal, já estava rezando por causa do vidro de um carro, olhos prevendo as lágrimas a cair e a cara com que eu ficaria ao relatar ao dono do carro a bobagem que havia causado o estrago. Oras, é só um vidro!

Ao mesmo tempo, recuperei a fé no ser humano. Quantos não teriam passado por ali, visto a cédula azulada, e pensado: “Bem que seria fácil quebrar esse vidro, mas a pobre-diabo que largou essa nota aí vai ter tanto prejuízo, coitada. Se ainda fosse de R$ 10…”. Olhei com carinho para os transeuntes ao redor. Boas pessoas. Bom asfalto. Boa favelinha. Bom político que pagou o recapeamento provisório. Boa Janis Joplin. E bendito aquele que grafou “Deus seja louvado” nas cédulas do real.

A fé no ser humano nem custa tanto assim, se fizermos bem as contas.

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