UFMG não é espaço de balbúrdia, é espaço do saber; balbúrdia é este governo federal!

O brasileiro parece ter, de repente, resolvido abrir mão da aposentadoria e da educação. Como chegamos a este ponto? Charge do Duke, no jornal “O Tempo” de 07.5.2019

 

Hoje a Polícia Civil prendeu cinco pessoas que faziam tráfico de drogas dentro da UFMG. Nenhum deles era estudante na instituição. Daí ouço um sujeito comentar, usando o termo que ficou famoso por ser a justificativa para cortes escandalosos na educação brasileira: “Depois vão me dizer que não há balbúrdia nas universidades? Quem consumia essas drogas que eram vendidas lá dentro?”

Usar um argumento desses para desqualificar todo o trabalho feito dentro de uma instituição do porte da UFMG é de uma desfaçatez tão grande, de uma canalhice tão grande, tão manipuladora e maniqueísta, que não sobrou nem um fio de cabelo meu que não tivesse ficado indignado ao ouvir isso.

Sim, entre os quase 50 mil estudantes da UFMG, além dos 3.000 professores e mais de 4.000 servidores técnicos e administrativos, certamente há usuários de drogas. Assim como existem em toda a sociedade, dentro e fora das universidades. Isso não significa que todos os estudantes, docentes e pesquisadores que frequentam o campus façam uso das drogas – até porque, se fosse o caso, não haveria apenas cinco traficantes (lembrando: nenhum deles é aluno da UFMG), com 144 buchas de maconha, para dar conta desse batalhão de drogados.

A UFMG não é feita de balbúrdia. É feita de 4 campi universitários, 77 cursos de graduação, 77 de mestrado e 63 de doutorado, de 755 grupos de pesquisa, 600 laboratórios, 425 convênios com instituições do exterior, 4.300 artigos publicados em periódicos científicos em um ano. É feita de um Hospital das Clínicas que tem 91 anos de idade, é referência em Minas no atendimento de média e alta complexidade, tem 238 setores hospitalares e atende de forma 100% gratuita, pelo SUS. É feita de vários outros serviços gratuitos de saúde que são ofertados à comunidade, como atendimento odontológico e psicológico. É feita de 27 bibliotecas, com um acervo que gira em torno de 1 milhão de exemplares, além de 40 mil itens de materiais especiais. É feita de uma rede de museus e espaços culturais, que incluem o Espaço do Conhecimento, na Praça da Liberdade, o Museu de História Natural Jardim Botânico, a Estação Ecológica da UFMG, o Museu de Ciências Morfológicas, o Observatório Astronômico Frei Rosário, na Serra da Piedade, e muito, muito mais.

A UFMG é, enfim, um espaço de saber. Uma casa do conhecimento. Um ambiente de frescor de ideias, de debate, de aprendizado, de cultura. Que bom seria se mais e mais mineiros e brasileiros tivessem o privilégio de estudar lá, para falarem menos besteiras, como fala esse sujeito que provocou minha ira hoje – e como fala, de resto, Jair Bolsonaro (que, aliás, NUNCA pisou em uma universidade federal na vida) e seus seguidores mais ignorantes e fanáticos. Porque a UFMG, assim como outras universidades federais, é, sim, um espaço ainda elitista, embora as cotas tenham ajudado bastante melhorar a inclusão. A oferta de vagas para cotistas vem num crescendo desde que esta política foi criada em 2012, mas está diminuindo desde que Temer assumiu o poder – e, com essa visão de ódio à educação do governo Bolsonaro, é possível que logo acabe de vez.

Charge do Duke, no jornal “O Tempo” de 18.5.2019

Assim como deverão despencar aqueles números impressionantes da UFMG, que eu trouxe alguns parágrafos acima e dizem respeito aos anos de 2013 e 2014. Se, com os cortes de 30% anunciados pelo MEC de Bolsonaro, a UFMG não será capaz nem de honrar gastos básicos como os pagamentos de água e luz, como poderá pagar por suas pesquisas? Como a pesquisa que detecta dengue em 20 minutos, desenvolvida por pesquisadores da UFMG. Ou o estudo revolucionário para tratamento de câncer, desenvolvido por pesquisadores da UFMG. Ou o estudo para desenvolver medicamentos para zika e doença de Chagas, tocado por uma professora da UFMG premiada pela Unesco. Ou a vacina anticocaína, testada na UFMG. Ou o programa capaz de rastrear pornografia infantil, desenvolvido pela UFMG e oferecido às polícias Federal e Civil para ajudar em investigações criminais. Basta dar um Google com as palavras “UFMG” e “pesquisa” e você encontrará inúmeros exemplos de trabalhos sérios e incríveis feitos por pesquisadores de todas as faculdades dentro desta maravilhosa universidade.

Ah, sim: um grupo de pesquisadores da UFMG também estudou o impacto das fake news nestas eleições

Charge do Duke, no jornal “O Tempo” de 08.5.2019

Claro, a UFMG tem defeitos. Tem precariedades, como, de resto, tudo o que é público no Brasil. Pode ser melhorada e seu modelo de gestão pode e deve ser discutido. Mas não venham me dizer que lá é só um antro de “balbúrdia”. Balbúrdia é esse governo incapaz de manter um mesmo ministro da Educação por mais de um mês no cargo. Balbúrdia é esse governo, incapaz de conter rachas internos entre milicos e olavistas, milicianos e congressistas, com direito a debandada até de pessoas do mesmo partido do presidente, o PSL.

Eu tenho orgulho de dizer que estudei na UFMG (assim como meu pai e minha mãe e dois dos meus irmãos). E foi lá minha primeira experiência profissional, como estagiária da Rádio UFMG Educativa, que faço questão de listar no currículo. Foi lá que cobri minha primeira eleição presidencial. Foi lá que expandi minha cabeça, conheci todo tipo de gente, ainda que não pudesse estar 100% focada na universidade, porque comecei a trabalhar aos 19 anos. No meu curso de Comunicação Social, aprendi sobre todo tipo de narrativas jornalísticas e teorias da comunicação, mas, estando numa universidade como a que eu estava, pude também ter aulas diversas, como de cinema, de economia, de estatística e até de pré-história! Aproveitei o fato de a grade curricular do meu curso ser aberta para sugar ao máximo as possibilidades daquele campus imenso e tão rico. Nada melhor para uma jornalista do que poder usufruir de conhecimento tão diversificado.

Porque técnica é só técnica, a gente aprende em uma semana na Redação. Já o saber, é algo mais. É o que fica na nossa alma para sempre. É o que nos previne de cair em paspalhices como as lorotas que este Jair Bolsonaro conta. É o que nos dá estofo para seguir firme, forte e desafiadora, nesta vida maluca, nesta sociedade sem pé nem cabeça.

Charge do Duke, no jornal “O Tempo” de 21.5.2019

 

P.S. Recentemente, um leitor do jornal popular “Super Notícia” publicou uma carta lá dizendo que a Faculdade de Direito da UFMG era toda pichada, só tinha bagunça, drogas, essas coisas que os papagaios ficam repetindo sem saber. Os diretores da faculdade responderam à carta, no mesmo espaço, na maior educação, convidando o leitor a conhecer a instituição. Ele foi. Escreveu uma segunda carta para pedir desculpas pela primeira e dizer que ficou impressionado com os trabalhos e pesquisas desenvolvidos pela Faculdade de Direito, que teve os prédios pintados recentemente e sem qualquer pichação ou qualquer tipo de bagunça. Ou seja, as pessoas não estão perdidas: ofereça a mão a elas e muitas saberão reconhecer os erros com humildade e parar de repetir as fake news dessa turma que idolatra a ignorância e que ocupou o poder no Brasil. Não desistamos dos brasileiros.

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10 pontos positivos das universidades públicas brasileiras

Reitoria da UFMG. Fotos: Wikimedia

O texto abaixo foi escrito por Douglas Garcia, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e colaborador frequente deste blog. Ele tem graduação na USP, mestrado e doutorado na UFMG e pós-doutorado na UERJ.

“Em três Estados diferentes, sou testemunha da seriedade e do tamanho do trabalho das universidades públicas neste país”, afirma o professor. Confira seu texto sobre o assunto do dia – quiçá do ano, ou da década, dependendo do estrago irreversível que este governo Bolsonaro causar sobre a educação no Brasil:

 

Se você tem um filho ou uma filha, provavelmente deseja que, quando crescer, ele ou ela estude em uma universidade pública. Se você mora em Minas Gerais, desejará que faça UFMG, UFOP, ou alguma das outras universidades públicas do Estado. Se mora em São Paulo, vai querer que faça USP, UNICAMP, ou outra das universidades públicas do Estado. O mesmo em todos os outros Estados brasileiros. Está na hora de chamar a atenção para as (muitas) coisas que fazem da universidade pública brasileira um bem público, um patrimônio de todos os brasileiros – e das gerações futuras, também. Aqui vão 10 pontos para a gente se lembrar disso:

#1. Melhor ensino

As universidades públicas brasileiras são, de fato, as melhores no ensino, segundo todos os rankings, como o da Folha de S.Paulo, do Guia do Estudante Editora Abril e do MEC.

#2. Pesquisa científica

As universidades públicas, de fato, fazem a grande maioria da pesquisa científica do país, segundo todos os rankings oficiais.

Biblioteca central da UFMG.

#3. Apoio na produção agropecuária

As universidades públicas, através de suas pós-graduações, vêm há décadas fornecendo apoio decisivo ao aumento de produtividade agrícola brasileira, por meio do excelente trabalho feito pela Universidade Federal de Lavras, pela ESALQ /USP, entre muitas outras.

#4. Pesquisa na saúde

As universidades públicas fazem pesquisa de ponta em áreas decisivas para a saúde da população brasileira, como medicina, farmácia e biotecnologia, com resultados em produtos, e custos muito mais baixos do que os envolvidos em importação de produtos finais similares.

#5. Preservação ambiental do país

As universidades públicas fazem pesquisas que ampliam o conhecimento da fauna e da flora brasileiras, contribuindo decisivamente para a sua preservação, não só através dessas pesquisas, mas também de ações diretas de preservação ambiental.

Portaria da Estação Ecológica da UFMG.

#6. História e cultura brasileiras

As universidades públicas fazem pesquisas que ampliam o conhecimento do passado do Brasil, permitindo entender melhor a forma atual da cultura brasileira, e, assim, uma valorização maior desse legado.

#7. Políticas públicas e desenvolvimento econômico

As universidades públicas fazem pesquisas que mapeiam as carências e as potencialidades das diversas regiões do país, permitindo formular políticas públicas que estimulem o desenvolvimento econômico de cada região.

#8. Hospitais públicos e formação médica

As universidades públicas mantêm grande número de hospitais universitários, os HCs, que realizam milhões de atendimentos por ano, inclusive tratamentos de alta complexidade. Nesses hospitais é feita a formação prática de boa parte dos médicos formados no Brasil.

Hospital das Clínicas da UFMG. Foto: Eber Faioli/UFMG

#9. Parcerias com outros países

As universidades públicas brasileiras realizam grande parte do intercâmbio com pesquisadores das principais universidades do mundo, através de congressos, missões de pesquisa e parcerias com grupos de pesquisa estrangeiros, o que permite que a atualização científica nas diversas áreas seja constantemente mantida.

#10. Ajuda para as comunidades mais carentes

As universidades públicas atendem, de fato, as diversas camadas de renda da população, tornando possível a ampliação de horizontes educacionais, econômicos e sociais tanto para o seu público estudantil, quanto para as comunidades das cidades onde estão instaladas.

 

Em resumo, cidades com universidades públicas têm maiores recursos e oportunidades em saúde, comércio, turismo, educação e desenvolvimento humano.

Se você tem filhos, apoie a universidade pública brasileira. Se não tem, apoie também. As gerações futuras agradecem.

 

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LEMBRETE: Amanhã é dia de manifestações e greve geral contra as sandices do MEC do governo Bolsonaro!

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Pra quem não sabe do que se trata, vale ler AQUI o texto do grande Ricardo Kotscho a respeito.

Trechinho:

“Jair Bolsonaro, presidente da República, em discurso na sexta-feira, em Brasília, ao anunciar o apocalipse:

“Talvez tenhamos um tsunami na semana que vem, mas a gente vence o obstáculo com toda a certeza”.

Nunca vi presidente anunciar desgraças em lugar de projetos, mas o capitão olavista chegou atrasado, mais uma vez.

O tsunami que está destruindo o país, na verdade, já chegou, tem mais de quatro meses, e o nome dele é Bolsonaro.

Começou no dia da posse e foi destruindo, uma a uma, as instituições nacionais, o Estado de Direito, as conquistas sociais e os direitos dos trabalhadores.

A que obstáculo se refere o presidente? O olho do furacão está no Palácio do Planalto.

O obstáculo só pode ser o povo brasileiro, que acordou e começa a se mobilizar para deter este tsunami.

Já tem até dia marcado: 15 de maio, quarta-feira próxima.

Os sindicatos nacionais de professores e funcionários das universidades federais e a União Nacional dos Estudantes se mobilizaram para promover o Dia Nacional de Luta em Defesa da Educação, com protestos em todo o país.”

Bora lá todo mundo? Ou você é a favor do corte absurdo, que coloca em risco até o funcionamento das universidades mais importantes do país?

A Folha de S.Paulo divulgou locais e horários das manifestações em várias cidades do país, anote aí:

AMAPÁ

Macapá: Praça das Bandeiras, às 15h

AMAZONAS

Manaus: Entrada da Ufam, a partir das 7h, e às 15h no centro da cidade

CEARÁ

Fortaleza: Praça da Bandeira, às 8h

DISTRITO FEDERAL

Brasília: Museu da República, às 10h

GOIÁS

Goiânia: Praça Universitária, às 14h

MARANHÃO

São Luís: Espaço de Vivência da UFMA, às 10h30

MATO GROSSO

Praça Alencastro, às 14h

MINAS GERAIS

Belo Horizonte: Praça da Estação, 9h30

Diamantina: Largo Dom João, 15h

PARANÁ

Curitiba: Praça Santos Andrade, 9h

RIO DE JANEIRO

Rio de Janeiro: Candelária, 15h

RIO GRANDE DO SUL

Caxias do Sul: Praça Dante Alighieri, às 16h30

Porto Alegre: Faculdade de Educação da UFRGS, às 18h

Viamão: centro da cidade, às 16h

SANTA CATARINA

Chapecó: Praça Coronel Bertaso, às 9h30

Florianópolis: Largo da Alfândega, 15h

SÃO PAULO

Campinas: Largo do Rosário, às 10h30

São Carlos: Praça Coronel Salles, às 9h

São Paulo: vão do Masp, na avenida Paulista, às 14h

Sorocaba: Praça Coronel Fernando Prestes, às 9h


Se fizer fotos das manifestações, não deixe de me enviar 😉

Leia amanhã: 10 pontos positivos das universidades públicas brasileiras


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Professor universitário precisa de mestrado? (parte 3)

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Esta é a terceira e última parte do debate que resolvi promover aqui no blog nesta semana, depois que dois excelentes professores da PUC Minas foram demitidos apenas por não terem título de mestres (embora sejam os mestres das centenas de alunos que protestaram contra a demissão).

Na primeira parte, contei o episódio dos professores e dividi o texto que meu pai escreveu homenageando um deles, que também trouxe uma bela reflexão sobre o assunto.

Na segunda parte, eu trouxe minha opinião e a experiência que eu tive na universidade. Falei também sobre como meus melhores professores não foram os que acumulam títulos acadêmicos.

Hoje, quero trazer as opiniões dos leitores, que foram muito boas e vão enriquecer demais este debate. Alguns concordaram, outros discordaram, mas todos trouxeram argumentos muito legais — que é o que importa nos debates, né? Bom proveito!


 

Ricardo Faria, historiador:

“Olha, fui professor universitário durante 18 anos. Até que tentei fazer um mestrado, mas coincidiu que eu era chefe do departamento e o pró-reitor inventava de fazer reuniões sempre na semana que havia aulas. Resultado, desisti depois da terceira disciplina. E depois fiquei pensando se valia a pena participar da verdadeira palhaçada que são as defesas de dissertação que pude presenciar. Cartas marcadas, a sua dissertação só vai ser defendida quando o seu orientador achar que está boa. E a banca não vai te dar bomba porque isso equivale a dar bomba no orientador. O resultado é que qualquer coisa passa e o sujeito vira mestre.

Claro, existem os mestrados mais sérios, os orientadores mais sérios. E os mestres mais sérios também.

Mas, sem querer me vangloriar, nos 18 anos em que dei aula, assisti a 36 formaturas (2 por ano). Em mais de 15 eu fui escolhido paraninfo e em umas vinte fui homenageado.

Vi professores com mestrado escreverem palavras erradas no quadro, vi professores sem qualquer didática. Vi doutores encerrando seu curso com duas semanas de aula, porque só sabiam falar da sua tese e depois não tinham ideia do que fazer na sala.

Entrevistei professora com mestrado e doutorado na Sorbonne (é, isso mesmo), que, quando foi apresentada ao programa da disciplina, confessou que não sabia nada daquilo, pois só entendia o assunto da sua dissertação e tese.

Conheci mestres e doutores para quem tiro o chapeu até hoje e me pergunto se caso eles não tivessem seus mestrados, doutorados e pós-doutorados seriam melhores ou piores.

Escrevi mais de 70 livros didáticos, alguns dos quais ficaram conhecidos como revolucionários (no sentido de propor mudanças pedagógicas no ensino de história). Milhões de brasileiros estudaram em meus livros. Só em Minas Gerais, uma coleção vendeu 750.000 exemplares. Isso me granjeou respeito entre os professores de ensino fundamental e médio, e também doutores e mestres. E um mal disfarçado desprezo por parte de alguns mestres e doutores.

Eu ainda poderia fazer um mestrado, tenho ideias interessantes para pesquisar. Mas me pergunto: pra quê?”

 

 


Leonardo Kenji:

“Eu respeito profundamente os títulos acadêmicos, talvez até mais do que eles realmente mereçam 🙂 então me sinto dividido para responder.

Eu realmente acho que, na média, mestrado e doutorado atestam sim uma pessoa mais capacitada, sobretudo quando falamos sobre orientar alunos a fazer pesquisa científica.

Por outro lado, eu já lecionei em cursos de extensão para concluir que sou um péssimo professor :-).

Da mesma forma, muitos ótimos professores não tem título e péssimos professores ostentam belos títulos. De forma que eu sinceramente acho que a atividade de ensino superior devia ser repensada quanto aos critérios de ensino.

Acho que o problema passa por outra linha: para ser professor, as habilidades necessárias são muito maiores do que atestam um mero título. Talvez o mundo acadêmico, da forma como historicamente evoluiu, tenha escapado da discussão das habilidades necessárias para ser professor de curso superior.

A impressão que tenho é que muitos bons professores ficam limitados pelas instituições em que trabalham, ao mesmo tempo em que maus professores são protegidos por colegas e instituições de ensino sob o discurso do “o aluno que se vire para aprender”.

No fim das contas, acho que a discussão é mais profunda que a exigência ou não de título, mas neste aspecto específico, confesso que não tenho opinião formada.”


 

Talis Andrade, poeta e jornalista:

“Para ser professor universitário basta o notório saber. Falo como ex-professor de ginásio, vestibular, Escola Normal (Filosofia), de curso internacional de doutores em Odontologia (Cultura) e faculdades de RP, Jornalismo e Turismo. E basta de chamar reitor de magnífico.”


 

Bruna Saniele, jornalista, graduada em jornalismo e em direito:

“Eu acho que um professor não deveria ser obrigado a ter mestrado. Inclusive me incomodei muito quando tive aula com professores que tinham acabado de entrar no mestrado e que, ao meu ver, estavam aptos ao mestrado, mas inaptos para dar aulas, pelo menos naquele momento. Tive ótimos professores, especialmente na faculdade de direito, sem título, e péssimos professores com toda a titulação exigida. Ensinar é uma arte e com mestrado ou sem mestrado nem todos têm o dom.”


 

Pedro Abreu, graduado em publicidade e graduando em engenharia, pela UFMG:

“Os ‘fora de série’ e já reconhecidos talvez não precisem, mas e os novos professores que ainda não possuem experiência profissional nem reconhecimento notório? Nesse caso, um mestrado ou um doutorado é diferencial determinante entre dois candidatos à vaga, sendo um titulado e o outro não.
Outra questão é que talvez não faça muito sentido um doutorado em publicidade mas um doutorado em mecânica quântica pode ser fundamental.

Sem contar que o número de mestres e doutores conta e muito na avaliação de uma instituição pelos renomados rankings de excelência. Pode não ser a melhor forma de avaliação, mas é um fator quantitativo que está relacionado, de forma geral, a um bom desempenho da instituição. A discutir.”


 

Luana Macieira:

“Para um professor da pós-graduação strictu sensu, acho que é necessário sim. Afinal, como um professor vai orientar um aluno a escrever uma dissertação ou tese se ele nunca escreveu uma? Acho que um professor que tenha experiência com pesquisa esteja mais qualificado pra orientar uma pesquisa. Agora, no caso da graduação, que é algo muito mais técnico, talvez o título não devesse ser o mais importante.

Mas entendo o lado da PUC porque as universidades são avaliadas pelo número de professores mestres e doutores. Então dá pra entender o porquê de ela estar buscando isso nos seus professores (se esse modo de avaliação é bom ou ruim, aí já são outros quinhentos….)”


 

Marcelo Soares, jornalista:

“Eu acho assim: se a disciplina for de teoria do blablablá (e tem tantas em faculdade de jornalismo!), quanto mais canudos na parede melhor. Se a disciplina for de arregaçar a manga, quanto mais calos nas mãos melhor e canudo é secundário.”


 

José de Souza Castro, jornalista (e meu pai!):

“Eu não tive professores doutores na UFMG – ou, se tive, eles não ficavam por aí se chamando de professores doutores, como faz hoje uma colega minha de faculdade que se tornou sócia proprietária de uma dessas escolas superiores privadas que pululam por aí cheia de professores doutores, e por isso não sabia que eles eram doutores. Mas tive bons professores com ampla experiência em suas áreas, inclusive no jornalismo. Entre esses últimos, posso citar os jornalistas Jacques do Prado Brandão, Plínio Carneiro e José Mendonça. Tive também bons colegas que se tornaram bons jornalistas, como José Silvestre Gorgulho, Thais de Mendonça Jorge, Leonardo Mendonça Brito, José Alves de Lima, Elma Heloísa de Almeida, Maria Genoveva Ruisdias Fonseca, Roberto Drummond Mello Silva, Raquel Moraes de Mattos, Pedro Luiz Lobato, Eustáquio Trindade Neto e Amauri Fraga,

Muito pudemos aprender, uns com outros. E principalmente na excelente biblioteca da Fafich, rica em livros sobre sociologia, filosofia, política, história e literatura. Muitos deles escritos por mestres e doutores brasileiros e estrangeiros, mas também por quem nunca fizera universidade, como Machado de Assis. Ou que foram bons jornalistas sem nunca terem estudado comunicação social, como Ruy Barbosa (que se considerava antes de tudo um jornalista, sabia? Nem eu, foi seu tio Antônio, um advogado e grande conhecedor desse colega baiano, quem me disse, nesta semana).

Para o jornalista, mais que a faculdade e seus professores doutores, a melhor escola é a vida. Sobretudo a vida dos outros, pois é nela, geralmente, que, sabendo olhar e perguntar, é onde mais aprendemos a arte de viver e escrever.”


 

Gabriel, do blog O Albergueiro:

“De fato, de fato não é necessário. O importante é o conhecimento, embora presume-se que com esses diplomas (mestrado e doutorado) você demonstra ter “oficialmente” o conhecimento tão necessário para se vencer na vida social e capital, mas de fato não é necessário não. Mas penso ainda que essa questão pode gerar uma discussão bem interessante.”


 

Elisa, leitora do blog:

“Sou formada em Direito e super concordo com você. Alguns professores na faculdade abordavam a matéria de modo tão abstrato que, ao final de um semestre, se me fizessem qualquer questão simplíssima sobre o assunto, eu não sabia responder.

Sem contar que, para alunos da UFMG (meu caso e seu), há tantos e tantos e tantos professores substitutos recém egressos da graduação que chega a ser meio hipócrita essa exigência do mestrado e doutorado – de que adianta ter o corpo docente tão qualificado se quem de fato ministra aulas são os substitutos? (atenção: não estou criticando os professores substitutos que, acima de tudo, são heróis por assumirem inúmeras turmas e matérias com uma remuneração simbólica. Estou apenas mostrando a incoerência.)”


 

Tenerifegalo, leitor do blog:

“Acho que a parte técnica ou teórica, qual seja, mestrado, doutorado etc…para um aspirante é muito importante, mas o traquejo real com a coisa, a hora de correr atrás e fazer a coisa acontecer, tem de vir da soma de fatores como: a aptidão natural que corre na veia do sujeito, o aprendizado adquirido, e a experiencia, de preferência referenciada por uma cobra já criada, juramentada e sacramentada, que muitas vezes, não tem títulos, mas é imprescindível para fazer a coisa funcionar e ensinar os meandros de como a coisa realmente funciona.”


 

Sincero Silva, leitor do blog:

“O que está acontecendo é que as Universidades e Faculdades estão priorizando a área científica em detrimento ao magistério, os professores têm que ter mestrado, doutorado e produção intelectual… Agora, o magistério, aquele negócio de ensinar, prender a atenção dos alunos e, quem sabe, formar novos professores não é o que as universidades pretendem. Fiz dois cursos superiores e sei que os melhores professores destes cursos não tinham mestrado ou doutorado. Eram simplesmente professores por dom divino.”


Wander Veroni Maia, jornalista, blogueiro e professor:

Eu acredito que o Jornalismo, como parte da Comunicação, precisa ter em sua grade elementos teóricos e técnicos, de forma equilibrada que permita o graduando sair da faculdade sabendo a técnica, mas que também possa pensar sobre esta técnica e, quem sabe, ir para um programa de pós-graduação (especialização, mestrado, doutorado, pós-doutorado).

O que percebo hoje é que o jornalismo está mudando. Cursei a faculdade entre 2003/2007 e falo sem sombra de dúvida que aquela realidade que estudei ou vivenciei no mercado está completamente diferente da de hoje. Os veículos tradicionais estão cada vez mais enxutos, enquanto numa outra ponta, mais tímida, a Comunicação está mais empreendedora.

Aos poucos, o Jornalista está se apoderando do Jornalismo, no sentido de que ele hoje não precisa só ir para assessoria de imprensa ou redação. Existem outras possibilidades profissionais, muitas delas ligadas ao empreendedorismo e à internet. Eu, por exemplo, se não estivesse me dedicando aos estudos, adoraria ter uma bolsa da Agência Pública para trabalhar a temática do Jornalismo Investigativo. Acho isso um barato!

Vejo colegas jornalistas se unindo e criando experiências empreendedoras por meio de crowdfunding, da criação de blogs, sites, revistas, jornais de bairro, livros, livro-reportagem, cursos de curta duração, etc. Tem muita coisa que ainda não foi explorada ou que precisa ser melhor explorada!

Desde 2011, atuo como professor de curso de extensão ligado a gestão e produção de conteúdo na web. Apesar de ser pós-graduado em “Rádio e TV” e graduando em “Comunicação e Saúde”, ainda não tenho mestrado e atuo como professor. Pretendo fazer mestrado, não só pelo título, mas sobretudo pelo conhecimento adquirido.

Penso que, por mais que tenhamos a tecnologia a nossa mão, o modo de fazer do jornalismo ainda não mudou. Ainda temos que ligar para a nossa fonte, apurar, entrevistar, investigar, editar, reportar, opinar, enfim, o que muda hoje é a plataforma.

Me incomoda muito a visão dos veículos que ainda encaram a internet como rival, quando na verdade deveria ser um apoio importante para dar visibilidade ao trabalho jornalístico e, mais do que isso, que possamos cumprir com ética e discernimento a nossa função essencial que é prestar serviço à sociedade. Particularmente, fiquei com “vergonha alheia” de alguns veículos de comunicação na cobertura eleitoral. Mas, enfim…rs

Como jornalista e professor, fiquei sensibilizado com o que os alunos da PUC fizeram. E este coordenador da PUC deveria repensar isso. O que adianta um professor com Mestrado e Doutorado se ele não tem prática ou não quer dar prática aos alunos? Um professor vale muito mais pelo seu repertório do que pelos seus títulos. Nesse sentido, a PUC deu um tiro no pé. Pena que as outras universidades de BH dormiram no ponto e não contrataram esses professores… Seria uma resposta importante ao mercado e ao mundo acadêmico.

Ultimamente, estou muito pessimista com a nossa imprensa em BH. Pouquíssimos investimentos. sucateamento, salários defasados, muita agressão moral, verbal, e um foco quase que exclusivo a cobertura policial. Espero que isso mude um dia. Mas esta mudança tem que começar de nós, jornalistas, nos apropriando do Jornalismo e dizendo mais “NÃO” do que sim para o mercado.


 

E você, pensa o que da questão? Envie seu comentário e eu acrescento aqui ao post 😉

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