UFMG não é espaço de balbúrdia, é espaço do saber; balbúrdia é este governo federal!

O brasileiro parece ter, de repente, resolvido abrir mão da aposentadoria e da educação. Como chegamos a este ponto? Charge do Duke, no jornal “O Tempo” de 07.5.2019

 

Hoje a Polícia Civil prendeu cinco pessoas que faziam tráfico de drogas dentro da UFMG. Nenhum deles era estudante na instituição. Daí ouço um sujeito comentar, usando o termo que ficou famoso por ser a justificativa para cortes escandalosos na educação brasileira: “Depois vão me dizer que não há balbúrdia nas universidades? Quem consumia essas drogas que eram vendidas lá dentro?”

Usar um argumento desses para desqualificar todo o trabalho feito dentro de uma instituição do porte da UFMG é de uma desfaçatez tão grande, de uma canalhice tão grande, tão manipuladora e maniqueísta, que não sobrou nem um fio de cabelo meu que não tivesse ficado indignado ao ouvir isso.

Sim, entre os quase 50 mil estudantes da UFMG, além dos 3.000 professores e mais de 4.000 servidores técnicos e administrativos, certamente há usuários de drogas. Assim como existem em toda a sociedade, dentro e fora das universidades. Isso não significa que todos os estudantes, docentes e pesquisadores que frequentam o campus façam uso das drogas – até porque, se fosse o caso, não haveria apenas cinco traficantes (lembrando: nenhum deles é aluno da UFMG), com 144 buchas de maconha, para dar conta desse batalhão de drogados.

A UFMG não é feita de balbúrdia. É feita de 4 campi universitários, 77 cursos de graduação, 77 de mestrado e 63 de doutorado, de 755 grupos de pesquisa, 600 laboratórios, 425 convênios com instituições do exterior, 4.300 artigos publicados em periódicos científicos em um ano. É feita de um Hospital das Clínicas que tem 91 anos de idade, é referência em Minas no atendimento de média e alta complexidade, tem 238 setores hospitalares e atende de forma 100% gratuita, pelo SUS. É feita de vários outros serviços gratuitos de saúde que são ofertados à comunidade, como atendimento odontológico e psicológico. É feita de 27 bibliotecas, com um acervo que gira em torno de 1 milhão de exemplares, além de 40 mil itens de materiais especiais. É feita de uma rede de museus e espaços culturais, que incluem o Espaço do Conhecimento, na Praça da Liberdade, o Museu de História Natural Jardim Botânico, a Estação Ecológica da UFMG, o Museu de Ciências Morfológicas, o Observatório Astronômico Frei Rosário, na Serra da Piedade, e muito, muito mais.

A UFMG é, enfim, um espaço de saber. Uma casa do conhecimento. Um ambiente de frescor de ideias, de debate, de aprendizado, de cultura. Que bom seria se mais e mais mineiros e brasileiros tivessem o privilégio de estudar lá, para falarem menos besteiras, como fala esse sujeito que provocou minha ira hoje – e como fala, de resto, Jair Bolsonaro (que, aliás, NUNCA pisou em uma universidade federal na vida) e seus seguidores mais ignorantes e fanáticos. Porque a UFMG, assim como outras universidades federais, é, sim, um espaço ainda elitista, embora as cotas tenham ajudado bastante melhorar a inclusão. A oferta de vagas para cotistas vem num crescendo desde que esta política foi criada em 2012, mas está diminuindo desde que Temer assumiu o poder – e, com essa visão de ódio à educação do governo Bolsonaro, é possível que logo acabe de vez.

Charge do Duke, no jornal “O Tempo” de 18.5.2019

Assim como deverão despencar aqueles números impressionantes da UFMG, que eu trouxe alguns parágrafos acima e dizem respeito aos anos de 2013 e 2014. Se, com os cortes de 30% anunciados pelo MEC de Bolsonaro, a UFMG não será capaz nem de honrar gastos básicos como os pagamentos de água e luz, como poderá pagar por suas pesquisas? Como a pesquisa que detecta dengue em 20 minutos, desenvolvida por pesquisadores da UFMG. Ou o estudo revolucionário para tratamento de câncer, desenvolvido por pesquisadores da UFMG. Ou o estudo para desenvolver medicamentos para zika e doença de Chagas, tocado por uma professora da UFMG premiada pela Unesco. Ou a vacina anticocaína, testada na UFMG. Ou o programa capaz de rastrear pornografia infantil, desenvolvido pela UFMG e oferecido às polícias Federal e Civil para ajudar em investigações criminais. Basta dar um Google com as palavras “UFMG” e “pesquisa” e você encontrará inúmeros exemplos de trabalhos sérios e incríveis feitos por pesquisadores de todas as faculdades dentro desta maravilhosa universidade.

Ah, sim: um grupo de pesquisadores da UFMG também estudou o impacto das fake news nestas eleições

Charge do Duke, no jornal “O Tempo” de 08.5.2019

Claro, a UFMG tem defeitos. Tem precariedades, como, de resto, tudo o que é público no Brasil. Pode ser melhorada e seu modelo de gestão pode e deve ser discutido. Mas não venham me dizer que lá é só um antro de “balbúrdia”. Balbúrdia é esse governo incapaz de manter um mesmo ministro da Educação por mais de um mês no cargo. Balbúrdia é esse governo, incapaz de conter rachas internos entre milicos e olavistas, milicianos e congressistas, com direito a debandada até de pessoas do mesmo partido do presidente, o PSL.

Eu tenho orgulho de dizer que estudei na UFMG (assim como meu pai e minha mãe e dois dos meus irmãos). E foi lá minha primeira experiência profissional, como estagiária da Rádio UFMG Educativa, que faço questão de listar no currículo. Foi lá que cobri minha primeira eleição presidencial. Foi lá que expandi minha cabeça, conheci todo tipo de gente, ainda que não pudesse estar 100% focada na universidade, porque comecei a trabalhar aos 19 anos. No meu curso de Comunicação Social, aprendi sobre todo tipo de narrativas jornalísticas e teorias da comunicação, mas, estando numa universidade como a que eu estava, pude também ter aulas diversas, como de cinema, de economia, de estatística e até de pré-história! Aproveitei o fato de a grade curricular do meu curso ser aberta para sugar ao máximo as possibilidades daquele campus imenso e tão rico. Nada melhor para uma jornalista do que poder usufruir de conhecimento tão diversificado.

Porque técnica é só técnica, a gente aprende em uma semana na Redação. Já o saber, é algo mais. É o que fica na nossa alma para sempre. É o que nos previne de cair em paspalhices como as lorotas que este Jair Bolsonaro conta. É o que nos dá estofo para seguir firme, forte e desafiadora, nesta vida maluca, nesta sociedade sem pé nem cabeça.

Charge do Duke, no jornal “O Tempo” de 21.5.2019

 

P.S. Recentemente, um leitor do jornal popular “Super Notícia” publicou uma carta lá dizendo que a Faculdade de Direito da UFMG era toda pichada, só tinha bagunça, drogas, essas coisas que os papagaios ficam repetindo sem saber. Os diretores da faculdade responderam à carta, no mesmo espaço, na maior educação, convidando o leitor a conhecer a instituição. Ele foi. Escreveu uma segunda carta para pedir desculpas pela primeira e dizer que ficou impressionado com os trabalhos e pesquisas desenvolvidos pela Faculdade de Direito, que teve os prédios pintados recentemente e sem qualquer pichação ou qualquer tipo de bagunça. Ou seja, as pessoas não estão perdidas: ofereça a mão a elas e muitas saberão reconhecer os erros com humildade e parar de repetir as fake news dessa turma que idolatra a ignorância e que ocupou o poder no Brasil. Não desistamos dos brasileiros.

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Nada de indígenas e quilombolas virando doutores!

No ritmo atual do Brasil, estas crianças Kayapó jamais terão a oportunidade de cursar o ensino superior, mesmo se quiserem. Foto: Rodolfo Oliveira / Ag. Pará – 15.04.2018 – São Félix do Xingu (PA)

Há cinco anos, fiz a seguinte pergunta aqui neste mesmo blog: “Quais as chances de um índio, nascido e criado numa aldeia dentro de uma reserva no sertão pernambucano, distante 12 km da única escola disponível, se graduar em medicina por uma das melhores universidades do país, a UnB?”

E ali contei a história incrível de Josinaldo da Silva, da tribo Atikum, que virou “doutor” e, depois de formado, optou por ir trabalhar num local distante, para levar seu atendimento aos mais necessitados.

Ele conseguiu a formação, os valiosos conhecimentos que se tornaram úteis para a sociedade, e o título final de médico, graças a um sistema de cotas.

Para relembrar aquela história, basta clicar AQUI.

Em maio de 2013, Dilma Rousseff era a presidente do Brasil e seu governo, assim como o do antecessor, Lula, tinha como uma das bases a implementação de políticas sociais.

Hoje, junho de 2018, no governo de Michel Temer, recebi mais uma notícia de corte de programa social, mais um de vários que Temer implementou em apenas dois anos de governo, retrocedendo o Brasil em mais de 20 anos. A notícia de hoje é da lavra do super Rubens Valente*, e saiu na “Folha de S.Paulo”: “Governo Temer corta bolsa para estudantes indígenas e quilombolas“.

Informa Valente que 5.000 estudantes devem ser prejudicados até o final do ano por conta desse corte do governo Temer.

Trecho:

“Criado em maio de 2013 pelo MEC (Ministério da Educação), o PBP já permitiu acesso mais de 18 mil estudantes que deixaram suas aldeias e quilombos, às vezes localizados a centenas de quilômetros, para fazer cursos superiores em instituições federais, além de jovens “em situação de vulnerabilidade socioeconômica”.

Para ter acesso ao valor, os novos alunos devem se cadastrar no sistema do PBP no MEC. Contudo, o sistema está bloqueado, segundo diversas denúncias dos representantes dos alunos, que procuram o MEC desde abril na tentativa de resolver o problema. Em uma audiência no dia 29 com o novo ministro da Educação, Rossieli Soares, os representantes ouviram que a proposta do ministério é de apenas 800 novas bolsas neste ano. O mesmo número foi confirmado por email, à Folha, nesta terça-feira (5).

“Esse número é totalmente abaixo das necessidades (…)”, disse Kâhu Pataxó, 27, aluno de direito da Ufba (Universidade Federal da Bahia), onde há 155 novos alunos aguardando a bolsa. (…)

De forma emergencial, a Ufba conseguiu para os alunos uma verba de R$ 400 mensais, com recursos do orçamento da instituição. A pró-reitora de ações afirmativas e assistência estudantil da Ufba, Cassia Virginia Bastos Maciel, afirmou que acompanha com grande apreensão o assunto porque uma concessão de apenas 800 bolsas para mais de 68 instituições federais “configura na prática o fechamento do programa”.

“Os alunos estão vindo de várias regiões, atendemos 417 municípios na Bahia. Estão longe de suas famílias, de suas aldeias e de suas comunidades. A não concessão dessas bolsas significa de fato a expulsão dos alunos da universidade”, disse a professora.”

Para ler na íntegra, CLIQUE AQUI.

Repito o que eu tinha escrito em 2013, neste mesmo blog:

“As pessoas, quando conseguem oportunidades iguais, são capazes de se empenhar e correr atrás de seus sonhos e serem tão qualificadas quanto as que nasceram em berço de ouro e sempre tiveram acesso às melhores informações.

Não entendo quem é contrário à política de cotas. Argumentam que é um sistema que destrói a meritocracia. Ora, como falar em mérito entre grupos de pessoas sem as mesmas oportunidades? Num mundo ideal, em que todos tiveram oportunidades iguais, é legal beneficiar e privilegiar aqueles que são melhores e se empenham mais. Mas no Brasil atual, há milhares de Josinaldos que são inteligentes, esforçados, repetem a quarta série quatro vezes só por terem vontade de estudar e não ter escola por perto oferecendo as séries seguintes, vão virar ótimos médicos, mas que não conseguem passar pelo filtro, pela barreira social e geográfica intransponível que existe entre eles e o futuro que merecem.

Josinaldo teve direito ao mérito, depois de obter a oportunidade.”

O governo Temer está acabando com a oportunidade para quem sempre foi excluído da sociedade. Está dizendo: indígenas e quilombolas: desistam! Vocês não têm vez.

Infelizmente, no Brasil atual, que vive em plena guerra civil, eles não têm vez mesmo. Nem muitos outros.


*Vale dizer que Rubens Valente lançou recentemente o livro “Os Fuzis e as Flechas – História de Sangue e Resistência Indígena na Ditadura” (Companhia das Letras), que está sendo elogiadíssimo. 

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O índio que virou médico, as cotas e um programa bem-sucedido do governo federal

Foto: Breno Fortes/CB/D.A Press

Foto: Breno Fortes/CB/D.A Press

Quais as chances de um índio, nascido e criado numa aldeia dentro de uma reserva no sertão pernambucano, distante 12 km da única escola disponível, se graduar em medicina por uma das melhores universidades do país, a UnB?

Eu diria que nulas.

Não fosse um convênio firmado entre a Universidade de Brasília, que é pública, e a Funai, dentro do sistema de cotas que a universidade (de novo, pública) possui, Josinaldo da Silva, 35, da tribo Atikum, nunca poderia ter tido essa oportunidade de virar doutor — como já é mais fácil para brancos, amarelos e (um pouco menos) negros.

A história dele é contada pela revista “Época” desta semana, que não a disponibiliza para leitores não-assinantes. Mas pode ser lida por todos no site da UnB Agência (clique AQUI, é emocionante e vale a leitura).

Ela prova algo que eu sempre defendi: que as pessoas, quando conseguem oportunidades iguais, são capazes de se empenhar e correr atrás de seus sonhos e serem tão qualificadas quanto as que nasceram em berço de ouro e sempre tiveram acesso às melhores informações.

Não entendo quem é contrário à política de cotas. Argumentam que é um sistema que destrói a meritocracia. Ora, como falar em mérito entre grupos de pessoas sem as mesmas oportunidades? Num mundo ideal, em que todos tiveram oportunidades iguais, é legal beneficiar e privilegiar aqueles que são melhores e se empenham mais. Mas no Brasil atual, há milhares de Josinaldos que são inteligentes, esforçados, repetem a quarta série quatro vezes só por terem vontade de estudar e não ter escola por perto oferecendo as séries seguintes, vão virar ótimos médicos, mas que não conseguem passar pelo filtro, pela barreira social e geográfica intransponível que existe entre eles e o futuro que merecem.

Josinaldo teve direito ao mérito, depois de obter a oportunidade.

Argumentam que os cotistas diminuem a qualidade do corpo discente da universidade. Afora as pesquisas já feitas na própria UnB e na UFRJ, que são pioneiras em cotas, provando que isso é balela, temos histórias como a do Josinaldo que ajudam a ilustrar a questão. Ele não era nem o melhor nem o pior aluno. Tomou pau em algumas matérias, sentiu dificuldade. Sofreu com preconceito dos colegas e com a adaptação à vida na cidade, onde se sentia um etê. Mas foi adiante e teve que fazer as mesmas provas e trabalhos que todos os seus colegas, até fazer jus ao título e ao canudo. Conquistou a formatura, provando que é tão bom quanto os demais, mesmo tendo estudado em escolas piores antes. Ou até melhor, por isso.

Argumentam que os cotistas sofrem preconceito dentro das salas de aula elitizadas. Isso é verdade, mas quanto mais corriqueiros eles se tornarem, menor será esse preconceito. Quanto menos tivermos que comemorar a conquista do Josinaldo, mais justo será este país. Mais merecedor da adoção pura e simples da meritocracia. Mais democrático com suas oportunidades.

E só aí poderemos pensar em acabar com o sistema de cotas.

***

Outra coisa bacana, esta só na matéria da “Época”, é a informação que Josinaldo ingressou no Provab, programa do governo federal que oferece R$ 8 mil a médicos, dentistas e enfermeiros recém-formados que topem ir trabalhar num rincão do país, onde haja maior carência desses profissionais. Ele trabalha num posto de saúde de um distrito chamado Santa Maria, no município de Flores de Goiás, a 210 km de Brasília. Um rincão. Atende sem parar, das 7h às 16h, e mora num quartinho nos fundos do próprio posto. Ali, segundo a revista, os moradores ficaram meses sem médicos, porque ninguém queria assumir a bucha. Josinaldo quis.

Esse é um dos melhores programas que o atual governo federal criou, em 2012. Poucos sabem que existe, pouco se fala dele, mas é um programa simples, barato, que ajuda tanto às comunidades quanto aos profissionais, que os faz crescer ao conhecer outras realidades e resolve, em parte, um grave problema de saúde pública que o Brasil enfrenta hoje (a má distribuição de oferta de atendimento).

Depois de atender em Flores de Goiás por um tempo, Josinaldo pretende voltar à aldeia na Serra do Umã para atender aos 3.500 índios que vivem lá. Ele não é obrigado pelo convênio a dar essa contrapartida, mas se sente com essa dívida pessoal. Vai criar seu próprio Provab.