O índio que virou médico, as cotas e um programa bem-sucedido do governo federal

Foto: Breno Fortes/CB/D.A Press

Foto: Breno Fortes/CB/D.A Press

Quais as chances de um índio, nascido e criado numa aldeia dentro de uma reserva no sertão pernambucano, distante 12 km da única escola disponível, se graduar em medicina por uma das melhores universidades do país, a UnB?

Eu diria que nulas.

Não fosse um convênio firmado entre a Universidade de Brasília, que é pública, e a Funai, dentro do sistema de cotas que a universidade (de novo, pública) possui, Josinaldo da Silva, 35, da tribo Atikum, nunca poderia ter tido essa oportunidade de virar doutor — como já é mais fácil para brancos, amarelos e (um pouco menos) negros.

A história dele é contada pela revista “Época” desta semana, que não a disponibiliza para leitores não-assinantes. Mas pode ser lida por todos no site da UnB Agência (clique AQUI, é emocionante e vale a leitura).

Ela prova algo que eu sempre defendi: que as pessoas, quando conseguem oportunidades iguais, são capazes de se empenhar e correr atrás de seus sonhos e serem tão qualificadas quanto as que nasceram em berço de ouro e sempre tiveram acesso às melhores informações.

Não entendo quem é contrário à política de cotas. Argumentam que é um sistema que destrói a meritocracia. Ora, como falar em mérito entre grupos de pessoas sem as mesmas oportunidades? Num mundo ideal, em que todos tiveram oportunidades iguais, é legal beneficiar e privilegiar aqueles que são melhores e se empenham mais. Mas no Brasil atual, há milhares de Josinaldos que são inteligentes, esforçados, repetem a quarta série quatro vezes só por terem vontade de estudar e não ter escola por perto oferecendo as séries seguintes, vão virar ótimos médicos, mas que não conseguem passar pelo filtro, pela barreira social e geográfica intransponível que existe entre eles e o futuro que merecem.

Josinaldo teve direito ao mérito, depois de obter a oportunidade.

Argumentam que os cotistas diminuem a qualidade do corpo discente da universidade. Afora as pesquisas já feitas na própria UnB e na UFRJ, que são pioneiras em cotas, provando que isso é balela, temos histórias como a do Josinaldo que ajudam a ilustrar a questão. Ele não era nem o melhor nem o pior aluno. Tomou pau em algumas matérias, sentiu dificuldade. Sofreu com preconceito dos colegas e com a adaptação à vida na cidade, onde se sentia um etê. Mas foi adiante e teve que fazer as mesmas provas e trabalhos que todos os seus colegas, até fazer jus ao título e ao canudo. Conquistou a formatura, provando que é tão bom quanto os demais, mesmo tendo estudado em escolas piores antes. Ou até melhor, por isso.

Argumentam que os cotistas sofrem preconceito dentro das salas de aula elitizadas. Isso é verdade, mas quanto mais corriqueiros eles se tornarem, menor será esse preconceito. Quanto menos tivermos que comemorar a conquista do Josinaldo, mais justo será este país. Mais merecedor da adoção pura e simples da meritocracia. Mais democrático com suas oportunidades.

E só aí poderemos pensar em acabar com o sistema de cotas.

***

Outra coisa bacana, esta só na matéria da “Época”, é a informação que Josinaldo ingressou no Provab, programa do governo federal que oferece R$ 8 mil a médicos, dentistas e enfermeiros recém-formados que topem ir trabalhar num rincão do país, onde haja maior carência desses profissionais. Ele trabalha num posto de saúde de um distrito chamado Santa Maria, no município de Flores de Goiás, a 210 km de Brasília. Um rincão. Atende sem parar, das 7h às 16h, e mora num quartinho nos fundos do próprio posto. Ali, segundo a revista, os moradores ficaram meses sem médicos, porque ninguém queria assumir a bucha. Josinaldo quis.

Esse é um dos melhores programas que o atual governo federal criou, em 2012. Poucos sabem que existe, pouco se fala dele, mas é um programa simples, barato, que ajuda tanto às comunidades quanto aos profissionais, que os faz crescer ao conhecer outras realidades e resolve, em parte, um grave problema de saúde pública que o Brasil enfrenta hoje (a má distribuição de oferta de atendimento).

Depois de atender em Flores de Goiás por um tempo, Josinaldo pretende voltar à aldeia na Serra do Umã para atender aos 3.500 índios que vivem lá. Ele não é obrigado pelo convênio a dar essa contrapartida, mas se sente com essa dívida pessoal. Vai criar seu próprio Provab.

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