Nada de indígenas e quilombolas virando doutores!

No ritmo atual do Brasil, estas crianças Kayapó jamais terão a oportunidade de cursar o ensino superior, mesmo se quiserem. Foto: Rodolfo Oliveira / Ag. Pará – 15.04.2018 – São Félix do Xingu (PA)

Há cinco anos, fiz a seguinte pergunta aqui neste mesmo blog: “Quais as chances de um índio, nascido e criado numa aldeia dentro de uma reserva no sertão pernambucano, distante 12 km da única escola disponível, se graduar em medicina por uma das melhores universidades do país, a UnB?”

E ali contei a história incrível de Josinaldo da Silva, da tribo Atikum, que virou “doutor” e, depois de formado, optou por ir trabalhar num local distante, para levar seu atendimento aos mais necessitados.

Ele conseguiu a formação, os valiosos conhecimentos que se tornaram úteis para a sociedade, e o título final de médico, graças a um sistema de cotas.

Para relembrar aquela história, basta clicar AQUI.

Em maio de 2013, Dilma Rousseff era a presidente do Brasil e seu governo, assim como o do antecessor, Lula, tinha como uma das bases a implementação de políticas sociais.

Hoje, junho de 2018, no governo de Michel Temer, recebi mais uma notícia de corte de programa social, mais um de vários que Temer implementou em apenas dois anos de governo, retrocedendo o Brasil em mais de 20 anos. A notícia de hoje é da lavra do super Rubens Valente*, e saiu na “Folha de S.Paulo”: “Governo Temer corta bolsa para estudantes indígenas e quilombolas“.

Informa Valente que 5.000 estudantes devem ser prejudicados até o final do ano por conta desse corte do governo Temer.

Trecho:

“Criado em maio de 2013 pelo MEC (Ministério da Educação), o PBP já permitiu acesso mais de 18 mil estudantes que deixaram suas aldeias e quilombos, às vezes localizados a centenas de quilômetros, para fazer cursos superiores em instituições federais, além de jovens “em situação de vulnerabilidade socioeconômica”.

Para ter acesso ao valor, os novos alunos devem se cadastrar no sistema do PBP no MEC. Contudo, o sistema está bloqueado, segundo diversas denúncias dos representantes dos alunos, que procuram o MEC desde abril na tentativa de resolver o problema. Em uma audiência no dia 29 com o novo ministro da Educação, Rossieli Soares, os representantes ouviram que a proposta do ministério é de apenas 800 novas bolsas neste ano. O mesmo número foi confirmado por email, à Folha, nesta terça-feira (5).

“Esse número é totalmente abaixo das necessidades (…)”, disse Kâhu Pataxó, 27, aluno de direito da Ufba (Universidade Federal da Bahia), onde há 155 novos alunos aguardando a bolsa. (…)

De forma emergencial, a Ufba conseguiu para os alunos uma verba de R$ 400 mensais, com recursos do orçamento da instituição. A pró-reitora de ações afirmativas e assistência estudantil da Ufba, Cassia Virginia Bastos Maciel, afirmou que acompanha com grande apreensão o assunto porque uma concessão de apenas 800 bolsas para mais de 68 instituições federais “configura na prática o fechamento do programa”.

“Os alunos estão vindo de várias regiões, atendemos 417 municípios na Bahia. Estão longe de suas famílias, de suas aldeias e de suas comunidades. A não concessão dessas bolsas significa de fato a expulsão dos alunos da universidade”, disse a professora.”

Para ler na íntegra, CLIQUE AQUI.

Repito o que eu tinha escrito em 2013, neste mesmo blog:

“As pessoas, quando conseguem oportunidades iguais, são capazes de se empenhar e correr atrás de seus sonhos e serem tão qualificadas quanto as que nasceram em berço de ouro e sempre tiveram acesso às melhores informações.

Não entendo quem é contrário à política de cotas. Argumentam que é um sistema que destrói a meritocracia. Ora, como falar em mérito entre grupos de pessoas sem as mesmas oportunidades? Num mundo ideal, em que todos tiveram oportunidades iguais, é legal beneficiar e privilegiar aqueles que são melhores e se empenham mais. Mas no Brasil atual, há milhares de Josinaldos que são inteligentes, esforçados, repetem a quarta série quatro vezes só por terem vontade de estudar e não ter escola por perto oferecendo as séries seguintes, vão virar ótimos médicos, mas que não conseguem passar pelo filtro, pela barreira social e geográfica intransponível que existe entre eles e o futuro que merecem.

Josinaldo teve direito ao mérito, depois de obter a oportunidade.”

O governo Temer está acabando com a oportunidade para quem sempre foi excluído da sociedade. Está dizendo: indígenas e quilombolas: desistam! Vocês não têm vez.

Infelizmente, no Brasil atual, que vive em plena guerra civil, eles não têm vez mesmo. Nem muitos outros.


*Vale dizer que Rubens Valente lançou recentemente o livro “Os Fuzis e as Flechas – História de Sangue e Resistência Indígena na Ditadura” (Companhia das Letras), que está sendo elogiadíssimo. 

Leia também:

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