Você sabe conversar com meninas de 5 anos? — um contraponto

laurinhamonstro

Anteontem postei aqui o texto de Lisa Bloom sobre como conversar com crianças, enfatizando a inteligência e o valor da leitura e menos o da aparência.

Hoje trago um contraponto que também é muito bom. Foi escrito por Renata Ferrer, que é mãe de uma criança nessa idade. Ela enviou o texto ao professor Ricardo Faria, que me enviou, com a devida autorização para publicar aqui no blog.

Para complementar nossa reflexão:

“Li este texto da Lisa Bloom uns meses atrás… Concordo sim, mas com cuidado. Tenho visto algumas pessoas que, na minha opinião, exageram. Cresci brincando de usar batom, salto alto, esmalte, brincando de boneca. Pior: cresci à base de muita Xuxa e Barbie na veia. E, olha, além de ter me tornado provavelmente uma das menos vaidosas moradoras de ‘Belzonte’, nada disso me impediu de adorar ler, de me interessar por diversos assuntos, de questionar, buscar entender o porquê das coisas antes de aceitar qualquer opinião. Jamais segui moda, em área nenhuma da vida, e nunca vivi em função de beleza.

Enfim, só fico com preguiça de quem exagera quando vê, por exemplo, minha filha brincando de passar batom, e me olha como se eu fosse a pior mãe do mundo. E quando ela vai toda orgulhosa e escolhe sua própria roupa (doidamente descombinada), e me pergunta se está bonita, eu respondo que sim, está bonita, muito legal a roupa que ela escolheu sozinha. Isso não quer dizer que eu esteja passando para ela a mensagem de que a aparência é o que mais importa na vida. Na minha opinião, um dos principais problemas relativos a tudo que a Lisa Bloom diz no texto é a publicidade e como os próprios pais estão inseridos na mentalidade consumista, mas muitas vezes não percebem. Não adianta ler esse texto e achar que parar de elogiar a ‘beleza’ de meninas vai resolver alguma coisa, se os exemplos que os adultos dão em casa são de valorizar o que não importa, seja a aparência da mulher maquiadérrima e com photoshop que aparece na revista, sejam carros caros, sejam roupas de grife… Se o exemplo é de rir dos outros, comentar a vida alheia, agir como se tivéssemos que levar vantagem em tudo, não ser solidário, ou mais ainda deixar transparecer preconceitos de qualquer tipo, sejam de gênero, contra negros, gays, ou preconceitos de classe (o que mais tenho visto), de nada adianta patrulhar os elogios às menininhas. E mais: também não adianta nada patrulhar os elogios às meninas, mas continuar proibindo os meninos de brincar de fazer comidinha, de pegar uma boneca no colo, de brincar com a vassourinha rosa da irmã… Mas isso dá pano pra manga, deixa pra outro dia.

Bem, acho que o problema é ficar só na aparência e não cuidar de forma integral e consciente dos próprios filhos (ou ao menos tentar), não estimular leitura, não estimular generosidade… Não prestar atenção (ou controlar enquanto é possível) o que assistem na televisão, no computador etc… A overdose de propaganda desses canais infantis (discovery kids não me desce na garganta, proíbo mesmo) é absurda! Fora aberrações como a tal novelinha “Carrossel”, pelamordedeus! (aliás, recomendo muito o site http://www.infancialivredeconsumismo.com.br).

Mais uma coisinha: ensinar a se cuidar, se arrumar um pouco, cuidar da saúde sem neura de magreza, mas praticando exercícios – nada disso acho que seja prejudicial em si. Acredite, fui criada com mãe e tia que jamais se cuidaram, quase desleixadas mesmo, e isso não é nem um pouco saudável, em nenhum sentido – um pouquinho mais de vaidade não me teria feito mal, não prejudicaria meu cérebro, pois fui criada de forma a construir um senso crítico que nenhum batonzinho rosa destruiria.

Enfim, só acho que a coisa toda é muito mais complexa do que a Lisa Bloom põe no texto que sua amiga reproduziu!”

E é, né. Espero mais textos e comentários de mães experientes (ou em experiência) aqui no blog! 😉

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6 comentários sobre “Você sabe conversar com meninas de 5 anos? — um contraponto

  1. Na minha opinião o que estraga tudo é o extremismo… Não acho nada demais em se elogiar uma criança por sua aparência, seus cuidados pessoais , suas roupinhas bonitas, etc. O que não dá é pra ficar só nisso. Valorizar e ensinar através do exemplo o hábito à leitura, o compromisso com os estudos, o senso de responsabilidade, etc são fundamentais. Uma coisa não exclui a outra. Elas se complementam…

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  2. Olha, não que a mãe do texto esteja errada, está certíssima em suas colocações. Eu só discordo na crítica ao texto da Lisa Bloom em si. Muitas vezes tendemos, como mãe, a personalizar uma situação, ‘comigo’ foi assim, ‘meu/minha filho/a é assim. E o artigo no caso chama a atenção para um fenômeno que é geral, e bem perceptível na sociedade. Além de tudo, o que nem sempre acontece em textos que criticam determinado comportamento social, faz uma sugestão simples, prática: não elogie ‘somente’ a beleza. Elogie a maturidade, a inteligência, a sagacidade das meninas. E eu, muito intrometida, iria além, e sugeriria que os elogios aos meninos também começassem a ser revistos. Que a delicadeza, que a beleza, que seu bom gosto para roupas, que seu bom comportamento, que o seu cuidado com os menores, em um menino também possam ser vistos como uma coisa positiva e elogiável. 🙂

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    • Ludmila, só explicando: gostei do texto dela sim, e concordo com tudo o que vc disse. O problema é a interpretação que as pessoas fazem dele…teve gente que leu o texto e me disse “Viu só, não deixe mais suas meninas brincarem de passar batom!”. Como se os trocentos livros que dou e leio para elas e todos os meus esforços para tentar educá-las da melhor forma que posso fossem ser apagados por um batom!
      E vc tocou num tema ótimo sobre os meninos… O menino é sempre “forte”, “corajoso”, e até hoje “não chora”…Fico embasbacada de ver as mães reclamando que os maridos não cuidam do bebê, não fazem nada na cozinha, não lavam a louça, mas elas mesmas mesmas não deixam os filhos encostarem nas bebezinhas (bonecas) das minhas filhas. Já ouvi até uma mandando o filho não brincar na cozinha de brinquedo das minhas meninas “porque é rosa”. Menino tem que gostar SÓ de arma e de muitos, muitos carros, miniaturas de Ferrari etc….mas quando crescem, aos 30 anos exigimos que eles sejam sensíveis, carinhosos, troquem fralda de madrugada, cozinhem e lavem a louça….tem algo muito esquisito aí.

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    • Isso mesmo….meu problema é com esse exagero, já recebi olhares tortos por deixar minhs filhas (são duas) brincarem com um brilho labial..

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