Das vantagens de não ter carro

Este foi meu primeiro e único carrinho, o Red Bull, que tinha um lindo adesivo dos Beatles em pose de Help colado na bunda. Confesso que adoro dirigir. Mas odeio congestionamento. O bom mesmo é pegar uma estrada livre e seguir adiante. Nas cidades, no entanto, ter carro está se tornando uma opção cada vez mais burra.

A cada dia que passa, mais me convenço de que não vale a pena ter carro. Falo tanto do ponto de vista financeiro quanto do de comodidade.

Percebi isso durante meus quase cinco anos vivendo desmotorizada em São Paulo e a convicção se acentuou na volta para Beagá, durante meu trajeto diário de ônibus para o trabalho. Sei a hora em que ele vai passar. Desço para pegá-lo às 7h10 e às 7h15, no máximo 7h20, ele está lá, tirando eventuais atrasos. Ele gasta cerca de 35 minutos para chegar ao meu destino, do outro lado da cidade. Chego no trabalho às 8h, depois de andar um total de quatro quarteirões. Quando consigo me sentar, o que acontece quando o ônibus esvazia no centro (e às vezes antes), tiro um livro da bolsa e aproveito o tempo lendo, em vez de me estressar com o trânsito. Claro, os ônibus têm vários problemas, gerados pela dificuldade que os seres humanos têm em conviver uns com os outros. Mesmo assim, tendo a preferi-los, como vocês verão por quê.

Vejam se eu estivesse indo de carro. Poderia sair para o trabalho às 7h20. Geralmente gasta-se os mesmos 30 minutos de carro até aquele bairro, com o trânsito do horário. O tempo que eu gastaria caminhando alguns quarteirões do ponto de ônibus para a empresa, é o que se gasta procurando vaga para estacionar, em alguns casos. Ou seja, eu chegaria ainda às 8h, mas sem ter podido ler meu livro, tendo que me estressar com congestionamento e tendo gastado bem mais que os R$ 2,65 da passagem de ônibus, com a gasolina, que já está com o litro mais caro que isso em alguns postos (como os carros costumam gastar 1 litro a cada 10 km e o trabalho é distante 11 km de casa, a conta é simples).

Muito bem, aí as pessoas podem argumentar que nem sempre há ônibus para todos os lugares, que não dá para ir de ônibus para uma cachoeira etc.

Eu respondo que, na hora de sair à noite, por exemplo, vale ir de táxi, que em Belo Horizonte não é tão caro (bandeirada de R$ 3,90 e km rodado de R$ 2,24) — eu São Paulo eu já contraindicaria. Assim, para ir a um barzinho a 3 km de distância, gasta-se cerca de R$ 10. Por outro lado, os estacionamentos estão cobrando R$ 10 ou mais por hora para parar o carro.

(Nem vou falar das vantagens de poder beber à vontade sem ter que preocupar com Lei Seca e com homicídio com dolo eventual e com como sua vida pode ser destruída se você dirigir depois de encher a cara. É covardia tocar nesse assunto neste post.)

E, para viajar, vale alugar um carro. Uma diária de um carro econômico sai a cerca de R$ 100, em planos que não cobram gasolina à parte. Dividindo por quatro passageiros, R$ 25 — bem menos que qualquer ônibus de rodoviária. Pode-se passar um fim de semana gastando R$ 50 e, como é esporádico, isso fica mais em conta do que ter um carro.

O meu ponto é: carro é igual família. Você não só gasta R$ 25 mil para adquirir um (contando que seja o mais popular), mas também tem que pagar outros R$ 1.000 por ano de IPVA. Além disso, paga outros R$ 1.000 em parcelas para o seguro. O litro de gasolina sai até a absurdos R$ 2,80 em alguns postos da cidade, mas vamos estimar com R$ 2,30. Para quem anda 20 km por dia para ir e voltar ao trabalho, como eu, e trabalha 24 dias por mês, chegamos a R$ 110 de gasolina gastos por mês, em média, fora as outras viagens com o carro além da ida ao trabalho. Os estacionamentos vêm cobrando até R$ 20 a hora, dependendo do lugar. Tem talão de rodízio, tem flanelinha. E a manutenção, que é o olho da cara. Quantos táxis e ônibus e carros alugados esporadicamente são necessários para compensar toda essa grana?

Deixo o cálculo aos matemáticos, engenheiros de tráfego e economistas. Que fiquem à vontade para trazer o problema nos comentários do blog. Outros estudos já foram feitos a respeito, inclusive desconsiderando o ônibus.

O que mais me interessa é que, além de tudo, não há mais prazer em dirigir nas grandes cidades — e olha que eu amo dirigir! Belo Horizonte travou na última sexta, porque era sexta e porque estava chovendo. São Paulo é um caos há muito tempo, bateu algum recorde na última segunda. Salvador tem um dos piores trânsitos que já vi na vida. Isso porque a média de ocupantes de carros no país é de apenas 1,4 pessoas. Olhe ao redor num congestionamento e tente encontrar um carro com dois ocupantes. Será difícil. Com três simplesmente não existe. Todo mundo quer o suposto conforto de andar de carro, no ar condicionado, a velocidade de galinha. No ônibus, ao menos, é possível ocupar o tempo lendo. Se quarenta ocupantes de carros fossem para os ônibus, estes andariam bem mais rápido, já que as vias estariam 40 carros menos entulhadas, tornando o transporte público mais eficiente.

E aí vamos à questão do ovo e da galinha. Já ouvi de várias pessoas que elas andariam de transporte público, se ele fosse bom. Mas não consideram o contrário: se mais pessoas andassem de transporte público, o espaço aberto pelos carros tirados das ruas seria muito maior, proporcionalmente, possibilitando que houvesse mais ônibus em circulação e que eles andassem mais rápido do que podem andar hoje.

Isso tudo é mudança de mentalidade. Se as pessoas colocassem na ponta do lápis e vissem que carro dói no bolso, na saúde e no conforto, talvez mudassem de postura. E, com isso, talvez levassem os governos a pararem de planejar as cidades apenas para os carros. E, talvez, um dia, chegássemos ao patamar de uma Nova York da vida, em que ninguém anda de carro no centro e há metrô para todo canto. Ou uma Londres, que instituiu o pedágio urbano e tem ônibus considerados referências em todo o mundo. Talvez pudéssemos transformar a região da Savassi num boulevard, fechado para carros, aberto para bicicletas, como nos melhores sonhos urbanísticos. Em vez disso, temos uma avenida Civilização, em Justinópolis, Ribeirão das Neves, abarrotada de carros comprados com IPI reduzido, em política suicida do governo federal, parados em fila, como num grande estacionamento.

É isso. Nossas ruas viraram estacionamentos e logo só nos restará andar a pé.

Trânsito num dia qualquer em São Paulo. (Foto: CMC)

Leia também:

Anúncios

Mais janelas, mundo afora

Depois de ver meu post da última quarta, o professor Ricardo Faria me mandou por emails as fotos que ele fez de várias janelas, de várias cidades lindas.

Vejam só que beleza:

Trancoso (Todas as fotos: Ricardo Faria)

Amsterdã

Brumadinho

Caraça

Caraça 2

Congonhas

Diamantina

Floripa

Fortaleza

Frankfurt

João Pessoa

Londres

Mariana

Ouro Preto

Ouro Preto 2

Ouro Preto 3

Ouro Preto 4

Ouro Preto 5

Ouro Preto 6

Rhienfall

Tiradentes

Veneza

As janelas mineiras eu conheço bem, mas um dia ainda espero conhecer todas essas outras janelas que ele viu por aí 🙂