Rolezinho, arrastão, vandalismo ou um caldeirão de preconceitos

Charge do gênio Angeli, publicada na "Folha de S.Paulo"

Charge do gênio Angeli, publicada na “Folha de S.Paulo”

Tou com um bloqueio danado. Li três jornais, uma timeline gigante do Facebook, todos os blogs que assino no Feedly, tudo à cata de inspiração para o post de hoje. O ano mal começou e tanta coisa já aconteceu… Confrontos no Maranhão, crianças morrendo sugadas por ralos de piscina, Nelson Ned morto, etc. Mesmo assim, nada me deu um estalo para um post. É como se minha cabeça ainda estivesse nas miniférias, presa na virada do ano, recusando-se a voltar à rotina de um calendário inteirinho pela frente.

Enquanto volto à normalidade hiperativa, deixo aqui uma recomendação. Para que leiam a excelente coluna da jornalista Eliane Brum, publicada em 23 de dezembro na edição brasileira do “El País“, mas que só fui ver hoje, graças ao blog do jornalista Talis Andrade, que assino.

Eliane discorre sobre os “rolezinhos” que os jovens da periferia combinam por meio de redes sociais, em shoppings normalmente frequentados pela classe média e alta. Eles aconteceram muito no final do ano passado, em Belo Horizonte e São Paulo (e talvez outras cidades, mas não vi notícias). E foram duramente oprimidos pela polícia, mesmo sem casos de furto, roubo ou qualquer tipo de crime — além do “susto” (susto é crime?).

O texto é imenso, gasta-se meia hora para ler, mas faz pensar bastante. Um trecho:

“Os jovens negros e pobres das periferias de São Paulo, em vez de se contentarem em trabalhar na construção civil e em serviços subalternos das empresas de segunda a sexta, e ficar trancados em casas sem saneamento no fim de semana, querem também se divertir. Zoar, como dizem. A classe média até aceita que queiram pão, que queiram geladeira, sente-se mais incomodada quando lotam os aeroportos, mas se divertir – e nos shoppings?”

Para ler tudo, CLIQUE AQUI.

Atualização em 15.1.2014: O melhor texto que li até hoje sobre o assunto foi o de Leandro Beguoci. Leiam AQUI 😉

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13 comentários sobre “Rolezinho, arrastão, vandalismo ou um caldeirão de preconceitos

  1. Gosto do que a Eliane Brum escreve, mas volta e meia ela aparece com uma visão maquiavélica do mundo consistente em pobres, bons e discriminados versus classe média/ricos hipócritas e preconceituosos – parece que esse foi o tom que predominou nessa coluna sobre os rolezinhos. Não acompanhei todos os casos do Brasil, mas pelo menos em Belo Horizonte o que ocorreu no Minas Shopping não foi só “passeio de fim de semana” não. Teve muito tumulto e tentativas de assaltos, como me contou uma prima que esteve lá num dos dias, e como a própria reportagem do Tempo mostra, um jovem estava armado. Desde quando alguém vai passear armado no shopping? E acho que a colocação da Eliane de jovens querendo conhecer locais frequentados pelas elites não foi muito feliz, pelo menos se pensarmos no caso de BH – Minas Shopping e Shopping Estação não são, definitivamente, shoppings frequentados pelas elites… Enfim, se a polícia e as seguranças ficam alertas para um grupo de jovens fazendo baderna, pode até haver uma carga de preconceito aí – pensam “já que são pobres, vieram para roubar” – mas dizer que essa foi a motivação única e exclusiva da polícia é errado. Nos protestos de junho na Paulista havia vários jovens de classe média, que receberam cassetetes e sprays no rosto. O problema da polícia parece ser com aglomerações, qualquer que seja ela.

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    • Acho que ela se fixou nos rolezinhos que ocorreram em São Paulo, que, pelo que se noticiou, não tiveram mesmo nada de violento. De qualquer forma, acho que esse tipo de simplificação “maquiavélica” é muito útil para escancarar distorções reais e nos fazer refletir sobre como olhamos para o outro — especialmente o outro que ganha menos e tem menos poder de consumo que nós — e, como vc fez em seu ótimo comentário, pensar sobre que polícia é esta que temos (o Angeli fez um resumo muito preciso na charge do post). Outra coisa legal que achei no artigo foi a explicação sobre as mudanças de pauta na chamada música da periferia, e de onde surgiu esse funk da ostentação. É um retrato da nossa sociedade de ostentação e consumismo… enfim, acho que esse texto da Eliane dá pano pra muita reflexão boa e nem sempre óbvia 🙂

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    • Elisa, li um texto ontem que achei o melhor, até o momento, sobre os rolezinhos. Me fez pensar que:

      1- Eliane Brum realmente foi maniqueísta ao tratar do assunto, embora o texto dela também faça pensar bastante;
      2- Os rolezinhos existem desde que o mundo é mundo (lembra dos “footings” nas praças do interior, ainda na época dos nossos pais?), mas desde os anos 1990 começaram a acontecer em shoppings;
      3- O objetivo dos rolezinhos sempre foi um só, e é até hoje: diversão. Como o objetivo não é violência, roubo etc, a reação dos lojistas e da polícia é desproporcional e preconceituosa. Mas o objetivo tampouco é ocupar espaços da elite, travar uma luta de classes etc. É só diversão, do início ao fim.
      4- A diferença dos rolezinhos de hoje, que estão chamando tão mais atenção, para os de anos atrás é o fato de serem amplificados, de uma dezena para milhares de jovens, graças às redes sociais.
      5- E aí a esquerda e a direita aproveitaram a discussão para travar outras discussões, que nada têm a ver com aqueles jovens do rolezinho.

      Enfim, como eu disse, o melhor texto. É longo, mas vale ler até o finalzinho: http://www.oene.com.br/rolezinho-e-desumanizacao-dos-pobres/
      Depois me diga se gostou 😉
      bjos

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  2. Eu vejo este “problema” do “rolezinho” pela sua base, ou seja, pela falta de estrutura na Educação e Cultura deste País! O “rolezinho” é uma consequência da falta de investimento dos sucessivos governos, naquilo que tem o maior poder para o desenvolvimento que qualquer Nação: A EDUCAÇÃO!
    O Brasil está em 88º lugar no ranking de educação em um total de 127 países!

    Estou a enviar em PDF um estudo do professor da USP José Cláudio Cyrineu Terra cujo título é: Rumo à “Sociedade do Conhecimento”: As Trajetórias do Brasil e da Coréia do Sul (http://goo.gl/4mWVuQ)

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  3. Cristina, boa tarde.
    Cheguei aqui através da procura por charges sobre o “rolêzinho”, encontrei esta postagem. Sobre suas dicas de leitura: creio que a Eliane viajou, enquanto o Leandro mandou muito bem, texto irretocável. Coincidentemente também havia escrito sobre o fato, até com referências e estrutura parecidas, porém com o olhar de quem cresceu em Itaquera. Se quiser, passa por lá: http://pulaomuro.blogspot.com.br/2014/01/rolezinho.html
    O mais importante é afastar as “categorias”, humanizar os adolescentes e entender que nada disso é estranho a nossa sociedade (como muitos parecem pensar), mas que faz parte dela e que compartilham dos mesmos valores. “Faces de uma mesma moeda” pode ser uma boa metáfora.

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