Um laboratório de tipos humanos

Foto: CMC

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De vez em quando gosto de observar a natureza humana. E o melhor laboratório para isso é o trânsito. No trânsito, as pessoas liberam os animais que existem dentro delas. Tem uma porção de burros, de cavalos, de lesmas, de cachorros e outras espécies mais estranhas. Mas também tem as pessoas naturalmente cordiais, gentis, inteligentes e sensíveis ao quadro geral das ruas.

Na última sexta, caí na armadilha de um laboratório perfeito, desses de fazer antropólogo lamber os beiços de satisfação. Estávamos subindo a serra de Petrópolis, pela BR-040, sentido Juiz de Fora. São duas pistas estreitas, ao longo de cerca de 30 km de paisagem exuberante, com poucas opções de paradas, nenhum acostamento e só um retorno. Ao longo de uma hora, estávamos andando como tartarugas, com trânsito congestionado. De repente, parou tudo. Os motoristas começaram a desligar os carros, puxar os freios de mão. Aos poucos, as pessoas começaram a descer, buscar a sombra de um mato que havia no lado esquerdo. E aí começa o experimento, com condições perfeitas de temperatura e pressão. Hora de observar.

Eu, jornalista, faço a auto-observação de como agi naquele momento. Primeiro: liguei para a concessionária, Concer, para perguntar o que havia acontecido. Um ônibus quebrou e fecharam as duas pistas para fazer o reboque dele pela contramão, diz a funcionária. Começo um interrogatório: qual a previsão de liberação das pistas? O reboque já chegou? Etc.

Namorado, também jornalista, faz o que mais gosta: sai informando a todos o que eu tinha acabado de apurar.

O motorista do carro ao lado, com mulher e duas crianças, lamenta ter passado por essa situação pelo segundo dia consecutivo. Critica a rodovia, que só tem um retorno, e o transtorno por causa de um ônibus quebrado. Mas, na melhor filosofia do “tá no inferno, abraça o capeta”, ele foi até um espetinho que — por sorte! — estava a 500 metros abaixo de onde paramos, comprou uma latinha de cerveja gelada e uma Coca-Cola para a filha e se sentou, à espera. O tipo conformado.

Duas senhoras, em outro carro próximo, ficaram revoltadas. Uma delas se sentou no banco de motorista de novo e fez uma coisa que só poderia tornar a situação mais insuportável: meteu a mão na buzina e disparou, por vários minutos, naquela barulheira ineficaz. O tipo inconveniente.

Duas jovens que estavam mais atrás começaram a xingar ao léo, que absurdo, um onibuzim parar a pista assim, que absurdo, não pode, só Brasil mesmo etc. O tipo que só sabe reclamar.

Um caminhoneiro próximo resolveu curtir a folga forçada. Foi até o mesmo espetinho, pediu uma porção de fritas e nadou numa bica d’água que tinha lá, rindo com sorriso completo, de todos os dentes — que se pode fazer? 😀 O tipo bem-humorado.

Um casal com um bebê recém-nascido não conseguia ficar no carro, mesmo com ar condicionado, porque estava debaixo de sol forte demais. Tentava administrar o problema da melhor forma possível, levando a criança para a sombra quente e tentando mudar o carro de lugar — e com sucesso, já que o neném parecia calminho e sonolento. São do tipo eficiente.

Outra mulher resolveu ir andando até o ponto do acidente para tirar satisfações sobre a demora. Voltou, xingando o funcionário do reboque, dizendo que ele a ignorou e propondo a todos que fossem até lá linchá-lo. O tipo psicopata.

A esta altura, já passava de uma hora que estávamos parados, ali, sem perspectivas de sair, num calor de 40 graus. Meu tipo jornalista atacou de novo e comecei a navegar na internet para tentar achar o contrato da Concer e ver em até quanto tempo um reboque daqueles deveria ser feito. Descobri que o Ministério Público Federal já abriu até denúncia contra a concessionária, em março de 2013, por demora em solucionar transtornos com acidentes e veículos quebrados e descumprimento do contrato. Me juntei aos descontentes e registrei, ali mesmo, uma denúncia na ouvidoria da ANTT. Mas não deu tempo de averiguar em que pé está a denúncia do MPF, já que, pouco depois, um motorista passou correndo, vindo do local do acidente, para avisar a todos que a pista já seria liberada. O tipo solidário.

E a viagem seguiu seu caminho, com direito aos tipos imbecis tentando ultrapassar a qualquer custo, inclusive na curva, para chegar ao destino exatos 2 minutos e 34 segundos antes do carro que ficou para trás. Digo a vocês, a estrada é um laboratório perfeito de tipos humanos.

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