Neste Dia dos Namorados, inspire-se com o amor real

Descobri dia desses o trabalho da artista coreana Puuung, que tem mais de 90 mil seguidores no Facebook e 20 mil em sua página. Ela tem uma série chamada “Love is” (o amor é…) em que retrata cenas corriqueiras da vida a dois que ilustram o que é o amor: uma cumplicidade simples, uma admiração, mas nada muito extraordinário. O amor é prosaico, nas cenas ilustradas por Puuung, e pode estar numa conversa, num olhar, num aconchego ou até num conforto durante uma crise de choro.

É realmente lindo esse trabalho e divulgo hoje para inspirar os casais apaixonados que passarem por aqui. São, ao todo, até o momento em que escrevo, 109 ilustrações, que podem ser todas vistas AQUI.

Abaixo, 20 das minhas imagens favoritas:

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147 maneiras de chamar o seu amor

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Ele me chama de morena, eu chamo ele de moreno. “Mas moreno?! Ele NÃO é moreno!” É verdade: ele é daqueles que nasceram loirinhos, hoje cabelo castanho claro, pele branca, olhos esverdeados. Quando toma sol, fica vermelho, não moreno. Mas o apelido dos enamorados sempre surge das maneiras mais inusitadas e suas origens nunca são óbvias. No nosso caso, veio do meu sobrenome: Cristina Moreno — e ele brincando, quando ainda nem éramos namorados, que o certo deveria ser “Morena” (eu sou mesmo morena, diga-se de passagem), então assim ficou: morena, morena, morena, moreno. Com direito a variantes: moreninho, morenim, morenóide, morenildo, morenilde, morenaide, naidinha.

De vez em quando ele pega palavras aleatórias e, puf!, viram um novo apelido carinhoso. Se o cabelo foi cortado no dia, cabelinha. Se começo uma dieta, queijinha frescal. Se (já nem sei mais por quê), viro tartaruguinha, e ele, brigadeirinho, cervejo red ale, bocó, e assim por diante.

Cheguei à conclusão de que a semiótica dos apelidos carinhosos é diferente. O significado quase nunca corresponde ao esperado pelos que assistem de fora. Mas, para o enamorado, faz todo sentido. É como com os cachorros: não importa se você os chamar por um palavrão, desde que use a entonação certa. E eles vão abanar o rabinho com a mesma ênfase e amor.

Pensando nisso, pedi aos amigos para contarem quais apelidos usam com seus amores. Não me decepcionei: veio cada história! Por exemplo, o Bata. Bata foi assistir a “Toy Story 2” com sua namorada, logo no começo do relacionamento. Em uma cena, um dos personagens grita: “Eu sou uma batata casada!”. E, daquele dia em diante, isso virou uma piada interna entre os dois: não se esqueça que agora você é uma batata casada, hein, amor? Daí para começarem a se chamar de Batata, Batatinha e Batatão, foi um pulo. A abreviação natural: Bata. Os dois se casaram, tiveram filho, se divorciaram e, mesmo assim, até hoje, só se tratam por Bata. Apelidos carinhosos às vezes são eternos.

Outro casal, junto há seis anos, já passou por toda sorte de apelidos. Quando ela pesava meros 47 quilos, passou a ser chamada, carinhosamente, de gordinha. Além de baleia, bola de praia, quica (por causa das bochechas do Quico, do Chaves). Vai entender.

Há ainda aquela dupla que se chama só de Pan. Pan pra cá, Pan pra lá. Os dois são Pan. E pan vem de onde? “De panguá” — respondem, sorridentes.

Aliás, o mais comum é um apelido surgir e ir se desdobrando em outros mil. Delícia vira Dedela. Amor vira Amour, que vira Amoulo, que acaba em Molo. Uma prima começou a chamar o namorado de paixão (e vice-versa), e logo virou xão, xoxoxão, xoxo… Até chegar, sabe-se lá como, a Boxx, que é como se chamam hoje.

E os apelidos muitos vezem passam de geração para geração. Vejam o caso dos dois que se chamavam de Amorzo/amorza e Amorinsko/amorinska, e agora já reduziram para Orzo e Insko. Nasceu o primeiro bebê e adivinha como ele é chamado? Mini-Insko…

Vida, cheiro, monstro, nojento, preto, jacu, doidim, nego, delícia cremosa, pituxa, tico, dico, anjo… Dos apelidos que mais parecem xingamentos aos que já são mundialmente aceitos, o fato é que todos fazem disparar algum coração por aí. E muitos casais se chamam por mais de um apelido, dependendo da ocasião. Fora aqueles nomes que só aparecem nos momentos mais íntimos, que os amigos não quiseram me contar nem com a promessa de que seriam mantidos anônimos. Mesmo assim, recebi nada menos que 147 apelidos! Muitos repetidos, o que ilustra a preferência da maioria, mas alguns muito particulares. Vejam só:

Quanto maior o tamanho da letra, mais vezes o apelido foi repetido.

Quanto maior o tamanho da letra, mais vezes o apelido foi repetido.

E você, como chama seu namorado/marido/ficante/rolo/paixonite/namorido/etc?

Conte para mim e eu acrescento aqui no post 😉

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O leite derramou, a memória limpou

leitederramado

Imagine uma história contada por homem de mais de 100 anos, sofrendo de demência, no leito de um hospital.

Essa história vai depender única e exclusivamente da instável memória deste senhor, que eu apresento desde já como um dos vários Eulálio dentro de uma linhagem familiar que remonta à nobreza européia, passa pelo Senado na Velha República e chega até o tráfico nos dias mais recentes.

Imagine como é frágil a memória de Eulálio, formada por caquinhos amontoados, quanto mais antigos, mais nítidos. Há dias em que ele consegue lembrar até dos fios de cabelo do coque de sua mãe. Noutros, confunde sonho e realidade e pensa ainda estar na primeira infância.

É assim o “Leite Derramado” de Chico Buarque, genial desde a sacada que ele teve sobre como contar a história, sobre seu formato em caquinhos titubeantes, em caquinhos de realidade mesclados a ficção, que caberá a nós, leitores construir minimamente.

Assim como Eulálio tem grandes lapsos de lembranças concretas, ele de repente cai em desvarios. Por isso, o próprio formato do livro é cheio de suspense, da primeira à última linha. Ficamos nos perguntado o tempo todo: será verdade? Foi assim mesmo? Ou foi como ele lembrou da outra vez? O que vai acontecer? O que aconteceu DE VERDADE?

E é nesse emaranhado de fios de memória soltos que Eulálio nos apresenta o amor juvenil de sua vida, sua mulher, Matilde. Ela será a verdadeira protagonista da história. Tentaremos entender, durante todas aquelas 195 páginas, o que aconteceu com Matilde, segundo lembra Eulálio, décadas depois. O que, naquelas lembranças vagas de um Eulálio senil, é verdadeiro. Ou o que ele queria que fosse verdade. Ou como ele recontou a história para si mesmo, para suportar a dor. Como todos nós fazemos, com nossas próprias memórias: reconstruímos a todo momento, inventando a verdade que mais nos convém, para tornar a vida menos dolorosa. Até que essa verdade acaba se tornando verdade mesmo — porque, se lembro, eu vivi aquilo (como diz a frase deste blog).

Eulálio lembra, lembra muito. De muita coisa. E muitas outras permanecerão um mistério para nós, meros ouvintes, pacientes de expectativa de que ele retome a lucidez para voltar àquele caso do ponto onde parou.

Nunca imaginei que eu fosse gostar de um romance de Chico Buarque. Este foi o primeiro que li, e, na verdade, adorei. Ele constrói um Eulálio tão verossímil que parece que estamos vislumbrando nossos futuros — ou os passados de nossos antepassados. Sofremos com a ingenuidade dele, com a tristeza dele, com o que ele sofre. E penso: terá sido ele esta pessoa tão boa de coração, tão pura em seu amor, ou este é só o retrato que sua memória construiu para mantê-lo vivo por mais de 100 anos? Terá a verdade de Matilde sido muito mais cruel?

Jamais saberemos.

“Leite Derramado”
Chico Buarque
Companhia das Letras
195 páginas
De R$ 23 a R$ 39

O amor é lindo (mas cafona)

Poeminha "Não se mate", do Carlos Drummond de Andrade, meu querido Dru-dru :)

Poeminha “Não se mate”, do Carlos Drummond de Andrade, meu querido Dru-dru 🙂

Hoje presenciei uma cena que eu nem sabia que ainda acontecia.

Quando eu era criança, era comum demais. Você podia estar no dentista, tomando um sorvete na esquina ou até dentro da escola e de repente ouvia um som altíssimo de alguma música cafona, o nome de alguém — geralmente mulher — sendo convocado por uma voz de Celso Portiolli e lá vinha declaração de amor, pedido de desculpas, pedido de casamento etc, gritado em um microfone, diante da multidão que se formava nas ruas. Não adiantava fugir, se esconder, se negar a ouvir: a vergonha pessoal e alheia ia acontecer inescapavelmente.

Mas fazia anos e anos que eu não via esse espetáculo de coragem e cafonice (duas palavras que traduzem bem do que é feito o amor). A última vez foi pela internet, uma performance da Camila Buzelin.

Mas hoje o passado me acenou com alegria. Não, não foi comigo (ufa). É preciso ser indiscreto demais para contratar um serviço desses e se tem uma coisa que meu namorado é é discreto.

Estava eu batucando no meu teclado, à cata de um post, quando ouvi uma música, meio sertanejo meio pop romântico, alta pra danar. Pensei mal-humorada: “Detesto gente que obriga todo mundo ao redor a ouvir o mau gosto musical”. Mas fui pegar um café e verificar de onde vinha, pelas janelas. Quando ouvi a voz do apresentador, achei, a princípio, que eram aquela kombis vendendo pamonha. “Pamonha! Pamonha baratinha!”. Ou melancia. Mas logo distingui:

“Fulana. Eu te amo! Me perdoe” etc. Era um pedido de “volta pra mim”.

O microfone trocou de mãos e foi direto para o menor abandonado. “Peço perdão por tudo o que te fiz…” Opa…! Perdoa não, moça! Se ele diz que fez “tudo” isso, boa coisa não deve ter sido. Gira a catraca, a fila anda, vira as costas e vai ser feliz.

Mas ele continua: “Eu te amo. Meus dias estão sendo muito difíceis sem você. Quero passar o resto da minha vida ao seu lado.” Hummm, pobre rapaz. Está arrependido. Todo mundo merece uma segunda chance, não? Ou terceira, quarta…

E, todo humilde (e corajoso), ele pergunta, diante de uma pequena multidão que já se formara na calçada e nas janelas: “Volta pra mim?”

Gritinhos e palmas começam: VOLTA! VOLTA! VOLTA! A claque não estava incluída no pacote, foi espontânea. Me pego desejando, intimamente, que ela volte mesmo. Que ele não repita tudo de ruim que andou aprontando, lembre-se sempre de como sofreu sozinho e os dois se respeitem e sejam muito felizes juntos. Romântica incurável, é isso que eu sou.

Não enxergo o beijo, mas o adivinho. Ela voltou. Fogos são estourados. Todos aplaudem e gritam vivas. Volto ao computador com um sorriso no rosto, meio sarcástico, meio feliz. Tudo o que falam e escrevem sobre o amor é verdade. O amor é cafona, mas é lindo.

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