O amor é lindo (mas cafona)

Poeminha "Não se mate", do Carlos Drummond de Andrade, meu querido Dru-dru :)

Poeminha “Não se mate”, do Carlos Drummond de Andrade, meu querido Dru-dru 🙂

Hoje presenciei uma cena que eu nem sabia que ainda acontecia.

Quando eu era criança, era comum demais. Você podia estar no dentista, tomando um sorvete na esquina ou até dentro da escola e de repente ouvia um som altíssimo de alguma música cafona, o nome de alguém — geralmente mulher — sendo convocado por uma voz de Celso Portiolli e lá vinha declaração de amor, pedido de desculpas, pedido de casamento etc, gritado em um microfone, diante da multidão que se formava nas ruas. Não adiantava fugir, se esconder, se negar a ouvir: a vergonha pessoal e alheia ia acontecer inescapavelmente.

Mas fazia anos e anos que eu não via esse espetáculo de coragem e cafonice (duas palavras que traduzem bem do que é feito o amor). A última vez foi pela internet, uma performance da Camila Buzelin.

Mas hoje o passado me acenou com alegria. Não, não foi comigo (ufa). É preciso ser indiscreto demais para contratar um serviço desses e se tem uma coisa que meu namorado é é discreto.

Estava eu batucando no meu teclado, à cata de um post, quando ouvi uma música, meio sertanejo meio pop romântico, alta pra danar. Pensei mal-humorada: “Detesto gente que obriga todo mundo ao redor a ouvir o mau gosto musical”. Mas fui pegar um café e verificar de onde vinha, pelas janelas. Quando ouvi a voz do apresentador, achei, a princípio, que eram aquela kombis vendendo pamonha. “Pamonha! Pamonha baratinha!”. Ou melancia. Mas logo distingui:

“Fulana. Eu te amo! Me perdoe” etc. Era um pedido de “volta pra mim”.

O microfone trocou de mãos e foi direto para o menor abandonado. “Peço perdão por tudo o que te fiz…” Opa…! Perdoa não, moça! Se ele diz que fez “tudo” isso, boa coisa não deve ter sido. Gira a catraca, a fila anda, vira as costas e vai ser feliz.

Mas ele continua: “Eu te amo. Meus dias estão sendo muito difíceis sem você. Quero passar o resto da minha vida ao seu lado.” Hummm, pobre rapaz. Está arrependido. Todo mundo merece uma segunda chance, não? Ou terceira, quarta…

E, todo humilde (e corajoso), ele pergunta, diante de uma pequena multidão que já se formara na calçada e nas janelas: “Volta pra mim?”

Gritinhos e palmas começam: VOLTA! VOLTA! VOLTA! A claque não estava incluída no pacote, foi espontânea. Me pego desejando, intimamente, que ela volte mesmo. Que ele não repita tudo de ruim que andou aprontando, lembre-se sempre de como sofreu sozinho e os dois se respeitem e sejam muito felizes juntos. Romântica incurável, é isso que eu sou.

Não enxergo o beijo, mas o adivinho. Ela voltou. Fogos são estourados. Todos aplaudem e gritam vivas. Volto ao computador com um sorriso no rosto, meio sarcástico, meio feliz. Tudo o que falam e escrevem sobre o amor é verdade. O amor é cafona, mas é lindo.

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6 comentários sobre “O amor é lindo (mas cafona)

  1. Realmente o carro de som é bem cafona, mas uma vez me mandaram um e achei bem legal.
    Não foi nenhuma declaração apaixonada ou pedido de perdão: meus colegas de trabalho quiseram mostrar que iam sentir minha falta e resolveram fazer a “homenagem” no último dia de trabalho. Não deixa de ser uma demonstração de amor, né? 🙂

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  2. Geralmente quem contrata um serviço desses é quem não tem coragem para encarar diretamente a pessoa a quem se destina o espetáculo e/ou para pedir desculpas de um ato de traição!

    Agora um curto poema de Henry Van Dyke!

    O tempo é muito lento para os que esperam
    Muito rápido para os que têm medo
    Muito longo para os que lamentam
    Muito curto para os que festejam
    Mas, para os que amam, o tempo é eterno.

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