Qual é sua melhor lembrança?

Viva aventuras! Foto: Elvis Ma

No dia 26 de dezembro, logo depois do Natal, é celebrado o Dia da Lembrança. Tudo bem que, naquele momento, nossas lembranças provavelmente giraram em torno de ceias com perus e farofas ou reencontros com familiares sumidos. Mas a data pode ser também uma oportunidade para uma reflexão mais profunda sobre quais são nossas lembranças mais importantes.

Vira e mexe me pego pensando em como é assustador o fato de que uns 90% da nossa vida vão parar no esgoto da nossa memória. São trilhões de momentos esquecidos sorrateiramente, dia após dia. Só uma minoria incrível é impressa em nosso cérebro. E são geralmente as lembranças mais marcantes, as menos corriqueiras, aquelas coisas que fogem da rotina, ou acontecimentos tragicamente ruins ou outros maravilhosamente bons.

Lembro muito bem do dia em que descobri que estava grávida, por exemplo. E também do dia em que o Luiz nasceu. Mas é custoso lembrar do que fiz há duas semanas. Meus aniversários estão gravados na minha memória de forma razoável, principalmente dos 16 anos para cá. Antes disso, ficam meio nebulosos, mas lembro bem do niver de 7 anos em que ganhei uma corda de presente e fui com a prima Marcela e a melhor amiga, Ju, brincar lá na garagem do prédio. Tem uma foto minha, toda suada e descabelada, ao lado da Kika, minha cachorrinha de quem herdei meu apelido, que ajudou a imprimir essa recordação na minha mente.

Naquele dia 26 de dezembro, as redes sociais da revista Canguru, na qual trabalho, lançaram a desafiadora pergunta aos seus leitores: “Qual é sua melhor lembrança?” Não resisti e respondi também. Foi difícil e seguramente não respondi com A MELHOR lembrança, mas com uma boa lembrança, com um sentimento perene que ficou marcado no meu coração. Até porque não tenho esse ranking das vivências mais marcantes de toda a minha vida (será que alguém tem? Um definitivo mesmo? Não invejo). Mas eis o que respondi:

Difícil escolher a melhor… Lembro com carinho da época em que a família toda ia ao sítio, eu adorava subir nas árvores, ficava bem acima do telhado da casa, no alto do ipê, me sentindo uma fada da natureza… A gente colhia amoras juntos, ou goiaba, ou andu, o que estivesse na época, e descascava ou debulhava em torno da mesa… Eu varria e limpava a casinha e às vezes passava o resto do dia lá dentro, lendo um livro, não raro com um barulho de chuva caindo lá fora… Cheiro de terra, passarinhos… As lembranças na roça, de uma época em que a família era mais unida, e eu ainda era criança, são as mais doces.

Gostei também de ler as respostas das outras pessoas:  Continuar lendo

Anúncios

Que tal conversar com seu ‘eu’ do futuro?

message

Já falei desse site aqui no blog, mas faço questão de repetir.

Na última sexta-feira, dia do meu aniversário de 30 anos, fui surpreendida por um email mágico, direto do passado, escrito e enviado pela Cris de uma década atrás. Foi emocionante ler as palavras da Cristina de 20 aninhos, ver como minha vida era absolutamente diferente então, o tanto que eu mudei, até no jeito de me comunicar. Aproveitei a deixa para escrever um email bem longo, bem detalhado, para a Cris do futuro, que, se estiver viva, vai recebê-lo em seu aniversário de 40 anos.

Recomendo a todos esta experiência mágica! O site que proporciona isso é o Future Me e você também pode enviar mensagens para outras pessoas receberem em 1, 5, 10, 20 anos… Quem sabe até se surpreendam ao receber palavras incríveis escritas por uma pessoa depois que ela já morreu. Imaginem como deve ser de arrepiar!

Que tal aproveitar este domingão e tirar umas horinhas para lançar várias dessas garrafas de mensagens ao mar da internet? CLIQUE AQUI e faça sua cartinha para o futuro, para você, para seu marido/mulher, para seus pais, seus irmãos, seus filhos… 😉

Leia também:

faceblogttblog

O leite derramou, a memória limpou

leitederramado

Imagine uma história contada por homem de mais de 100 anos, sofrendo de demência, no leito de um hospital.

Essa história vai depender única e exclusivamente da instável memória deste senhor, que eu apresento desde já como um dos vários Eulálio dentro de uma linhagem familiar que remonta à nobreza européia, passa pelo Senado na Velha República e chega até o tráfico nos dias mais recentes.

Imagine como é frágil a memória de Eulálio, formada por caquinhos amontoados, quanto mais antigos, mais nítidos. Há dias em que ele consegue lembrar até dos fios de cabelo do coque de sua mãe. Noutros, confunde sonho e realidade e pensa ainda estar na primeira infância.

É assim o “Leite Derramado” de Chico Buarque, genial desde a sacada que ele teve sobre como contar a história, sobre seu formato em caquinhos titubeantes, em caquinhos de realidade mesclados a ficção, que caberá a nós, leitores construir minimamente.

Assim como Eulálio tem grandes lapsos de lembranças concretas, ele de repente cai em desvarios. Por isso, o próprio formato do livro é cheio de suspense, da primeira à última linha. Ficamos nos perguntado o tempo todo: será verdade? Foi assim mesmo? Ou foi como ele lembrou da outra vez? O que vai acontecer? O que aconteceu DE VERDADE?

E é nesse emaranhado de fios de memória soltos que Eulálio nos apresenta o amor juvenil de sua vida, sua mulher, Matilde. Ela será a verdadeira protagonista da história. Tentaremos entender, durante todas aquelas 195 páginas, o que aconteceu com Matilde, segundo lembra Eulálio, décadas depois. O que, naquelas lembranças vagas de um Eulálio senil, é verdadeiro. Ou o que ele queria que fosse verdade. Ou como ele recontou a história para si mesmo, para suportar a dor. Como todos nós fazemos, com nossas próprias memórias: reconstruímos a todo momento, inventando a verdade que mais nos convém, para tornar a vida menos dolorosa. Até que essa verdade acaba se tornando verdade mesmo — porque, se lembro, eu vivi aquilo (como diz a frase deste blog).

Eulálio lembra, lembra muito. De muita coisa. E muitas outras permanecerão um mistério para nós, meros ouvintes, pacientes de expectativa de que ele retome a lucidez para voltar àquele caso do ponto onde parou.

Nunca imaginei que eu fosse gostar de um romance de Chico Buarque. Este foi o primeiro que li, e, na verdade, adorei. Ele constrói um Eulálio tão verossímil que parece que estamos vislumbrando nossos futuros — ou os passados de nossos antepassados. Sofremos com a ingenuidade dele, com a tristeza dele, com o que ele sofre. E penso: terá sido ele esta pessoa tão boa de coração, tão pura em seu amor, ou este é só o retrato que sua memória construiu para mantê-lo vivo por mais de 100 anos? Terá a verdade de Matilde sido muito mais cruel?

Jamais saberemos.

“Leite Derramado”
Chico Buarque
Companhia das Letras
195 páginas
De R$ 23 a R$ 39

Luzes do passado para o obscuro futuro

Tenho certa obsessão com a ideia de que estou perdendo memórias. Não é raro eu achar que lembrei de algo e essa lembrança entrar numa atmosfera de sonho tão grande que começo a duvidar de que realmente lembrei e pensar que estou inventando. Por exemplo: será que eu colocava meias mesmo, toda vez que ia nadar de pé-de-pato? Eu me lembro vagamente disso, e que seria para evitar as bolhas e calos da nadadeira, mas, quando começo a imaginar uma meia molhada na beira da piscina, a lembrança começa a parecer surreal demais.

O mesmo acontece com brincadeiras que eu supostamente brincava no pré-primário (era mesmo meninas contra meninos, numa espécie de “briga” diária no pátio do Barão?), com amizades que supostamente tive (eu tinha mesmo uma dupla de amigos em que eu dava caneladas de vez em quando e que, apesar disso, me adoravam? Que doideira!), e até mesmo com coberturas que fiz — e olha que elas são bem mais recentes. Tenho que ficar remexendo no meu portfólio para confirmar se foram verdadeiras ou não.

Por isso tenho também esse cuidado excessivo com arquivos. Todas as reportagens que fiz estão arquivadas e com backup, todos os vídeos que editei, as fotografias são incontáveis, e, desde que sei escrever, anoto os acontecimentos mais importantes do dia em um diário ou agenda (mas é claro que nunca os releio; quem sabe quando me aposentar). Também gosto de anotar os filmes que vi e os livros que li durante o ano, além dos presentes que me deram de aniversário e de Natal. E até este blog, em sua seção “Memórias”, não deixa de ser mais um recanto para guardar minhas sombras cerebrais.

Pode ter um aspecto de TOC esta minha mania, mas prefiro acreditar que é aquela minha coisa com o tempo. Tenho a vontade secreta de capturar o tempo, de enjaulá-lo e poder recorrer ao passado sempre que me der vontade ou me cansar do presente. E meu passado já teve tanta experiência, tanta aventura!, seria um crime esquecê-las. Talvez por ter essa obsessão (segunda vez que uso a palavra no post, vixe!) com o tempo e com o passado é que eu nunca me conforme com o potencial de minha memória e o jeito um pouco estranho como ela parece funcionar.

Mesmo com as várias decepções, desilusões, traições e enganações que ocorrem ao longo de uma vida, considero o passado um tesouro inestimável. Acho que devemos carregar nossa criança sempre dentro da gente, como na música de Milton Nascimento. Deixar os sonhos dessa criança disponíveis para consulta, para serem realizados aos poucos, ao longo da vida adulta. Talvez seja a maneira de nos mantermos sempre jovens, na cabeça e na vontade de viver e de seguir em frente no obscuro futuro. Com nossas luzes do passado devidamente visíveis, assim como as estrelas — ou nosso reflexo no espelho.

Tirinha de Liniers / http://www.macanudo.com.ar/2014-07-17

“Quando nos olhamos em um espelho, a vista viaja a 300 mil km por segundo. O cérebro interpreta o que recebeu pelo olho. Isso demora alguns milésimos de segundo. Assim, o que vemos em um espelho é nós mesmos… um pouquinho mais jovens.” \o/  Tirinha de Liniers / http://www.macanudo.com.ar/2014-07-17

Leia também:

Como funciona minha desmemória (para os cientistas e quem possa se interessar)

mente-vazia

Ontem comentei aqui sobre minha desmemória. Já falei disso em alguns posts, a pinceladas, mas nunca me aprofundei. Acho que porque eu mesma não entendo muito bem como minha memória funciona, só sei que ela é bem atípica. Para algumas coisas, como números e endereços, ela chega a ser espantosamente boa. Mas para outras, mais importantes, como rostos, nomes e acontecimentos, ela é terrível.

Já cheguei a deletar pessoas inteiras da minha vida — com direito a tudo o que vivemos juntos –, a ponto de ver várias fotos ao lado daquela pessoa e não saber ao certo qual era o seu nome. Por outro lado, lembro de uma vez que minha avó me pediu para guardar um telefone, que ela ligaria para a pessoa dois minutos depois. No dia seguinte, recém-acordada, ouvi do quarto minha avó falando em outro cômodo que não tinha anotado o telefone que tinha pedido pra eu guardar na véspera e precisava dele. E eu gritei todos os números, um atrás do outro, certinhos, guardados até 24 horas depois…

Se fosse pra fazer um desenho da minha memória, faria em forma de várias gavetas simetricamente organizadas, mas com sistema de autolimpeza, tipo descarga ou liquidificador. Elas até guardam bem e de forma metódica, mas de repente se esvaziam sem deixar vestígios, caso meu cérebro decida que eu preciso guardar coisas mais preciosas no lugar.

Enfim, minha desmemória seletiva não chega a ser um problema para o cumprimento das minhas obrigações diárias, porque criei meu próprio método de anotar tudo e guardar as coisas sempre nos mesmos lugares. Cheguei a uma situação que me proporciona, hoje, lembrar até mais do que a média das pessoas. Quando ainda atuava como repórter, anotava até os detalhes de cenário das apurações, gravava tudo e, não raro, também fotografava algumas coisas, para poder usá-las depois no texto final. A gente vai aprendendo a contornar nossos problemas…

(Mas, se eu fosse bem rica, ia pagar pra algum cientista fodão estudar o funcionamento da minha memória. Esse assunto, junto com os sonhos/pesadelos e o tempo, é um dos que mais me interessam no universo. Aliás, me ofereço de cobaia caso algum pesquisador já esteja trabalhando com desmemoriados ou pessoas com descarga na memória ;))

Dito tudo isso, ontem à noite eu estava lendo aquele livro do Paulo Leminski, que tenho lido aos pouquinhos, junto de outros, e encontrei mais um poema que achei a minha cara. Compartilho abaixo:

saudosa amnésia

Memória é coisa recente.

Até ontem, quem lembrava?

A coisa veio antes,

ou, antes, foi a palavra?

Ao perder a lembrança,

grande coisa não se perde.

Nuvens, são sempre brancas.

O mar? Continua verde.”

É isso aí. As coisas e pessoas realmente importantes — como as nuvens e o mar, minha família e meu amor, e alguns amigos e lugares muito seletivos –, estas, eu nunca esqueci 🙂

Leia também: