Brincar também é para velhos

Laurinha brincando de monstro, em 2013

Laurinha brincando de monstro, em 2013

Perguntaram a minha sobrinha de 7 anos recém-completos (a Laurinha, lembram?):

— Laurinha, você já viu velho brincar?
— Claro que já!
— Quem?!
— Uai, a tia Cris!

😀

Leia também:

faceblogttblogPague com PagSeguro - é rápido, grátis e seguro!

Anúncios

Luzes do passado para o obscuro futuro

Tenho certa obsessão com a ideia de que estou perdendo memórias. Não é raro eu achar que lembrei de algo e essa lembrança entrar numa atmosfera de sonho tão grande que começo a duvidar de que realmente lembrei e pensar que estou inventando. Por exemplo: será que eu colocava meias mesmo, toda vez que ia nadar de pé-de-pato? Eu me lembro vagamente disso, e que seria para evitar as bolhas e calos da nadadeira, mas, quando começo a imaginar uma meia molhada na beira da piscina, a lembrança começa a parecer surreal demais.

O mesmo acontece com brincadeiras que eu supostamente brincava no pré-primário (era mesmo meninas contra meninos, numa espécie de “briga” diária no pátio do Barão?), com amizades que supostamente tive (eu tinha mesmo uma dupla de amigos em que eu dava caneladas de vez em quando e que, apesar disso, me adoravam? Que doideira!), e até mesmo com coberturas que fiz — e olha que elas são bem mais recentes. Tenho que ficar remexendo no meu portfólio para confirmar se foram verdadeiras ou não.

Por isso tenho também esse cuidado excessivo com arquivos. Todas as reportagens que fiz estão arquivadas e com backup, todos os vídeos que editei, as fotografias são incontáveis, e, desde que sei escrever, anoto os acontecimentos mais importantes do dia em um diário ou agenda (mas é claro que nunca os releio; quem sabe quando me aposentar). Também gosto de anotar os filmes que vi e os livros que li durante o ano, além dos presentes que me deram de aniversário e de Natal. E até este blog, em sua seção “Memórias”, não deixa de ser mais um recanto para guardar minhas sombras cerebrais.

Pode ter um aspecto de TOC esta minha mania, mas prefiro acreditar que é aquela minha coisa com o tempo. Tenho a vontade secreta de capturar o tempo, de enjaulá-lo e poder recorrer ao passado sempre que me der vontade ou me cansar do presente. E meu passado já teve tanta experiência, tanta aventura!, seria um crime esquecê-las. Talvez por ter essa obsessão (segunda vez que uso a palavra no post, vixe!) com o tempo e com o passado é que eu nunca me conforme com o potencial de minha memória e o jeito um pouco estranho como ela parece funcionar.

Mesmo com as várias decepções, desilusões, traições e enganações que ocorrem ao longo de uma vida, considero o passado um tesouro inestimável. Acho que devemos carregar nossa criança sempre dentro da gente, como na música de Milton Nascimento. Deixar os sonhos dessa criança disponíveis para consulta, para serem realizados aos poucos, ao longo da vida adulta. Talvez seja a maneira de nos mantermos sempre jovens, na cabeça e na vontade de viver e de seguir em frente no obscuro futuro. Com nossas luzes do passado devidamente visíveis, assim como as estrelas — ou nosso reflexo no espelho.

Tirinha de Liniers / http://www.macanudo.com.ar/2014-07-17

“Quando nos olhamos em um espelho, a vista viaja a 300 mil km por segundo. O cérebro interpreta o que recebeu pelo olho. Isso demora alguns milésimos de segundo. Assim, o que vemos em um espelho é nós mesmos… um pouquinho mais jovens.” \o/  Tirinha de Liniers / http://www.macanudo.com.ar/2014-07-17

Leia também:

Brincar também é para adultos

Era a festa de um aninho da minha prima de segundo grau. Tudo decorado e bonito, em bufê infantil. Os adultos dispostos em mesas, tomando a cerveja do fim de semana, comendo salgadinhos. A criançada, sem tempo pra lembrar de comer ou tomar refri, deliciada com a casinha de bonecas, o mercadinho, o pula-pula, a piscina de bolinhas. E eu, perdida entre a cerveja, o refri, o almoço e os vários brinquedos à minha disposição: pinball, Xbox One, mesinha de hockey, totó, fliperama de corrida de carros.

Nas três horas em que fiquei na festa, me vi disputando a fórmula 1 em meio a várias batidas, jogando uma partida acirrada de hockey de mesa, batendo o oponente em 10 a 3 no totó (Galo 10, Bayern de Munique, 3!), suando em bicas, tentando acompanhar os movimentos de um frenético Justin Bieber na dancinha do Xbox One.

E, assim, se perguntar à criançada o quanto eles se divertiram na festinha, é capaz que respondam: “Demaissss!”, mas vou sempre acrescentar um “s” no fim para dizer como me senti. Na volta pra casa, eu estava falante, bochechas vermelhas, rindo à toa: tinha brincado mais que qualquer um naquele quarteirão.

Isso me fez pensar. Os jogos foram inventados, 2.600 anos antes de Cristo, e foram sendo brincados ao longo dos séculos seguintes, a princípio, por adultos. É comum ler em livros e ver em filmes sobre períodos antigos da História em que a nobreza se reunia com frequência para jogar e que era através de jogos e danças que as mulheres eram apresentadas a seus pretendentes, por exemplo. Assim, foram criados jogos de tabuleiro, de cartas e os esportes.

Mas, na sociedade em que vivemos, os jogos e brincadeiras foram ficando relegados às crianças. É raro ver adultos se reunindo para jogar. E, mesmo assim, há os jogos vistos como “aceitáveis” pelos adultos (poker e buraco, por exemplo) e outros que já são tachados de infantis. O lúdico é visto como algo ridículo.

Leio agora que, na Idade Média, quando a Igreja Católica controlava o pensamento e a moral de forma bem rigorosa, muitos jogos foram condenados como algo imoral e vergonhoso. Pois bem, caiu o conceito de imoral, mas persistiu a vergonha. Agora, brincar é infantil e um adulto que entre na roda está fazendo papel de bobo.

Quem perde com isso? Quem não se dá ao prazer de brincar. De sair de uma festa com as bochechas coradas, a testa brilhando de suor, e uma euforia indescritível no peito.

Esta época de Natal costuma vir com uma brincadeira a tiracolo: o amigo-oculto (ou secreto, em algumas regiões do país). Vale entrar de cabeça no jogo, usar a criatividade, tornar o evento menos burocrático e mercadológico e mais lúdico. E que tal se os adultos experimentassem se reunir, de vez em quando, só para brincar? Vale ser jogos de tabuleiro, de cartas, mas também os clássicos Pedro-Paulo e outros que mexem com a memória, a língua e a interação.

Acho que muitos problemas de estresse, fadiga, tédio e demência seriam amenizados se pudéssemos resgatar o prazer e o lazer dos jogos em nossa adultice excessivamente séria e chata.

80 minutos com quatro atores geniais

Para ver no cinema: DEUS DA CARNIFICINA (Carnage)

Nota 7

 

O filme se passa em praticamente um só cenário (sala de estar da casa), que muito pouco se alterna com mais quatro (hall do elevador, cozinha e banheiro da casa e um parque da cidade).

Seus personagens são dois casais, que passam o filme inteiro discutindo a briga entre os filhos. Como em outros filmes com a mesma premissa, como o ótimo chileno “Na Cama“, o assunto inicial vai se desdobrando em vários outros conflitos, ao longo dos 80 minutos de duração.

Para conseguir essa proeza, Roman Polanski teve que contar com quatro indiscutivelmente excelentes atores, que interpretam personagens bem diferentes entre si e bem delineados (também plausíveis, porque conheço gente com todas aquelas personalidades). Vamos conhecendo cada um ao longo do filme e eles são defendidos com drama, mas principalmente muito bom humor.

O melhor é o Alan, feito pelo sensacional Christoph Waltz, que impressionou o mundo com a atuação em Bastardos Inglórios (e ganhou um Oscar por isso). Ele é demais.

Mas também temos John C. Reilly (de Chicago e tantos outros), Kate Winslet (Oscar por O leitor e indicada por outros cinco filmes) e Jodie Foster (dois Oscar na bagagem).

O filme só não merece nota 10 porque as conversas que o carregam por 80 minutos não têm muita profundidade, nem tanta graça assim. Faltou melhorar o argumento.

Mesmo assim, guardei dele, além das risadas, uma reflexão bem interessante:

quanto mais crescemos, mais complicados nos tornamos, com todas as nossas regras morais, autoafirmações, rancores guardados há anos, velhas mágoas e ressentimentos empoeirados, hipocrisias sociais, vícios, manias, convenções e incompatibilidades. Crianças são capazes de dar um murro umas nas outras e, no dia seguinte, estar de bem de novo, seguindo a vida com leveza.

Ou seja: viver é agregar fardos pesados e o desafio do envelhecimento é conseguir libertá-los, em busca de uma alma leve de criança.