Luzes do passado para o obscuro futuro

Tenho certa obsessão com a ideia de que estou perdendo memórias. Não é raro eu achar que lembrei de algo e essa lembrança entrar numa atmosfera de sonho tão grande que começo a duvidar de que realmente lembrei e pensar que estou inventando. Por exemplo: será que eu colocava meias mesmo, toda vez que ia nadar de pé-de-pato? Eu me lembro vagamente disso, e que seria para evitar as bolhas e calos da nadadeira, mas, quando começo a imaginar uma meia molhada na beira da piscina, a lembrança começa a parecer surreal demais.

O mesmo acontece com brincadeiras que eu supostamente brincava no pré-primário (era mesmo meninas contra meninos, numa espécie de “briga” diária no pátio do Barão?), com amizades que supostamente tive (eu tinha mesmo uma dupla de amigos em que eu dava caneladas de vez em quando e que, apesar disso, me adoravam? Que doideira!), e até mesmo com coberturas que fiz — e olha que elas são bem mais recentes. Tenho que ficar remexendo no meu portfólio para confirmar se foram verdadeiras ou não.

Por isso tenho também esse cuidado excessivo com arquivos. Todas as reportagens que fiz estão arquivadas e com backup, todos os vídeos que editei, as fotografias são incontáveis, e, desde que sei escrever, anoto os acontecimentos mais importantes do dia em um diário ou agenda (mas é claro que nunca os releio; quem sabe quando me aposentar). Também gosto de anotar os filmes que vi e os livros que li durante o ano, além dos presentes que me deram de aniversário e de Natal. E até este blog, em sua seção “Memórias”, não deixa de ser mais um recanto para guardar minhas sombras cerebrais.

Pode ter um aspecto de TOC esta minha mania, mas prefiro acreditar que é aquela minha coisa com o tempo. Tenho a vontade secreta de capturar o tempo, de enjaulá-lo e poder recorrer ao passado sempre que me der vontade ou me cansar do presente. E meu passado já teve tanta experiência, tanta aventura!, seria um crime esquecê-las. Talvez por ter essa obsessão (segunda vez que uso a palavra no post, vixe!) com o tempo e com o passado é que eu nunca me conforme com o potencial de minha memória e o jeito um pouco estranho como ela parece funcionar.

Mesmo com as várias decepções, desilusões, traições e enganações que ocorrem ao longo de uma vida, considero o passado um tesouro inestimável. Acho que devemos carregar nossa criança sempre dentro da gente, como na música de Milton Nascimento. Deixar os sonhos dessa criança disponíveis para consulta, para serem realizados aos poucos, ao longo da vida adulta. Talvez seja a maneira de nos mantermos sempre jovens, na cabeça e na vontade de viver e de seguir em frente no obscuro futuro. Com nossas luzes do passado devidamente visíveis, assim como as estrelas — ou nosso reflexo no espelho.

Tirinha de Liniers / http://www.macanudo.com.ar/2014-07-17

“Quando nos olhamos em um espelho, a vista viaja a 300 mil km por segundo. O cérebro interpreta o que recebeu pelo olho. Isso demora alguns milésimos de segundo. Assim, o que vemos em um espelho é nós mesmos… um pouquinho mais jovens.” \o/  Tirinha de Liniers / http://www.macanudo.com.ar/2014-07-17

Leia também:

Anúncios

Deixe aqui seu comentário! ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s