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Os nados e pensamentos longos, o frio na barriga e o tendão arrebentado

Um dos poucos registros que tenho como nadadora, aos 14 anos

Como vocês ficaram sabendo ontem, não nasci para o mundo da ginástica olímpica (fico imaginando como seria se eu tivesse entrado no balé…). Assim, logo troquei aquelas barras e cavalos pelas raias da piscina.

Àquela altura, eu já sabia nadar. Fiz aulas quando tinha uns seis anos de idade, em um clube cujo nome minha memória já não alcança mais, junto com meu vizinho e então melhor amigo Vítor. Sempre amei piscina, era uma verdadeira peixinha! Ainda aos seis, meus pais me inscreveram na lista de espera para a natação do Minas Tênis Clube e só fui chamada três anos depois (lá é assim mesmo… Mas tem uma das melhores equipes de natação do Brasil).

Fiz o teste, passei, larguei a ginástica, comecei a nadar minhas duas vezes por semana. Algum tempo depois, não me lembro mais quanto, passei no teste para a “pré-equipe”, que tinha aulas três vezes por semana e tinha os aspirantes a entrar para a equipe.

E foram incontáveis os testes que fiz para a equipe propriamente dita, sendo sempre recusada. Algumas vezes eu ficava frustradíssima, porque achava que tinha ido super bem no teste, noutras eu já sabia que não, noutras minha autoestima já estava bem abalada e eu acabava chorando de tristeza. (Impossível não associar aos vários outros testes que temos que fazer na vida profissional, em busca de uma vaguinha do mercado de trabalho, né?)

Por fim, quando eu tinha 13 anos, passei. Fiquei nas nuvens, àquela altura em nem achava mais que ia passar algum dia. Para comemorar, eu e meu pai fomos a uma lanchonete que existia em uma esquina perto de casa, que hoje é uma loja de tintas. Lembro que comi um sorvete em formato de espaguete, com calda de chocolate simulando o molho.

Os treinos eram duros, e isso porque eu estava na equipe B, que ralava — e competia — bem menos. A gente entrava às 18h, fazia vários exercícios de alongamento e aquecimento e caíamos n’água para nadar entre 5 e 7 km, até as 21h. De segunda a sexta, sem exceção, fizesse chuva ou frio. E ainda havia um treino opcional de madrugada, que, graças a deus, nunca quis fazer (yes, tenho uma vida!). O técnico era o Luís Alberto e ele era bem exigente.

Alguns dias eu enchia o saco, ficava exausta, mas na maior parte das vezes gostava, principalmente dos nados longos, quando eu ficava mais de um quilômetro para lá e para cá, perdida com os meus pensamentos. Pensei muito nesse período. Era como se eu entrasse em um transe, deixasse meu corpo lá, se exercitando, e minha cabeça pairasse acima dele, em outro universo.

Dos tiros eu gostava menos, principalmente porque nunca estive entre as mais velozes da turma.

Mas eu gostava de competir. Ficava com um frio na barriga logo antes, bem nervosa mesmo, naquela tensão antes de ouvir o apito. Dava o melhor de mim. Geralmente não subia no pódio, mas também não era a última. O que me interessava era olhar para o placar e ver que meu tempo tinha sido um pouco menor do que meu tempo anterior, que eu estava progredindo dentro das minhas próprias capacidades, independente de como iam os outros. (Trago essa filosofia comigo até hoje, no jornalismo e em tudo, embora algumas pessoas me achem competitiva.)

Outras coisas que lembro desse período: eu odiava ter que ir a festas de 15 anos, eu não tinha muitos amigos na natação, porque considerava todos um bando de aborrecentes mauricinhos, eu comia igual a uma cavala e era magriiiinha (chegava em casa e batia um pratão de banana amassada com Neston, leite e Toddy todo dia :D), toda sexta eu ficava lá na lanchonete do clube com o meu pai, ele tomando cerveja, eu comendo chips e nós dois assistindo às partidas de tênis das quadras em frente e conversando sobre tudo (tive grandes aulas de jornalismo e história ali), fiquei nas nuvens quando minha mãe comprou para mim o uniforme térmico do clube, que era o olho da cara, quando íamos à praia, eu ficava nadando lá no “fundão” do mar, além das bandeirinhas vermelhas, pra lá e pra cá, a perder de vista, eu fazia mal os exercícios de alongamento com a borrachinha, porque logo no início me disseram que eram eles que deixavam nossos ombros largos…

Essa minha história durou pouco.

Logo fui fazer um intercâmbio de cinco meses, onde as duas opções de almoço eram pizza ou hambúrguer e não havia lugar para treinar, voltei oito quilos mais gorda (ou seja, passei de 48 kg para 56 kg, com 1,67 m… Bons tempos aqueles :D), o técnico acabou comigo, resolvi passar as férias de julho inteiras me arrebentando de treinar e aí, literalmente, arrebentei o tendão do meu ombro direito.

Não houve seis meses de fisioterapia que o consertassem, eu não queria entrar na mesa de cirurgia, então me aposentei dessa vida de atleta, aos 15 anos.

(TO BE CONTINUED ;))

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

8 comentários em “Os nados e pensamentos longos, o frio na barriga e o tendão arrebentado Deixe um comentário

  1. Cris, o Clube em que você aprendeu a nadar não era o Recreativo? E a lanchonete onde fomos comemorar com o sorvete em forma de macarrão ainda existe. (A loja de tintas é na esquina do outro lado da avenida, você pode conferir isso amanhã…) E eu era um pai malvado: ia te buscar a pé depois do treino de sete quilômetros, e você ainda tinha que voltar para casa andando mais um quilômetro…

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    • Nada, várias vezes você me buscava de carro — e ainda dava carona para minha única amiga lá, a Paula.
      Eu treinei natação em algum clube desconhecido, e o professor era o pai do Vítor, que nos levava e buscava. No Recrecrê eu só brincava na piscina, mas não cheguei a ter aulas lá…

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  2. “sorvete em formato de espaguete, com calda de chocolate simulando o molho”.

    Estou aqui tentando visualizar isso…rs

    Mas sua rotina de treinos era bem dura, pesada… não sei se é competitiva, mas teve uma rotina de treinos voltada para competição mesmo.

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    • Era sim, o tempo todo éramos estimulados a competir. Tínhamos vários exercícios de tiros e competições durante o próprio treino, simulando as competições reais, que também eram bastante frequentes. Outra coisa é que, nas provas, geralmente os melhores de cada modalidade eram escalados para o revezamento de medley. Isso também era um estímulo à competição, porque acaba se formando uma panelinha dos “melhores”, da galera que sempre ganhava. Como nunca estive entre os melhores, nunca era escalada. Lembro de uma vez, em que eu estava no auge da minha forma física, e fiz o melhor tempo de borboleta, se não me engano. Mas, por não fazer parte da panelinha, o técnico não me colocou no revezamento, apesar de o critério ser o menor tempo. Isso me desestimulou muito e a partir daí parei de dar muita importância às competições com os outros e comecei a me focar no meu próprio tempo.
      (Também me desanimou a percepção de que às vezes sou incapaz de gritar contra injustiças cometidas contra mim; geralmente me fecho e fico tímida nesse tipo de situação.)
      Acho que não há problema em sermos competitivos, isso pode ser até positivo em vários sentidos, para sempre querermos melhorar um pouco. Mas a competição pura e simples não me diz muito. Acho que leva as pessoas a quererem pisar nas outras para chegar a algum lugar, e isso não faz meu gênero.

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  3. Por isso não gosto da ideia de crianças em esportes competitivos. Mesmo adolescentes.

    Vá lá que com bom acompanhamento psicológico se consiga evitar tanto os excessos da competitividade quanto efeitos deletérios das frustrações da derrota; mas as lesões físicas acampam com a saúde dos jovens atletas.

    A quantidade de crianças que ficam parcialmente incapacitadas deve ser significativa.

    []s,

    Roberto Takata

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