Lacre na boca

Quantas horas uma pessoa consegue ficar em silêncio?

Ontem eu me perguntava isso, enquanto lia, antes de dormir pela quarta vez no dia, com a boca cerrada há várias horas, escondendo um hálito provavelmente podre, exalado pela mucosa infeccionada da garganta.

Tentei me lembrar quando havia falado algo, em voz alta, nesta segunda. Lembrei de todas as ocasiões:

Às 9h30, quando acordei com um telefonema de uma amiga preocupada, numa conversa que durou poucos segundos. Às 10h43, quando recebi um telefonema do jornal, numa conversa que durou só o tempo de eu dizer que não me sentia bem. Às 13h, quando acordei com outro telefonema do jornal, para responder a uma pergunta, em uma frase de cinco palavras, contando os artigos definidos. Às 15h, quando desci para pegar meu almoço, dei boa tarde ao Silvânio, o porteiro, e agradeci ao entregador. Às 18h, quando acordei com outro telefonema do trabalho e conversei por mais tempo, uns dois minutos. Meia hora depois, quando atendi o telefonema de um amigo de Beagá, também preocupado, mas por outras razões, em conversa que deve ter durado um minuto.

Excepcionalmente, não falei sozinha 🙂

Assim, cheguei às 22h com cerca de quatro minutos de aspas no meu repertório diário e já por mais de três horas com a boca cerrada.

Do meu apezinho, ouvi pouco movimento externo, com as duas janelas fechadas. Alguns carros e motos, um alarme disparando no meio da tarde, nenhuma música, muito menos som de pássaros piando. Nenhuma outra voz. Tampouco liguei o som — nem para ouvir meu mais novo CD de swing blues.

Assim, terminei o dia com o barulho intenso dos meus pensamentos. Eles se fazem ouvir de forma muito mais estrondosa quando estão imensos num organismo calado. Impõem-se, constroem tijolos. Durante os sonos perturbados, viram sonhos perturbadores e aventurosos. Durante o alerta, viram inconveniências.

Assim, passei o dia muda e, paradoxalmente, cheia de vozes em burburinhos de diálogos paralelos. Calada, mas com os dedos agitados, sem parar de escrever, nas horas em que me sentei ao computador.

Se você foi uma das vítimas dos meus emails de ontem, peço desculpas.

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