Poetas excluídos

(Foto: CMC)

Eu que passo pela casa e

na porta entreaberta

vejo música.

Um piano delicado que me olha

(me ignora)

mas eu rio.

E espio e espero

pela porta.

Não se importa (enquanto escuto deslumbrada).

Assustada, chega a dona

e tranca a porta!

(e me corta.)

Vou-me embora

muito embora não entenda.

 

Que mal há em ouvir a música dos outros?

Que mal há em olhar o vizinho pelos olhos?

(Bem nos olhos.)

Em soltar os ouvidos pela aorta,

invadir espaços,

derrubar as portas?

 

As pessoas não mais vivem:

elas correm,

elas trotam trotam trotam.

Não se importam.

Que importa tocar piano pra si mesmo?

Fazer poemas pra si mesmo?

Olhar apenas pra si mesmo?

 

A árvore da praça me existe há quinze anos

e nem sei seu nome.

Mas, mesmo assim, sei que é a mais bonita.

(09/05/2006)

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