Um CD dos Beatles sob encomenda

Esse pianista tocando um Ticket to Ride tão gostoso e jazzístico é o premiadíssimo mineiro Túlio Mourão. Ele vai lançar um CD só com músicas dos Beatles, que vai ficar pronto em dezembro.

Para isso, ele lançou um projeto de crowd funding (“vaquinha”), em que os fãs e potenciais consumidores contribuem com um dinheirinho para que o CD seja produzido. Mas o legal desse projeto dele é que, ao contribuir com uma quantia pré-determinada, a pessoa escolhe o que quer ganhar em troca, como recompensa.

A tabela é a seguinte:

Apoiar com Recompensa:
R$ 30,00 Você recebe um CD autografado, enviado pelo correio para sua casa!
R$ 50,00 Você recebe dois CDs autografados, enviados pelo correio para sua casa!
R$ 70,00 Você recebe um CD autografado e ingresso para o show de lançamento em BH (local ainda a ser definido), que será realizado em dezembro de 2014.
R$ 130,00 Você recebe 5 CDs autografados (enviados para o seu endereço pelo correio). Opção perfeita para presentear os amigos no Natal! Além disso, você também entra nos créditos de agradecimento do CD.
R$ 280,00 Você recebe 10 CDs autografados (enviados para o seu endereço pelo correio). Essa é pra você que tem muitos amigos que gostam de Beatles, ou uma pequena empresa e quer presentear seus funcionários ou parceiros. Seu nome entra nos créditos de agradecimento do CD.
R$ 1.500,00 Você recebe 50 CDs, com capa especialmente confeccionada para se transformar no brinde de final de ano da sua empresa! Seu nome e o nome da sua empresa entram nos créditos de agradecimento do CD.
R$ 7.000,00 Você recebe 100 CDs, com capa especialmente confeccionada para se transformar no brinde de final de ano da sua empresa, além de um show exclusivo para seus funcionários, amigos e colaboradores! (a oferta cobre os custos de cachê do grupo, e você será responsável por providenciar transporte, hospedagem e alimentação do grupo, além de palco, luz, sonorização e todos os itens necessários para a realização do show). Seu nome e o nome da sua empresa entram nos créditos de agradecimento do CD.

Eu acabo de contribuir com R$ 30 e vou ganhar, em troca, um CD entregue na minha casa, em dezembro. Se você for mais endinheirado, pode contribuir até com R$ 7.000 😉

Para participar, basta acessar AQUI, escolher a quantia, a forma de pagamento (cartão, boleto ou débito bancário) e preencher seus dados. Todo o processo não leva nem três minutos.

Fica a dica! Inclusive porque o Natal está aí e você já pode ir encomendando os presentes, hein! 😉

beatles

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O show

Texto de José de Souza Castro:

O teatro estava quase lotado. Era grande. Parecia um cinema de antigamente. Eu estava sentado quase no meio da platéia. Na frente da minha fileira havia uma passagem. Duas fileiras mais adiante, um homem se levantou. Estatura mediana, uns trinta anos de idade. Tinha um microfone sem fio na mão.

Achei que ia começar a cantar.

Mas outro homem de barba preta levantou-se, duas fileiras à frente, e começou a fazer barulho com um enorme bumbo. O homem do microfone ficou irritado. Logo se impacientou. Pisando sem se desculpar nos pés dos espectadores, saiu da fileira de cadeiras e se dirigiu ao homem da barba preta, quase correndo. Diante do importuno, ameaçou-o com socos, como se fosse boxeador.

O homem parou de tocar e se sentou. O outro se apressou para voltar à sua poltrona. Enquanto caminhava, vi que pelas costas não passava de um gordinho de braços finos. E um tanto confuso. Em vez de entrar na sua fileira, entrou uma antes. Quando percebeu o engano, pulou com agilidade imprevista sobre o ombro de duas pessoas.

Ele vai cantar agora, pensei, quando o gordinho finalmente chegou ao seu lugar e não se sentou. Porém, os dois que estavam de cada lado do homem do microfone se levantaram. E os cinco, em fila indiana, saíram pela direita, atropelando os que continuavam sentados, deram a volta por trás e voltaram ao mesmo lugar, pelo outro lado, desajeitadamente. Enquanto caminhavam, faziam ruídos que pareciam o coaxar de sapos. Quando se sentaram, começou um novo barulho, ali perto, mais à direita.

Era um homem batendo ritmadamente na barriga de uma imensa imitação de sapo, como se fosse um tambor. E então foram surgindo enormes sapos, do tamanho de um homem, e correram ameaçadores para aquele que, sem piedade, tirava uma espécie de música da barriga do sapo. Fez-se silêncio, até que se ouvisse um grito: “Filho da puta!”

Voltei-me em busca da fonte do grito: era um homem grandalhão, sentado três fileiras atrás da minha. O xingamento pareceu ter ofendido um dos homens sentados ao lado daquele do microfone. Ele se levantou e, pulando as fileiras, se acercou do grandalhão. E sentou-se tranquilamente, na cadeira ao lado.

Agora as risadas se tornaram mais altas. Sem dúvida, tudo aquilo fazia parte do show.

E o show ia começar de verdade. O homem do microfone se dirigiu apressado para o palco, seguido pelos que estavam ao seu lado. Havia lá um piano, quase encostado à parede. Ele foi se sentar na banqueta, mas ela caiu e ele desabou no chão. Tentou de novo. Mais um tombo sonoro. E risadas da platéia. Encostou-se então na parede, puxou a banqueta e sentou finalmente, com os pés apoiados no piano. E começou a produzir música com os pés calçados. Uma música maravilhosa!

Vi então que a música não saía apenas por obra dos pés do homem do microfone. De cada lado, havia dois outros pianistas que completavam os acordes, com as mãos ágeis. O som foi aumentando, aumentando, e se transformou numa insistente buzina. Tocada na rua por um mal-educado, às três da madrugada, cinco andares abaixo.

Poetas excluídos

(Foto: CMC)

Eu que passo pela casa e

na porta entreaberta

vejo música.

Um piano delicado que me olha

(me ignora)

mas eu rio.

E espio e espero

pela porta.

Não se importa (enquanto escuto deslumbrada).

Assustada, chega a dona

e tranca a porta!

(e me corta.)

Vou-me embora

muito embora não entenda.

 

Que mal há em ouvir a música dos outros?

Que mal há em olhar o vizinho pelos olhos?

(Bem nos olhos.)

Em soltar os ouvidos pela aorta,

invadir espaços,

derrubar as portas?

 

As pessoas não mais vivem:

elas correm,

elas trotam trotam trotam.

Não se importam.

Que importa tocar piano pra si mesmo?

Fazer poemas pra si mesmo?

Olhar apenas pra si mesmo?

 

A árvore da praça me existe há quinze anos

e nem sei seu nome.

Mas, mesmo assim, sei que é a mais bonita.

(09/05/2006)