Crônica da delegacia

Ela chegou meio trêmula, sem saber muito bem como se expressar. O policial pediu o número do documento.

“Não sei de cor não”, disse, sorrindo nervoso. “Nem sei ler.”

Pegou o RG e estendeu ao homem. Analfabeta, negra, moradora de um bairro da periferia da zona leste paulistana, como me contou depois, na sala de espera.

“Meu vizinho foi e ameaçou meu marido, sabe? Falou que matava ele todinho, sem deixar rastro. Eu fiquei com medo pelo meu marido, nem dormi naquela noite. Só por isso procurei a polícia”, disse, como que pedindo desculpas por ter ido fazer seu primeiro boletim de ocorrência.

O vizinho ameaçara o marido por um motivo trouxa qualquer, algo a ver com o muro da casa. “Briga de vizinho, sabe?”

O fato é que ela fez um B.O. contra o vizinho. Não sabia quem ele era. Ficou surpresa quando, no dia seguinte, a polícia o prendeu, por causa da denúncia que ela fez.

“É que ele tinha matado uns caras lá na terra dele, no Nordeste, e fugiu pra cá. Era foragido da polícia, né?”

Agora ela vinha à delegacia porque ele estava prestes a ser solto da cadeia. E ela tinha medo de ele querer se vingar.

“Se eu soubesse que ele era procurado da polícia, não teria denunciado! Não sou cagueta“, disse, retorcendo as mãos suadas.

O que mais a afligia era que a vizinhança a olhasse torto, como todos olham aos dedo-duros. Ela preferia ter convivido com o vizinho ameaçador, sem polícia no meio, a ter que aturar os olhares duros de todos os demais vizinhos.

“Não sou cagueta”, repetiu, várias vezes.

Logo mais, foi pedir a proteção ao delegado, já que não tem para onde ir. Não sei o que ele disse a ela, só sei que ela saiu esbravejando alto, um monte de palavrões impublicáveis.

Deduzi que eu não veria aquela moça nunca mais.

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