Há um Jair Bolsonaro entre meus vizinhos?

Muito se tem falado da resposta que o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) deu a Preta Gil no bloco O Povo Quer Saber, do CQC.

Ela perguntou: “Se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?”

E ele respondeu: “Ô, Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco e meus filhos foram muito bem educados. E não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu.”

Depois, para corrigir a resposta, ele disse que tinha entendido Preta perguntar como ele reagiria se tivesse um filho gay.

Quer dizer, tudo bem chamar um gay de promíscuo.

A briga dele com os gays é antiga, com os negros é que era novidade. Vale a pena ler outros trechos da entrevista que ele deu, e não apenas a última frase:

Quem é seu guru na política?
Eram os militares, que foram presidentes do nosso país.
O que você acha da Dilma?
Pelo passado dela, sequestros, roubos, por mim não seria jamais presidente da República.
Você está com saudades do Lula?
De jeito nenhum, né. Eu tenho saudade de pessoa séria. Do Médici, do Geisel, Figueiredo…
Do que você tem mais saudade na ditadura?
Do respeito, da família, da segurança, da ordem pública, das autoridades que exerciam autoridade sem enriquecer.
O sr. é a favor que o Brasil tenha a bomba atômica?
Olha, só é respeitado quem tem o poder de intimidar. Se o Irã pode ter segundo o Lula, né, nós até poderíamos marchar para isso.
Continua achando que o FHC deveria ser fuzilado?
Foi uma força de expressão na época, né, mas, realmente, no tocante à privatização da Vale do Rio Doce, ele se comportou como um traidor da pátria.
O que você faria se pegasse seu filho fumando “unzinho”?
Eu daria uma porrada nele, pode ter certeza disso.
Torturaria ele?
Agir com energia é torturar? Então vai ser “torturado”.
O que você faria se tivesse um filho gay?
Isso nem passa pela minha cabeça porque tiveram uma boa educação. Fui um pai presente, então não corro esse risco.
No exército tinha muita viadagem?
No nosso meio o percentual é muito pequeno, mas são tolerados e respeitados. Logicamente aquele que aparecer tem o tratamento devido de acordo com a legislação militar.
Se te convidarem pra sair num desfile gay, você iria?
Eu não iria porque eu não participo de promover os maus costumes. Até porque acredito em deus, tenho uma família, e a família tem que ser preservada a qualquer custo. Se não uma nação simplesmente ruirá.
Porque o sr. é contra as cotas raciais?
Porque todos nós somos iguais perante a lei. Eu não entraria num avião pilotado por um cotista. E nem aceitaria ser operado por um médico cotista.
Quantos chefes negros você já teve?
Eu nem conto, né, não dou bola pra isso.

A mim não me parece espantoso que um homem tenha todo esse discurso a favor da ditadura, da bomba atômica e radicalmente contrário aos gays.

O que me espanta, de verdade, é que ele esteja sendo conduzido ao poder sistematicamente, desde 1991. Na última eleição, com mais de 120 mil votos.

Quer dizer, ele encontra eco em uma parte grande da sociedade brasileira. Assim como o Ku Klux Kan ainda encontra espaço nos Estados Unidos. Ou o Tea Party, que é mais forte e atual. E o extremismo de direita ainda encontra espaço na Europa, inclusive na Alemanha, mesmo depois de tudo o que a história lhes ensinou (nessas horas vale rever o excelente filme “A Onda”). Ainda existe, afinal de contas, a TFP no Brasil.

Quem são as 120 mil pessoas? Estarão entre os meus vizinhos? É isso que eu queria saber.

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