Como funciona minha desmemória (para os cientistas e quem possa se interessar)

mente-vazia

Ontem comentei aqui sobre minha desmemória. Já falei disso em alguns posts, a pinceladas, mas nunca me aprofundei. Acho que porque eu mesma não entendo muito bem como minha memória funciona, só sei que ela é bem atípica. Para algumas coisas, como números e endereços, ela chega a ser espantosamente boa. Mas para outras, mais importantes, como rostos, nomes e acontecimentos, ela é terrível.

Já cheguei a deletar pessoas inteiras da minha vida — com direito a tudo o que vivemos juntos –, a ponto de ver várias fotos ao lado daquela pessoa e não saber ao certo qual era o seu nome. Por outro lado, lembro de uma vez que minha avó me pediu para guardar um telefone, que ela ligaria para a pessoa dois minutos depois. No dia seguinte, recém-acordada, ouvi do quarto minha avó falando em outro cômodo que não tinha anotado o telefone que tinha pedido pra eu guardar na véspera e precisava dele. E eu gritei todos os números, um atrás do outro, certinhos, guardados até 24 horas depois…

Se fosse pra fazer um desenho da minha memória, faria em forma de várias gavetas simetricamente organizadas, mas com sistema de autolimpeza, tipo descarga ou liquidificador. Elas até guardam bem e de forma metódica, mas de repente se esvaziam sem deixar vestígios, caso meu cérebro decida que eu preciso guardar coisas mais preciosas no lugar.

Enfim, minha desmemória seletiva não chega a ser um problema para o cumprimento das minhas obrigações diárias, porque criei meu próprio método de anotar tudo e guardar as coisas sempre nos mesmos lugares. Cheguei a uma situação que me proporciona, hoje, lembrar até mais do que a média das pessoas. Quando ainda atuava como repórter, anotava até os detalhes de cenário das apurações, gravava tudo e, não raro, também fotografava algumas coisas, para poder usá-las depois no texto final. A gente vai aprendendo a contornar nossos problemas…

(Mas, se eu fosse bem rica, ia pagar pra algum cientista fodão estudar o funcionamento da minha memória. Esse assunto, junto com os sonhos/pesadelos e o tempo, é um dos que mais me interessam no universo. Aliás, me ofereço de cobaia caso algum pesquisador já esteja trabalhando com desmemoriados ou pessoas com descarga na memória ;))

Dito tudo isso, ontem à noite eu estava lendo aquele livro do Paulo Leminski, que tenho lido aos pouquinhos, junto de outros, e encontrei mais um poema que achei a minha cara. Compartilho abaixo:

saudosa amnésia

Memória é coisa recente.

Até ontem, quem lembrava?

A coisa veio antes,

ou, antes, foi a palavra?

Ao perder a lembrança,

grande coisa não se perde.

Nuvens, são sempre brancas.

O mar? Continua verde.”

É isso aí. As coisas e pessoas realmente importantes — como as nuvens e o mar, minha família e meu amor, e alguns amigos e lugares muito seletivos –, estas, eu nunca esqueci 🙂

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4 comentários sobre “Como funciona minha desmemória (para os cientistas e quem possa se interessar)

  1. para toda nova informação que surgir, experimente tentar fazer 2 ou 3 associações com o que vc conhece na hora, do tipo “fulano chama x, x é o nome do meu sobrinho e o nome de um personagem do livro y”. Não é uma bala de prata, mas… 😉

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  2. Oi, Kika! Acho que tenho uma memória (ou desmemória) parecida com a sua. Tenho uma grande facilidade para memorizar números, como telefones, datas em geral (históricas, de aniversários, de lançamento de filmes etc) e matrículas (as minhas e as dos colegas de trabalho).

    No entanto, tenho um grande problema para “reconhecer” pessoas que não vejo há muito tempo, nesses encontros casuais em shoppings e dentistas. Eu olho para a pessoa e até tenho a sensação de que a conheço, mas não faço ideia de qual seja o seu nome ou “de onde” ela é.

    Ao longo dos anos, descobri que eu preciso de um “contexto”. Por exemplo, depois que terminei o colégio, notei que não reconhecia vários colegas que estudaram comigo na mesma sala porque as reencontrava “fora do colégio” e “sem farda”, então perdia a referência. De modo parecido, sempre que vejo o namorado ou namorada (de alguém que conheço) “sozinho”, perco o contexto do “casal” e termino sem lembrar quem a pessoa é. Já quando encontro os dois “juntos”, sou capaz de lembrar o nome, a data de aniversário, onde trabalha etc. Ou seja, eu sempre associo a pessoa a um determinado ambiente e a outras pessoas e termino dependente deste “cenário”.

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    • Oi, Cintia! Esse contexto ajuda muito mesmo! Por exemplo, vira e mexe vejo alguém na rua e tenho certeza que conheço, mas não lembro de onde. Depois descubro que era o funcionário da padaria do bairro, por exemplo, mas que estou acostumada a ver usando um uniforme, dentro do estabelecimento, e não com uma roupa qualquer, cabelos soltos, a quilômetros de distância, rs.

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