30 memórias com minha mãe (e um exercício para você fazer)

Quadro de Van Gogh.

Quadro de Van Gogh.

Dia desses minha mãe leu o livro “Quase Memória“, de Carlos Heitor Cony, que li há mais de 10 anos e do qual pouca coisa me lembro. Depois de terminar a leitura, ela escreveu para mim e meus irmãos: “Gostaria que vocês tivessem boas memórias de mim, como as que o Cony guarda do pai dele.”

Pouco depois, assisti àquele filme “Juventude”, de que falei aqui no blog. E aquela frase do protagonista do filme, também sobre a memória, me marcou tanto.

Neste domingo, 8 de maio, comemoro meu primeiro Dia das Mães de verdade (no ano passado até comemorei, já barrigudinha, mas ainda não tinha a menor ideia do que era ser mãe. Então foi uma comemoração café-com-leite). Ou seja, é o primeiro em que sou tanto filha quanto mãe. E me peguei pensando na frase do filme e na frase que minha mãe nos escreveu…

Resolvi, então, fazer um pequeno exercício de memória (com minha desmemória). Tentar lembrar de algum momento vivido com minha mãe a cada ano da minha vida. Um momento qualquer, não precisa ser nada espalhafatoso: um pequeno instante de amor ou de graça, que geralmente é contido nos gestos mais singelos mesmo. Para minha mãe perceber que, sim, ela também nos imprime diversas lembranças, assim como o pai do Cony deixou para ele. E para eu perceber que, apesar de ser verdade o que o filme me mostrou com tanto assombro — que nos esquecemos até dos momentos mais especiais e deliberados –, ainda há muitos tesouros guardados dentro da gente, daqueles que não me arrancam nem com lobotomia.

Aí vai, querida mamãe. Um presente de Dia das Mães. Pequenas memórias que guardo como tesouros (com datas aproximadas, porque meu cérebro não é muito informatizado, não). Você se lembra delas também? 😉 Continuar lendo

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Como funciona minha desmemória (para os cientistas e quem possa se interessar)

mente-vazia

Ontem comentei aqui sobre minha desmemória. Já falei disso em alguns posts, a pinceladas, mas nunca me aprofundei. Acho que porque eu mesma não entendo muito bem como minha memória funciona, só sei que ela é bem atípica. Para algumas coisas, como números e endereços, ela chega a ser espantosamente boa. Mas para outras, mais importantes, como rostos, nomes e acontecimentos, ela é terrível.

Já cheguei a deletar pessoas inteiras da minha vida — com direito a tudo o que vivemos juntos –, a ponto de ver várias fotos ao lado daquela pessoa e não saber ao certo qual era o seu nome. Por outro lado, lembro de uma vez que minha avó me pediu para guardar um telefone, que ela ligaria para a pessoa dois minutos depois. No dia seguinte, recém-acordada, ouvi do quarto minha avó falando em outro cômodo que não tinha anotado o telefone que tinha pedido pra eu guardar na véspera e precisava dele. E eu gritei todos os números, um atrás do outro, certinhos, guardados até 24 horas depois…

Se fosse pra fazer um desenho da minha memória, faria em forma de várias gavetas simetricamente organizadas, mas com sistema de autolimpeza, tipo descarga ou liquidificador. Elas até guardam bem e de forma metódica, mas de repente se esvaziam sem deixar vestígios, caso meu cérebro decida que eu preciso guardar coisas mais preciosas no lugar.

Enfim, minha desmemória seletiva não chega a ser um problema para o cumprimento das minhas obrigações diárias, porque criei meu próprio método de anotar tudo e guardar as coisas sempre nos mesmos lugares. Cheguei a uma situação que me proporciona, hoje, lembrar até mais do que a média das pessoas. Quando ainda atuava como repórter, anotava até os detalhes de cenário das apurações, gravava tudo e, não raro, também fotografava algumas coisas, para poder usá-las depois no texto final. A gente vai aprendendo a contornar nossos problemas…

(Mas, se eu fosse bem rica, ia pagar pra algum cientista fodão estudar o funcionamento da minha memória. Esse assunto, junto com os sonhos/pesadelos e o tempo, é um dos que mais me interessam no universo. Aliás, me ofereço de cobaia caso algum pesquisador já esteja trabalhando com desmemoriados ou pessoas com descarga na memória ;))

Dito tudo isso, ontem à noite eu estava lendo aquele livro do Paulo Leminski, que tenho lido aos pouquinhos, junto de outros, e encontrei mais um poema que achei a minha cara. Compartilho abaixo:

saudosa amnésia

Memória é coisa recente.

Até ontem, quem lembrava?

A coisa veio antes,

ou, antes, foi a palavra?

Ao perder a lembrança,

grande coisa não se perde.

Nuvens, são sempre brancas.

O mar? Continua verde.”

É isso aí. As coisas e pessoas realmente importantes — como as nuvens e o mar, minha família e meu amor, e alguns amigos e lugares muito seletivos –, estas, eu nunca esqueci 🙂

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