30 memórias com minha mãe (e um exercício para você fazer)

Quadro de Van Gogh.

Quadro de Van Gogh.

Dia desses minha mãe leu o livro “Quase Memória“, de Carlos Heitor Cony, que li há mais de 10 anos e do qual pouca coisa me lembro. Depois de terminar a leitura, ela escreveu para mim e meus irmãos: “Gostaria que vocês tivessem boas memórias de mim, como as que o Cony guarda do pai dele.”

Pouco depois, assisti àquele filme “Juventude”, de que falei aqui no blog. E aquela frase do protagonista do filme, também sobre a memória, me marcou tanto.

Neste domingo, 8 de maio, comemoro meu primeiro Dia das Mães de verdade (no ano passado até comemorei, já barrigudinha, mas ainda não tinha a menor ideia do que era ser mãe. Então foi uma comemoração café-com-leite). Ou seja, é o primeiro em que sou tanto filha quanto mãe. E me peguei pensando na frase do filme e na frase que minha mãe nos escreveu…

Resolvi, então, fazer um pequeno exercício de memória (com minha desmemória). Tentar lembrar de algum momento vivido com minha mãe a cada ano da minha vida. Um momento qualquer, não precisa ser nada espalhafatoso: um pequeno instante de amor ou de graça, que geralmente é contido nos gestos mais singelos mesmo. Para minha mãe perceber que, sim, ela também nos imprime diversas lembranças, assim como o pai do Cony deixou para ele. E para eu perceber que, apesar de ser verdade o que o filme me mostrou com tanto assombro — que nos esquecemos até dos momentos mais especiais e deliberados –, ainda há muitos tesouros guardados dentro da gente, daqueles que não me arrancam nem com lobotomia.

Aí vai, querida mamãe. Um presente de Dia das Mães. Pequenas memórias que guardo como tesouros (com datas aproximadas, porque meu cérebro não é muito informatizado, não). Você se lembra delas também? 😉

Eu com uns 3 anos de idade, vestida de joaninha.

Eu com uns 3 anos. Esta foto e as de baixo foram feitas por mim. Clique nelas para ver maior.

1987 – Subo na cadeira da mesa de jantar e falo: “Cê cai, meniiiiiiina!”, imitando o que minha mãe sempre falava para mim, a cada vez que eu, teimosamente, ia galgar esta perigosa alturinha. Ela ri da aventura.

1988 – Estamos em Araxá, que eu chamava de Xarará. Lembro dos cavalos nas charretes, que até então eu só conhecia nos brinquedos de “Moranguinho” das minhas irmãs. Lembro de piscinas quentinhas. Lembro de um hotel de corredores compridos. Antes, eu admirada, dentro do carro, ao ver a neblina pela primeira vez. Minha mãe rindo-se, divertida, de eu chamando a bermuda vermelha de “berrudão”.

Direções para a lua ;)

Direções para a lua 😉

1989 – As voltas do sítio. Eu entrando no carro e, antes de fazer qualquer outra coisa, buscando a “lulua”. Ao vê-la no céu, apontava: “Ó a lulua!”. Luzinhas da cidade que me encantavam, parecendo estrelas no chão. E minha mãe cantava, com uma voz doce: “A lua malcriada quando passa espia da vidraça dos quartos de dormir…”

1990 – Minha mãe lutando para colocar em mim uma roupa que eu detestava, que era branca com umas listrinhas coloridas. Acho que o que eu não gostava nela era o tecido, muito diferente de tudo o que eu conhecia. Para me convencer, ela e minhas irmãs diziam que a roupa era de papel.

1991 – No sítio do tio, uma noite em que dormimos lá (talvez na mesma vez em que minha irmã levou um choque elétrico). Todos reunidos numa rodinha de violão. Minha mãe cantando, sempre com a voz melodiosa. Eu falei com ela: “Adoro sua voz! Você canta tão bem!” E ela ficou toda contente e me beijou.

1992 – A família na Disney. Meus irmãos só queriam ir a montanhas-russas, e eu era muito pequena para ir. Minha mãe ficou comigo e me levou a vários brinquedos “de criança pequena” seguidos. Fez várias fotos (na época foto era um negócio raro), abraçando o Pateta etc. Adorei tudo.

Quebra-mar em Mucuri.

Quebra-mar em Mucuri.

1993 – Nós duas cantando o dia I-N-T-E-I-R-O a música “Agora é Cinza”, lá em Mucuri. A música acabava e a gente emendava: “Chorei por quê?… Agora, desfeito o nosso amor…”. Devia ser 100 vezes por dia, e a gente ria e ria dessa cantoria maluca.

Vista de Tiradentes. (Foto: CMC)

Vista de Tiradentes.

1994 – Em meio às gravações do Menino Maluquinho, fiquei uma semana em Tiradentes. Minha mãe não podia ficar comigo todos os dias, por conta do trabalho. Então as outras mães que estavam lá cuidavam de mim. Mas nos fins de semana ela foi pra lá e passeamos pela cidade. Foi a primeira vez que andei de trem (a maria-fumaça que liga Tiradentes a São João) e achei o máximo!

1995 – Fomos a São Paulo juntas, na primeira vez em que pisei na cidade onde eu moraria anos mais tarde. Achei o máximo o hotel, fiquei pulando no colchão macio e fuçando no frigobar. De lá, fomos para Cabo Frio, porque era feriado de 12 de outubro. Foi uma grande aventura, que conto NESTE POST.

1996 – Todo fim de semana minha mãe me deixava na casa da vovó Rosa e tinha um bolo de banana à minha espera. Às vezes ela ia até lá buscar o bolo pra mim, quando eu não podia ir junto. Era meu bolo favorito! Naquele ano a vovó morreu e lembro que minha mãe ficou inconsolável e praticamente parou de comer. Ela emagreceu vários quilos e não queria comemorar o Natal, que foi apenas dez dias depois.

1997 – Bodas de prata dos meus pais. Minha mãe faz uma grande festa, com videokê, que estava no auge na época. Eu e meus irmãos contratamos de presente outra moda do momento: um grupo que declamava poemas, soltava balões, cantava músicas, tocava violino, essas coisas. Tipo aqueles carros de som com mensagens de amor, mas era mais bonito. Tocam “Fascinação”, que é a música favorita dela, e “Eu Sei Que Vou Te Amar”. Ela se emociona.

Grafite na rua Tomé de Souza, no muro da Escola Estadual Barão do Rio Branco, na Savassi. Fotografado por CMC em 4.1.2015

Grafite no muro da Escola Estadual Barão do Rio Branco.

1998 – Ela falando que seu sonho era que um dos filhos estudasse no Colégio Santo Antônio. Me inscreveu no processo de seleção, que tinha português e matemática. Estávamos confiantes com o português, mas matemática tinha várias questões de geometria, e eu nunca conseguia ter aulas de geometria no Barão. Então ela pagou uma aula particular com minha professora de matemática da escola, a Telminha. Lembro que custava algo como R$ 20 a hora e eram duas horas, então R$ 40. Mas eu tinha entendido que era R$ 20 por toda a aula e fiquei com o maior carão por não ter levado dinheiro suficiente. A professora falou “tudo bem, você me dá o restante depois”, mas fiquei com medo de minha mãe ficar brava por ser o dobro do que eu tinha dito e não contei a ela. Preferi dar o cano na professora a levar bronca da minha mãe…

1999 – Minha mãe estava estudando fora e, depois de vários meses sem me ver, me abraçou no aeroporto e exclamou: “Como está magrinha!” Foi a única vez na vida que ela me disse algo assim, então me marcou muito, hehehehe.

Kika, a cachorrinha mais inteligente do planeta.

Kika, a cachorrinha mais inteligente do planeta.

2000 – Minha cachorrinha Kika morreu, aos dez anos. Eu era doida com ela. E ela, comigo — foi morrer debaixo da minha cama. Chorei sem parar, inconsolável. Minha mãe me levou ao cinema, para me consolar, e vimos o filme “A Lenda do Pianista do Mar”. Lá no extinto Usina. Chorei o filme inteiro. Até hoje tenho medo de rever este filme.

2001 – Matei aula sem querer, distraída batendo papo com as amigas. E eu era super caxias, tinha sido a primeira vez que matei aula. Fiquei com consciência pesada (levava muito em conta isso de eu ter sido a única a estudar em escola particular lá em casa). Cheguei em casa e contei à minha mãe. Ela ficou orgulhosa por eu ter contado e riu bastante.

Divulgação

Foto: Divulgação

2002 – Minha mãe, brava, saindo do quarto: “Seu pai disse que você pegou na locadora um filme pornô pra ver!”. Eu, indignada: “É Psicopata Americano! Não é pornô! Vê se eu ia pegar um filme pornô e esperar o dia todo pra ver com meu pai quando ele chegasse do trabalho!” No dia seguinte, acordo com os dois debatendo o assunto na copa, ponderadamente: “É verdade, na capa do filme nem fala que é pra maiores de 18 anos. Ela não tinha como saber…” E eles entram no meu quarto e ela fala: “Pode continuar assistindo ao filme, Cris.” Eu nem queria, porque tinha achado o filme um saco, mas essa coisa de censura é levada muito a sério lá em casa. Assisti até o fim. (Quem viu “Psicopata Americano” vai entender melhor esta lembrança).

2003 – O primeiro grande porre que tomei na vida, em uma festa da faculdade. Os colegas me trazem em caravana pra casa, com medo da reação da minha mãe, principalmente por eu ter estourado em muito o horário combinado. Ela os recebe muito brava, debaixo de chuva. No elevador, fica me perguntando, preocupada: “Te deram boa noite Cinderela?”. No dia seguinte, acordo com ressaca e morrendo de vergonha da minha mãe. Mas depois a história virou anedota familiar e lembro dela contando para os parentes, num Natal, e rindo.

2004 – Minha mãe faz um lanche para meus amigos da faculdade — assim como tantos outros que já tinha feito para os amigos do Santo Antônio e os do Barão. Mesa farta, cheia de bolos, biscoitos, sucos. Meus amigos ficam admirados. No final da tarde, quando já estavam indo embora, um deles vai ao banheiro e deixa a casa toda “empesteada”. Vou ao quarto dela falar que estão se despedindo e ela me pergunta, preocupada: “Será que estão achando que esse cheiro horrível vem aqui de dentro?” Eu rio com vontade e falo que meu amigo já tinha sido devidamente zoado por todos os outros pela “lembrancinha” que deixou da visita 😀

2005 – Minha mãe descobre que tem apneia e que precisa passar a dormir com uma máscara para melhorar o sono e evitar paradas respiratórias. Ela fica super chateada com a descoberta. (Hoje já se acostumou com a máscara e não tira nem mais um cochilo sem ela).

2006 – Chego em casa à noite, chorando, meio chapada, por causa de uma paixonite da época, que gostava de uma amiga minha, não de mim. Minha mãe fica vários minutos me abraçando e me consolando, até eu finalmente parar de chorar.

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A faixa na minha formatura.

2007 – Minha mãe superfeliz na minha formatura na faculdade. Com vestido longo e aqueles apetrechos que costumavam distribuir nas festas: luzinhas, plumas, anteninhas, essas coisas. Toda sorridente. E, no dia da colação de grau, feliz ao ver uma faixa que a UFMG Educativa fez homenageando os formandos que passaram pela rádio, meu nome entre eles. “Faz foto da faixa, Cris.”

2008 – Quando termina o programa de trainee da Folha, preciso encontrar um lugar para morar “pra ontem”. Minha mãe vai contactando deus-e-o-mundo que conhece e encontra uma quitinete para eu dividir temporariamente com a irmã de uma amiga. O que me salva pelos três ou quatro meses seguintes, até eu achar um apê só meu.

2009 – Uma das últimas festas de aniversário que meus pais fizeram em casa, talvez a última. Como era antigamente: com os vizinhos, alguns parentes e amigos, roupa de cama de festa, toalha de mão de festa, toalha de mesa de festa. A casa se vestia para as festas e todos os cômodos do apartamento ficavam cheios de gente.

Foto histórica!

Foto histórica!

2010 – Minha mãe vai a São Paulo com a irmã e o cunhado para me visitar. Levo os três ao Bar Léo. E ela, que não tomava cerveja havia anos, pede um chopp cremoso daqueles. Está toda animada, e fazemos uma foto histórica brindando nossos canecos.

2011 – Quando descubro que meu contrato de aluguel estava pra vencer e o dono do imóvel queria DOBRAR o valor, começo a chorar e vou logo caçar um orelhão para telefonar para minha mãe. Ela me consola dizendo que vai dar tudo certo e ela podia ir a São Paulo para me ajudar a achar um lugar para morar. Acabou não precisando, porque logo encontrei mesmo um lugar muito melhor, como ela havia previsto.

2012 – Apresento meu namorado, que hoje é meu marido, para minha mãe. Foi bem rapidinho, porque estávamos de passagem para outro lugar, então o encontro durou só uns minutinhos. Ele estava vestindo uma camiseta com uma caveira desenhada no meio, que hoje nem serve mais. Ela se lembra disso e, na primeira viagem que faz, traz de presente para ele uma camiseta com uma caveira desenhada. Toda vez ela pede uma sugestão de algo para trazer de presente ao genro, que acho que ela adora.

Teve fogueira!

Teve fogueira na festa junina!

2013 – A última festa junina (na verdade, agostina) da família na roça, que reuniu um monte de gente. Minha mãe faz a canjica, que eu adoro. Mas, como de outras vezes, desconsidera meu pedido encarecido para não colocar os terríveis cravos, que deixam tudo com gosto de cravo, rs.

2014 – Vou aos tradicionais almoços semanais na casa dos meus pais e minha mãe está tremendo muito e fala com meu marido, preocupada, que está perdendo o equilíbrio a toda hora. Apreensiva, levo ela e meu pai ao hospital. Mais tarde, vem o diagnóstico: síndrome de Guillain-Barré. Naquela noite ou na seguinte, volto lá e durmo com ela (para render meu pai, que até então a acompanhava) e tento fazer todas as suas vontades. Em casa, pesquiso tudo o que encontro sobre a doença e depois conto para ela, otimista, o que descobri. (Meu otimismo se concretizou: ela superou o Guillain-Barré, no ano seguinte venceu um câncer e hoje segue forte e cheia de atividades — e de netos).

Luiz com sua vovó no dia em que ele nasceu.

Luiz com sua vovó no dia em que ele nasceu.

2015 Luiz nasce e minha mãe fica lá em casa comigo até o umbigo dele cair, o que só foi acontecer depois de 17 dias. Na primeira semana, eu ainda bamba de dor e mal conseguindo caminhar, levei bronca por ter lavado uma xicrinha: “Se você não ficar deitada descansando eu vou embora pra casa!” Obedeci. Ela trocou inúmeras fraldas do Luiz, colocou ele pra dormir de volta quando estava só resmungando na madrugada, e levou ele até minha cama quando o resmungo era de fome mesmo. Deu banhos e nos ensinou mil coisas sobre os primeiros cuidados com o recém-nascido. Foi interessante a experiência de morar de novo com ela, oito anos depois que saí de casa, e contei isso a ela numa cartinha de agradecimento que entreguei na despedida.

2016 – Na primeira vez que o Luiz teve que tomar aquelas quatro vacinas do diabo, ele chorou por uma tarde inteira (e ele não é de chorar). Nas poucas vezes em que ele parou de chorar foi quando ela o carregou no colo e fez aquelas ninas que só vovó sabe fazer.

***

SUGESTÃO A VOCÊ, LEITOR

Fazer esse exercício foi muito legal, porque relembrei várias cenas, algumas hilárias (para mim), outras mais ternas, e tive que escolher minha favorita para cada ano. Depois, ao reler tudo, percebi que o que mais me marcou foram os momentos de cantoria, viagem ou festa — embora também tenha tido uma ou outra cena de rotina familiar. Recomendo a todos que façam um exercício de memória parecido — pode ser das memórias com sua mãe, seu pai, seu filho, seu marido… Você vai se surpreender e se emocionar com o resultado. Sugestão: todos temos memórias tristes ou negativas, mas tente se focar naqueles momentos doces, os que você realmente não gostaria de esquecer. Afinal, são eles que fazem a vida valer a pena, né? 😉


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