Salário milionário de empresário brasileiro provoca polêmica. Na França

Carrão da Renault, que lucrou uma fortuna no Brasil, com incentivos do governo. Foto: Boris Loeffert/ IAA

Carrão da Renault, que lucrou uma fortuna no Brasil, com incentivos do governo. Foto: Boris Loeffert/ IAA

Texto escrito por José de Souza Castro:

Não se pode esperar democracia no mundo corporativo. Essa história de responsabilidade social das empresas é conversa para boi (outro nome de povo) dormir. Isso nunca ficou tão claro como nesta queda de braço que se vê na francesa Renault, relatado pela Rádio França Internacional (RFI) sob o título “Salário milionário de diretor brasileiro da Renault provoca polêmica”.

Resumindo:

A maioria dos acionistas rejeitou em assembleia, no último dia 29 de abril, a manutenção da remuneração obtida no ano passado pelo diretor-presidente da Renault, Carlos Ghosn. Minutos depois de conhecido o resultado da votação, o Conselho de Administração decidiu manter o salário anual de 7,2 milhões de euros. Somados aos que Ghosn recebe da japonesa Nissan, também presidida por ele (as duas montadoras estão associadas desde 1999), o salário desse brasileiro nascido em Porto Velho (Rondônia) – mas que desde menino mora no Líbano e na França – chegaria aos 15 milhões de euros.

Quatro dias depois dessa decisão, o governo francês, dono de 19,7% das ações da Renault, ameaçou intervir com ação na Justiça, e recebeu apoio até do Mouvement des Entreprises de France (Medef), principal entidade patronal dos empresários franceses. Seu presidente, Pierre Gattaz, disse estar chocado com o episódio. “Quando os acionistas de uma empresa dizem não, acho que passar por cima dessa decisão tão rapidamente constrange”, disse ele.

O Conselho de Administração parece ter-se deslumbrado pela “qualidade dos resultados obtidos pela Renault em 2015, com um faturamento recorde de € 45 bilhões, alta de 10,4%”.

Num mundo perfeito, esse bom desempenho seria atribuído não a uma pessoa muito bem paga, Ghosn, mas a uma equipe – e as suas circunstâncias.

Um exemplo de circunstâncias favoráveis são os financiamentos do BNDES e os incentivos recebidos no Brasil dos governos – federal, estadual e municipal – pelas montadoras, incluindo a Renault. Como se vê nessa notícia do UOL, de dezembro de 2011, primeiro ano do governo Dilma Rousseff. Ou nesta outra, da Carta Capital, de julho de 2012. Esta, com o título “Montadoras: incentivo no Brasil cobre prejuízo no exterior” e um destaque: “A cada R$ 1 renunciado em impostos a fim de ativar a cadeia produtiva, indústria automobilística envia R$ 3,3 às matrizes.”

Ao contrário do que dizem hoje os opositores do governo petista, na época a Fiesp não via motivos para criticar a seguinte abertura da reportagem da Carta Capital: “Para manter a economia brasileira fora da crise, o governo federal tem apostado alto em investimentos na indústria automobilística como um atalho para o crescimento e geração de empregos. Por isso, desde 2008 concedeu ao setor medidas para renúncia fiscal de cerca de 11,3 bilhões de reais. As empresas parecem, porém, ter aproveitado os incentivos para ajudar as matrizes em dificuldade. Isso porque, no mesmo período, as remessas ao exterior somaram 38,1 bilhões de reais, segundo o Banco Central. Ou seja, para cada 1 real renunciado em impostos a fim de ativar a cadeia produtiva do setor – que representa cerca de 20% do PIB industrial do País –, as montadoras remeteram 3,3 reais ao estrangeiro.”

Acrescentou a revista que a proporção de um para mais de três é considerada elevada por analistas. Entre eles, Samy Dana, professor da FGV-SP e pesquisador do Centro de Estudos em Finanças da entidade, que afirmou: “O governo pode estar financiando o lucro de pessoas fora do Brasil ou até financiando parques industriais em outros países”. Segundo Dana, empresas enviavam a suas matrizes valores acima do lucro líquido, desfazendo-se de um ativo próprio e comprometendo suas operações no Brasil.

A elevada quantidade de valores enviados ao exterior pela indústria automobilística, lembra Carta Capital, “é permitida pela lei de remessas de lucros brasileira (4131/62), promulgada em janeiro de 1964 no governo do presidente João Goulart, o Jango. Mas, à época, a lei era mais rígida. Considerava capital nacional os lucros obtidos em atividades no Brasil e estabelecia o limite de remessas em 10% do total do capital registrado das empresas. A medida, vista como excessivamente nacionalista, foi um dos elementos que contribuíram para o golpe militar daquele mesmo ano. Tão logo chegaram ao poder – sob pressão de multinacionais norte-americanas –, os militares revogaram as partes mais polêmicas da legislação. Quase 60 anos depois e algumas mudanças sofridas, a lei permite às empresas enviar remessas ao exterior livremente.”

Se o benefício às empresas estrangeiras não mudou nos governos Lula e Dilma, não mudará num governo Temer. E, se depender do Brasil, Ghosn nada tem a temer. Continuará sendo um dos executivos mais bem pagos do mundo. No Japão, ele vem ocupando o topo do ranking desde 2010.

Já o salário do trabalhador brasileiro…

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3 comentários sobre “Salário milionário de empresário brasileiro provoca polêmica. Na França

  1. Por falar em RFI, vale ler também esta notícia publicada pela rádio francesa: http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2016/05/07/14-empresarios-de-midia-e-jornalistas-sao-citados-nos-panama-papers/
    Destaque: “Para a historiadora Juliette Dumont, do Instituto de Altos Estudos sobre a América Latina (Iheal), da universidade parisiense Sorbonne Nouvelle, o provável afastamento da presidente Dilma Rousseff “vai fragilizar o Brasil e prejudicar, durante muitos anos, a credibilidade do país no cenário internacional”. “O Brasil cometerá um suicídio político”, se o Senado aprovar o pedido de impeachment de Dilma, opina a pesquisadora.”

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