Hachiko: um cão leal

Autor desconhecido

Autor desconhecido. Clique nas fotos para vê-las em tamanho real

Eu nunca tinha ouvido falar de Hachiko até assistir ao filme de 2009 estrelado por Richard Gere.

Ou seja, palmas aos astros de Hollywood por trazerem ao Ocidente histórias que já são célebres no Oriente. Todos nós merecemos conhecer um ser tão especial como este cachorro da raça akita.

Vou resumir a história [se preferir assistir antes ao filme, sem ter nenhuma surpresa estragada, pule para o último parágrafo deste post]: Hachi era o cachorro de um professor da Universidade de Tóquio. Como todo akita, era dócil e inteligente. Aprendia as coisas com facilidade. Todos os dias, acompanhava o professor Ueno até a estação de trem de Shibuya, onde o professor pegava a condução para ir trabalhar. Hachiko (diminutivo de Hachi) deixava o dono lá, cheio de afagos, e voltava sozinho para casa. Mais tarde, pontualmente quando o professor pegava o trem de volta, Hachi voltava de casa até a estação, e o esperava na porta.

hatchicoOs outros passageiros se comoviam com a cena: viam o professor e seu akita, pontuais e no mesmo local, todo santo dia, de manhã e no fim da tarde. O akita acompanhava o dono e horas depois voltava, sozinho, para recepcioná-lo com muito carinho.

Até que, um ano e meio depois, em 1925, o professor Ueno teve um derrame na universidade e não voltou no trem das 17h. Hachi ficou esperando na porta da estação por várias horas até alguém se lembrar de ir buscá-lo. E, nos nove anos seguintes, continuou aparecendo na estação, todos os dias, pontualmente, no horário do trem do professor Ueno, à espera de seu dono.

A última foto de Hachiko.

A última foto de Hachiko.

Chegaram a tentar levá-lo para outra cidade, mas Hachi fugia e voltava sempre a aparecer na estação, obstinadamente. Começou a ficar famoso, virou tema de reportagens e, quando morreu, em 1934, doente e fraco, aos 11 anos, Hachiko foi homenageado com uma estátua, que pode ser vista até hoje na estação de Shibuya, em Tóquio.

Para mim, Hachi é exemplo de lealdade, amizade, paciência e perseverança. la-statut-d-hachiko-aConceitos muito em baixa nesses tempos de amigos virtuais, pressa, imediatismo a intolerância.

Por isso, recomendo que assistam ao filme de Lasse Hallström (sueco que dirigiu outros filmes simpáticos como Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador, Regras da Vida e Chocolate) e emocionem-se. Não é um filme brilhante, mas a história de Hachi, por si só, é inspiradora. Preparem-se para chorar um bocado 😉

Atualização em 13/3: o leitor Gustavo descobriu no site Japão em Foco que uma nova estátua estava para ser inaugurada agora em março, na Universidade de Tóquio. Nela, Hachiko e seu dono são finalmente reunidos, após oito décadas. Lindo demais, né 😉

Vejam a foto que o site divulgou:

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147 maneiras de chamar o seu amor

[Ligue o som antes de ler o post 😉 ]

Ele me chama de morena, eu chamo ele de moreno. “Mas moreno?! Ele NÃO é moreno!” É verdade: ele é daqueles que nasceram loirinhos, hoje cabelo castanho claro, pele branca, olhos esverdeados. Quando toma sol, fica vermelho, não moreno. Mas o apelido dos enamorados sempre surge das maneiras mais inusitadas e suas origens nunca são óbvias. No nosso caso, veio do meu sobrenome: Cristina Moreno — e ele brincando, quando ainda nem éramos namorados, que o certo deveria ser “Morena” (eu sou mesmo morena, diga-se de passagem), então assim ficou: morena, morena, morena, moreno. Com direito a variantes: moreninho, morenim, morenóide, morenildo, morenilde, morenaide, naidinha.

De vez em quando ele pega palavras aleatórias e, puf!, viram um novo apelido carinhoso. Se o cabelo foi cortado no dia, cabelinha. Se começo uma dieta, queijinha frescal. Se (já nem sei mais por quê), viro tartaruguinha, e ele, brigadeirinho, cervejo red ale, bocó, e assim por diante.

Cheguei à conclusão de que a semiótica dos apelidos carinhosos é diferente. O significado quase nunca corresponde ao esperado pelos que assistem de fora. Mas, para o enamorado, faz todo sentido. É como com os cachorros: não importa se você os chamar por um palavrão, desde que use a entonação certa. E eles vão abanar o rabinho com a mesma ênfase e amor.

Pensando nisso, pedi aos amigos para contarem quais apelidos usam com seus amores. Não me decepcionei: veio cada história! Por exemplo, o Bata. Bata foi assistir a “Toy Story 2” com sua namorada, logo no começo do relacionamento. Em uma cena, um dos personagens grita: “Eu sou uma batata casada!”. E, daquele dia em diante, isso virou uma piada interna entre os dois: não se esqueça que agora você é uma batata casada, hein, amor? Daí para começarem a se chamar de Batata, Batatinha e Batatão, foi um pulo. A abreviação natural: Bata. Os dois se casaram, tiveram filho, se divorciaram e, mesmo assim, até hoje, só se tratam por Bata. Apelidos carinhosos às vezes são eternos.

Outro casal, junto há seis anos, já passou por toda sorte de apelidos. Quando ela pesava meros 47 quilos, passou a ser chamada, carinhosamente, de gordinha. Além de baleia, bola de praia, quica (por causa das bochechas do Quico, do Chaves). Vai entender.

Há ainda aquela dupla que se chama só de Pan. Pan pra cá, Pan pra lá. Os dois são Pan. E pan vem de onde? “De panguá” — respondem, sorridentes.

Aliás, o mais comum é um apelido surgir e ir se desdobrando em outros mil. Delícia vira Dedela. Amor vira Amour, que vira Amoulo, que acaba em Molo. Uma prima começou a chamar o namorado de paixão (e vice-versa), e logo virou xão, xoxoxão, xoxo… Até chegar, sabe-se lá como, a Boxx, que é como se chamam hoje.

E os apelidos muitos vezem passam de geração para geração. Vejam o caso dos dois que se chamavam de Amorzo/amorza e Amorinsko/amorinska, e agora já reduziram para Orzo e Insko. Nasceu o primeiro bebê e adivinha como ele é chamado? Mini-Insko…

Vida, cheiro, monstro, nojento, preto, jacu, doidim, nego, delícia cremosa, pituxa, tico, dico, anjo… Dos apelidos que mais parecem xingamentos aos que já são mundialmente aceitos, o fato é que todos fazem disparar algum coração por aí. E muitos casais se chamam por mais de um apelido, dependendo da ocasião. Fora aqueles nomes que só aparecem nos momentos mais íntimos, que os amigos não quiseram me contar nem com a promessa de que seriam mantidos anônimos. Mesmo assim, recebi nada menos que 147 apelidos! Muitos repetidos, o que ilustra a preferência da maioria, mas alguns muito particulares. Vejam só:

Quanto maior o tamanho da letra, mais vezes o apelido foi repetido.

Quanto maior o tamanho da letra, mais vezes o apelido foi repetido.

E você, como chama seu namorado/marido/ficante/rolo/paixonite/namorido/etc?

Conte para mim e eu acrescento aqui no post 😉

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Dia das avós

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Eu nem lembrava mais que era em 26 de julho que se comemorava o dia dos avós. Afinal, não tenho avós há muito tempo já. Mais tempo que eu gostaria de lembrar. Os avós eu nem cheguei a conhecer. E as avós eu perdi, uma aos 11 anos de idade, e outra aos 16.

Foi uma mensagem carinhosa escrita pela colega Isis para sua avó que me encheu de lembranças das minhas vovós Rosa e Angélica.

A primeira era a melhor cozinheira do universo. Sei que esse título é disputado por quase todas as avós do mundo, mas duvido que alguma supere a cozinha da vovó Rosa. E ela amava cozinhar. Fazia roscas deliciosas, doces, biscoitões de polvilho. Toda semana, fazia meu bolo de banana com canela favorito e enviava lá pra casa. Eu passava minhas férias com ela, brincando no playground com as outras crianças do prédio ou com minha prima Marcela, e também ia todos os domingos para o almoço de família — que, naquela época, reunia todos os tios e primos, em casa lotada. Ah sim, almoço precedido de duas fornadas de pães de queijo feitos e amassados pela vovó, infinitamente mais gostosos que esses “Forno de Minas” da vida. Outra coisa que ela adorava fazer era jogar baralho — buraco ou mexe-mexe. E ela roubava em todos os jogos! Eu deixava, então ela adorava jogar comigo. Passávamos tarde inteiras só jogando. Nossa música favorita era “Eu Sei que Vou te Amar” na versão do Milton Nascimento, que a gente ouvia no repeat durante os jogos. Como gostava tanto de comer quanto de cozinhar, ela era muito gorda, chegou a bater os 90 kg. Mas aí entrou no Vigilantes do Peso e ficou toda satisfeita quando atingiu a meta dos 70 kg e ganhou um chaveirinho para certificar, que mostrava pra todo mundo. Quando ela morreu, de infarto fulminante, em 1996, guardei esse chaveirinho de lembrança, que está comigo até hoje. Curioso que o que mais lembro dela é justamente sua gordura, porque não tinha nada mais gostoso do que abraçá-la, sempre quentinha, sorridente, baixinha, e com algum perfume superforte no cangote 🙂

Tive menos contato com a vovó Angélica, porque ela morava no interior e só íamos vê-la de vez em quando. Além disso, ela tinha muito mais filhos e netos com quem dividir a atenção. Mas também lembro com carinho dela. Infelizmente, o que mais me marcou foram seus últimos anos, já atingida pelo Mal de Alzheimer, que se agravou nos últimos cinco anos, mais ou menos. No começo, ela ainda sabia que eu era sua neta e filha de quem. Depois de um tempo, passou a saber apenas que eu era uma neta, mas não sabia muito bem de qual filho. Por um bom tempo, eu era apenas um sorriso. Explico: ela não sabia quem eu era, era a “menina” que aparecia de vez em quando, mas bastava eu abrir meu sorriso que os olhos dela se iluminavam, registrando o reconhecimento. Isso enchia meu peito de alegria. Até que um dia, em que chorei até, eu sorri e os olhos dela continuaram opacos. Ela não tinha a mais remota ideia de quem eu era. Antes de perder o bem mais precioso de um ser humano — a capacidade de se comunicar –, o que vovó Angélica mais gostava de fazer era relembrar coisas do seu passado mais distante, da primeira infância. Acho que quanto mais velhos nos tornamos, mais vamos reconquistando nosso lado criança perdido no tempo. E ela ficava cantando músicas e falando trava-línguas de seu tempo de criança.

Um deles eu lembro até hoje:

“Eu c’aminha, cumade c’adela.

Bebemo café e fumo.

Cheguemo lá, topei Dano com a vara de tocá gado

E nem fé deu!”

Lendo rápido, vira um amontoado de cacófatos escatológicos e engraçadíssimos, ainda mais partindo de uma senhora de 82 anos, com óculos pesados sobre o narizinho fino, cabelos partidos ao meio, lisinhos e, naquela época, branquíssimos (pararam de pintá-los depois de um tempo). Ela morreu em 2001.

Tanto vovó Rosa quanto vovó Angélica nasceram no inverno, sendo que esta última nasceu no dia em que a estação começa. Esta época de frio, mas, em Minas, de céu normalmente azulíssimo, e lua absurdamente cheia e amarela. Foram avós curtas na minha vida, mas deixaram muitas lembranças boas. Que minhas sobrinhas aproveitem bastante os avós que têm, porque são pessoas muito importantes em nossas vidas 🙂

E você, já ligou para seus avós hoje?

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As três cenas que fizeram o dia de hoje valer

Um daqueles dias em que o céu de São Paulo nos surpreende. Foto: CMC, em 2008

Hoje foi um dia difícil, tenso, cansativo. Vocês podem ver por este post que escrevi agora no Novo em Folha.

Mas foi recompensado por três cenas, que agora divido, resumidamente, com vocês:

Cena 1

O céu de São Paulo estava lindo hoje. Azul, com várias nuvens em floquinhos pequenos, postados simetricamente, um ao lado do outro, e uma mancha laranja-amarelo-avermelhado do sol se pondo e se sobrepondo ao cinza da poluição de inverno. Pena que não fotografei. À noite, a lua era quase cheia, bem quase. Estando na rua o dia inteiro, pude presenciar tanto a pintura da tarde quanto a lua da noite.

Cena 2

No supermercado perto de casa, depois das 22h, para comprar umas miudezas para a semana, vejo uma mãe com a filhinha de seus nove anos. A menina sabe que a mãe está com dinheiro contado, seguindo à risca a lista de compras da semana. Em vez de pedir “Mãe! Compra isso! Me dá aquilo!” como toda criança dessa idade em um supermercado, ela pergunta, tímida, responsável e cautelosamente: “Mamãe, troca o alho por sucrilhos?”, ao que a mãe nem se dá ao trabalho de responder. (Quando eu era criança, queria convencer meus pais a comprarem Danoninho “com ferro”, que valia por um prato de feijão, segundo a propaganda — porque eu detestava feijão. Lembro até hoje do meu pai respondendo mal-humorado: “Mas o quilo do feijão é bem mais barato que o Danoninho, e dura 20 vezes mais!” Aprendi economia assim.)

Cena 3

Depois da feira, quase chegando em casa, lá pelas 22h30, ouço um rapaz falando alto com a moça da qual tinha acabado de se despedir: “Peraí, Ju! Esqueci de uma coisa!” E aí ele volta a cumprir a distância de uns seis passos que os separava e lasca um beijão na boca dela, que se esbalda de sorrir com os olhos. Fico feliz pela Ju, que não conheço. E feliz pelo par dela, que se empenhou para dar aquele grito em tom de urgência, como se tivesse esquecido de pagar o aluguel do mês, só para surpreendê-la com esse pequeno gesto de ternura e carinho.

Agora vou dormir, feliz com essas três cenas, triste com as tragédias e desastres que cabe aos jornalistas cobrir. Boa noite, só sonhem sonhos bons.