Recado aos donos de pets egoístas e irresponsáveis

Texto escrito por Beto Trajano:

Hoje não foi o dia de salvação de Marion. Aquela tão sonhada etapa final da entrevista, do tão esperado emprego, foi como um tiro no alvo reverso. Nota Zero.

A esperança de conquistar Brunele também foi para as cucuias nos planos de Gildeão.

E, desconcertado, Alencar acabou reprovado no exame para tirar carteira de motorista, em sua quarta tentativa.

Vidas que nunca se encontraram foram barradas pelo mesmo destino. O pé lambrecado de um fedido estrume de cachorro depositado no meio da rua, pouco antes de os seus objetivos serem conquistados.

Todas as manhãs, Pitis, Totós, Joaquins, Brigites, Dianas vão passear com seus donos pelas ruas. É hora de defecar e mijar. Alguns dos donos levam uns saquinhos para catar os dejetos, mas a maioria deixa o estrume fedorento lá, brilhando nas calçadas. Continuar lendo

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Sejamos mais cachorros!

Einstein

Einstein

Um amigo meu, que preferiu não ser identificado no post, escreveu uma mensagem tão inspiradora que resolvi compartilhá-la aqui no blog. Para pensar:

“Decidi falar aqui da morte do Einstein, que já rolou há um tempo, para pedir para vocês serem mais cachorros. É que bateu uma saudade imensa dele e o tempo nunca foi muito importante entre a gente. Tive na vida a oportunidade de ir aprendendo com os cachorros a ser mais descalço, mais pelado, mais carinhoso e mais alegre. A gente já vive num mundo tão humano, somos tão obcecados com objetos e eletricidade que nos esquecemos do maravilhoso mistério de nossas próprias biologias. Nossa amizade com os cachorros é em seus poucos milhares de anos talvez a mais profícua relação entre duas espécies, basta olhar e ver. Que no mundo de curtições, catucações e bajulações narcisísticas possamos sempre olhar para nossa ancestralidade comum com os cachorros e, ao invés de fantasiarmos eles como pessoas, possamos ver em nós os mamíferos que somos. Sejam mais cachorros e me chamem para que juntos uivemos sob a lua.”

O lindo cachorro Einstein e seu dono, em foto de arquivo pessoal dele.

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Hachiko: um cão leal

Autor desconhecido

Autor desconhecido. Clique nas fotos para vê-las em tamanho real

Eu nunca tinha ouvido falar de Hachiko até assistir ao filme de 2009 estrelado por Richard Gere.

Ou seja, palmas aos astros de Hollywood por trazerem ao Ocidente histórias que já são célebres no Oriente. Todos nós merecemos conhecer um ser tão especial como este cachorro da raça akita.

Vou resumir a história [se preferir assistir antes ao filme, sem ter nenhuma surpresa estragada, pule para o último parágrafo deste post]: Hachi era o cachorro de um professor da Universidade de Tóquio. Como todo akita, era dócil e inteligente. Aprendia as coisas com facilidade. Todos os dias, acompanhava o professor Ueno até a estação de trem de Shibuya, onde o professor pegava a condução para ir trabalhar. Hachiko (diminutivo de Hachi) deixava o dono lá, cheio de afagos, e voltava sozinho para casa. Mais tarde, pontualmente quando o professor pegava o trem de volta, Hachi voltava de casa até a estação, e o esperava na porta.

hatchicoOs outros passageiros se comoviam com a cena: viam o professor e seu akita, pontuais e no mesmo local, todo santo dia, de manhã e no fim da tarde. O akita acompanhava o dono e horas depois voltava, sozinho, para recepcioná-lo com muito carinho.

Até que, um ano e meio depois, em 1925, o professor Ueno teve um derrame na universidade e não voltou no trem das 17h. Hachi ficou esperando na porta da estação por várias horas até alguém se lembrar de ir buscá-lo. E, nos nove anos seguintes, continuou aparecendo na estação, todos os dias, pontualmente, no horário do trem do professor Ueno, à espera de seu dono.

A última foto de Hachiko.

A última foto de Hachiko.

Chegaram a tentar levá-lo para outra cidade, mas Hachi fugia e voltava sempre a aparecer na estação, obstinadamente. Começou a ficar famoso, virou tema de reportagens e, quando morreu, em 1934, doente e fraco, aos 11 anos, Hachiko foi homenageado com uma estátua, que pode ser vista até hoje na estação de Shibuya, em Tóquio.

Para mim, Hachi é exemplo de lealdade, amizade, paciência e perseverança. la-statut-d-hachiko-aConceitos muito em baixa nesses tempos de amigos virtuais, pressa, imediatismo a intolerância.

Por isso, recomendo que assistam ao filme de Lasse Hallström (sueco que dirigiu outros filmes simpáticos como Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador, Regras da Vida e Chocolate) e emocionem-se. Não é um filme brilhante, mas a história de Hachi, por si só, é inspiradora. Preparem-se para chorar um bocado 😉

Atualização em 13/3: o leitor Gustavo descobriu no site Japão em Foco que uma nova estátua estava para ser inaugurada agora em março, na Universidade de Tóquio. Nela, Hachiko e seu dono são finalmente reunidos, após oito décadas. Lindo demais, né 😉

Vejam a foto que o site divulgou:

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O caso do misterioso assassinato de Yoko

Yoko era linda. Peluda, num tom cor de creme, olhos bem pretos e redondos, e um rabo enorme e permanentemente retorcido, como dos porcos de desenho animado. Recebeu este nome por ser da raça japonesa akita – caçadora, adepta do frio dos árticos, disciplinada e brincalhona.

Quando ela chegou em minha vida, a primeira consequência visível – e notável – foram os arranhões nos meus braços e pernas. Aquele bichinho que mais parecia um filhote de raposa (de pelúcia) não parava de pular em cima de mim, bastava me ver, e suas unhas afiadas rasgavam minha pele com amor (e dor). Fui para meu baile de formatura do ensino médio com os braços reluzentes do brilho da pomada.

Quando Yoko já estava grande demais para um apartamento médio, e derrubava os móveis com aquele rabão (e comia as beiradas dos discos de vinil, tendo preferência especial pelos do Led Zeppelin e do Black Sabbath), resolvemos levá-la para a roça.

***

Era o paraíso para Yoko! Ela corria como louca e adorava enterrar pequenos tesouros – ossos, alguns descomunais (possivelmente de bois, mas vai saber), que ela encontrava ninguém-sabe-onde. Mas uma de suas maiores diversões era caçar. A genética é um trem poderoso: quando menos esperávamos, lá vinha Yoko com um lagarto balançando, mortinho da silva, em sua boca, pra lá e pra cá. Noutro momento, era uma cobra, enorme e inerte, pendurada entre os dentes. Passarinhos eram presa fácil. E, claro, as galinhas d’angola do vizinho, que insistiam em voar para o terreno proibido, por sobre a cerca, e iam parar nas presas ansiosas de Yoko.

Contra humanos, no entanto, Yoko era pacífica, dócil e carinhosa. Daquele jeito, né: via um, e lá ia ela com rabão retorcido pra lá e pra cá, linguão de fora pingando suor e com seus saltos alegres para recepcionar. Machucavam, mas não de propósito. Possivelmente até assustavam quem deveria ser assustado. Akita, além de cão de caça, é a melhor raça de cão de guarda que há nesta Terra.

***

É claro que, assim, Yoko foi criando seus inimigos. Calangos venenosos conspiravam contra ela, esperançosos de injetar veneno caso fossem mordidos (ao menos na nossa leiga imaginação). O vizinho, dono das galinhas d’angola voadoras, tampouco simpatizava com o que as esperava do lado de cá da cerca. O caseiro, que era obrigado a aparecer na roça com mais frequência do que gostaria, para colocar água e comida para o cachorro, tampouco se via feliz com a tarefa árdua pela qual recebia um salário.

Um belo dia, Yoko não nos recepcionou com alegria. Seu rabão estava encolhido e o linguão roxo não balançava loucamente. Seu olhar para nós era triste-triste, comunicando que faltava pouco tempo de vida naquele corpo peludo e dócil. Poucas horas depois, após muito vomitar, Yoko deu seu último uivo e morreu.

***

Deixou de herança o mistério: quem teria envenenado Yoko? Considerando que não existem calangos venenosos no Brasil, os principais suspeitos eram o vizinho e o caseiro. (Se Hercule Poirot estivesse por essas bandas do cerrado para investigar, insistiria na pergunta: quem tinha interesse nessa morte? E logo chegaria aos dois). Mas sempre existiria a possibilidade de um ladrãozinho de araque ter tentado invadir a casa e, recepcionado pelos pulos alegres de Yoko, ter oferecido um pedaço de bife com chumbinho, que ela devorou em dois segundos e meio. (Mas aí, perguntaria Poirot, o ladrãozinho teria se arrependido e vazado muro afora sem levar nenhum objeto de lembrança?). Pode ter sido morte natural, gula, indigestão, fadiga, vai saber. (Mas Poirot logo descartaria a tese: inteligente como ela era, seria difícil que tenha se metido num banquete de olhos maiores que a barriga).

Já se passaram mais de dez anos desde que Yoko foi assassinada e, na falta de um detetive belga, a causa mortis jamais foi determinada com precisão. Por isso, tivesse ela um atestado de óbito, eu declararia: morreu de injustiça infecciosa, transmitida por alguém muito cruel. Meu braço direito conserva até hoje uma cicatriz de lembrança, e mantenho com cuidado uma pulga de estimação: atrás da orelha.

akita

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