O caso do misterioso assassinato de Yoko

Yoko era linda. Peluda, num tom cor de creme, olhos bem pretos e redondos, e um rabo enorme e permanentemente retorcido, como dos porcos de desenho animado. Recebeu este nome por ser da raça japonesa akita – caçadora, adepta do frio dos árticos, disciplinada e brincalhona.

Quando ela chegou em minha vida, a primeira consequência visível – e notável – foram os arranhões nos meus braços e pernas. Aquele bichinho que mais parecia um filhote de raposa (de pelúcia) não parava de pular em cima de mim, bastava me ver, e suas unhas afiadas rasgavam minha pele com amor (e dor). Fui para meu baile de formatura do ensino médio com os braços reluzentes do brilho da pomada.

Quando Yoko já estava grande demais para um apartamento médio, e derrubava os móveis com aquele rabão (e comia as beiradas dos discos de vinil, tendo preferência especial pelos do Led Zeppelin e do Black Sabbath), resolvemos levá-la para a roça.

***

Era o paraíso para Yoko! Ela corria como louca e adorava enterrar pequenos tesouros – ossos, alguns descomunais (possivelmente de bois, mas vai saber), que ela encontrava ninguém-sabe-onde. Mas uma de suas maiores diversões era caçar. A genética é um trem poderoso: quando menos esperávamos, lá vinha Yoko com um lagarto balançando, mortinho da silva, em sua boca, pra lá e pra cá. Noutro momento, era uma cobra, enorme e inerte, pendurada entre os dentes. Passarinhos eram presa fácil. E, claro, as galinhas d’angola do vizinho, que insistiam em voar para o terreno proibido, por sobre a cerca, e iam parar nas presas ansiosas de Yoko.

Contra humanos, no entanto, Yoko era pacífica, dócil e carinhosa. Daquele jeito, né: via um, e lá ia ela com rabão retorcido pra lá e pra cá, linguão de fora pingando suor e com seus saltos alegres para recepcionar. Machucavam, mas não de propósito. Possivelmente até assustavam quem deveria ser assustado. Akita, além de cão de caça, é a melhor raça de cão de guarda que há nesta Terra.

***

É claro que, assim, Yoko foi criando seus inimigos. Calangos venenosos conspiravam contra ela, esperançosos de injetar veneno caso fossem mordidos (ao menos na nossa leiga imaginação). O vizinho, dono das galinhas d’angola voadoras, tampouco simpatizava com o que as esperava do lado de cá da cerca. O caseiro, que era obrigado a aparecer na roça com mais frequência do que gostaria, para colocar água e comida para o cachorro, tampouco se via feliz com a tarefa árdua pela qual recebia um salário.

Um belo dia, Yoko não nos recepcionou com alegria. Seu rabão estava encolhido e o linguão roxo não balançava loucamente. Seu olhar para nós era triste-triste, comunicando que faltava pouco tempo de vida naquele corpo peludo e dócil. Poucas horas depois, após muito vomitar, Yoko deu seu último uivo e morreu.

***

Deixou de herança o mistério: quem teria envenenado Yoko? Considerando que não existem calangos venenosos no Brasil, os principais suspeitos eram o vizinho e o caseiro. (Se Hercule Poirot estivesse por essas bandas do cerrado para investigar, insistiria na pergunta: quem tinha interesse nessa morte? E logo chegaria aos dois). Mas sempre existiria a possibilidade de um ladrãozinho de araque ter tentado invadir a casa e, recepcionado pelos pulos alegres de Yoko, ter oferecido um pedaço de bife com chumbinho, que ela devorou em dois segundos e meio. (Mas aí, perguntaria Poirot, o ladrãozinho teria se arrependido e vazado muro afora sem levar nenhum objeto de lembrança?). Pode ter sido morte natural, gula, indigestão, fadiga, vai saber. (Mas Poirot logo descartaria a tese: inteligente como ela era, seria difícil que tenha se metido num banquete de olhos maiores que a barriga).

Já se passaram mais de dez anos desde que Yoko foi assassinada e, na falta de um detetive belga, a causa mortis jamais foi determinada com precisão. Por isso, tivesse ela um atestado de óbito, eu declararia: morreu de injustiça infecciosa, transmitida por alguém muito cruel. Meu braço direito conserva até hoje uma cicatriz de lembrança, e mantenho com cuidado uma pulga de estimação: atrás da orelha.

akita

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4 comentários sobre “O caso do misterioso assassinato de Yoko

  1. Pela minha experiência com maldades feita a cães lá no sítio, diria que existem três potenciais suspeitos: uma cobra venenosa, embora subsista um índice muito pequeno destes répteis, no nordeste é necessário muito cuidado; um ladrão que envenenou o cão, para que numa próxima oportunidade não existam empecilhos para finalizar um roubo; o vizinho, cansado que suas galinhas fossem para às presas do cão.
    O meu cão atual, um cão de fila açoriano, foi treinado para não pegar em isco, quer seja natural(animais) ou preparado (carne com veneno), por isso é um sobrevivente.

    Ótimo artigo!

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