Kennedy e Obama – e discursos que enganam

(Foto: Reuters)

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Texto escrito por José de Souza Castro:

No discurso de posse, neste 21 de janeiro, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que vai dar prosseguimento a uma jornada sem fim para aproximar o significado das palavras dos patriotas de 1776 à realidade de nosso tempo. Estas palavras: “Nós consideramos estas verdades autoexplicativas: que todos os homens são iguais, que eles são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis e que, entre estes direitos, estão a vida, a liberdade e a busca pela felicidade.”

Há 52 anos, ao discursar em outra solenidade de posse, no dia 20 de janeiro, John Kennedy preferiu dar ênfase a uma palavra: liberdade. E proclamou:

“Que saiba toda nação, quer nos queira o bem ou nos deseje o mal, que pagaremos qualquer preço, suportaremos qualquer encargo, enfrentaremos qualquer dificuldade, apoiaremos qualquer amigo e nos oporemos a qualquer inimigo, a fim de assegurar a sobrevivência e o sucesso da liberdade.”

Kennedy não o disse, mas se referia à liberdade de todos os povos viverem sob o regime capitalista e de lutarem contra o comunismo, mesmo vivendo na miséria. Para tanto, acenou o presidente com mais e mais armas: “Não ousaremos tentá-las [as nações comunistas] com a debilidade, pois somente quando as nossas armas forem indubitavelmente suficientes poderemos estar seguros, fora de dúvida, de que nunca serão empregadas [as armas atômicas da Rússia]”.

Menos de três meses depois da posse, seu governo fez, em abril de 1961, a frustrada tentativa de invadir Cuba, usando, para isso, os exilados cubanos treinados e dirigidos pela CIA para derrubar o comunista Fidel Castro. Kennedy teria ficado feliz com o golpe militar de abril de 1964, no Brasil, se não tivesse sido assassinado no ano anterior em Dallas, no Texas. A morte poupou-o de assistir ao fracasso de seu país na guerra contra os comunistas no Vietnã. Uma guerra incrementada em 1965 por ordem do sucessor de Kennedy, o vice Lyndon Johnson, que seguiu fielmente sua política anticomunista, enviando tropas para lá. Pouco importa que, ao longo dessa guerra, 58 mil soldados americanos tenham morrido, bem como um número incalculável de vietnamitas – talvez dois milhões de civis e militares.

O que importa é que com essa e outras guerras em que os Estados Unidos se meteram desde então, o propósito fundamental de Kennedy – o da defesa dos privilégios dos mais ricos – se manteve. Agora, em seu discurso, Obama inova um pouco, deixando de lado o comunismo, mas sem esquecer jamais a liberdade. Afirmou:

“Por meio do sangue derramado pelo chicote e do sangue derramado pela espada, nós aprendemos que nenhuma união fundada sobre os princípios da liberdade e da igualdade poderia sobreviver na semiescravidão e na semiliberdade. Nós nos renovamos mais uma vez e prometemos avançar juntos.”

E acrescentou:

“Esta geração de norte-americanos foi testada por crises que endureceram nossa determinação e colocaram à prova nossa capacidade de resistência. Uma década de guerra está terminando agora. A recuperação econômica já começou. As possibilidades que se apresentam para os Estados Unidos são ilimitadas, pois nós temos todas as qualidades que este mundo sem fronteiras exige: juventude e dinamismo, diversidade e abertura, uma capacidade infinita para assumir riscos e o dom da reinvenção. Meus compatriotas norte-americanos: nós fomos feitos para este momento, e vamos aproveitá-lo – desde que nós o aproveitemos juntos. Pois nós, o povo, compreendemos que nosso país não pode ser bem-sucedido quando um número cada vez menor de pessoas vai muito bem e um contingente crescente de cidadãos mal consegue sobreviver.”

Pois é. Gostaríamos de confiar nos bons propósitos de Obama, o primeiro negro a conquistar a presidência dos Estados Unidos, mesmo que o “nós” a que ele se refere não seja o nosso “nós”. Kennedy, o primeiro católico no mesmo cargo e filho de um milionário, não foi muito feliz em seus propósitos, nunca desmentidos pelos que o sucederam. Estão aí, a comprovarem, as guerras e os conflitos, mundo afora, a miséria, a dor e a fome. Não tanto nos Estados Unidos, mas também lá, quanto nos países do Terceiro Mundo. Enquanto Obama discursava, os estrategistas de seu país se debruçavam sobre os planos de intervir mais fortemente na Síria e no Mali, combatendo os que, lá, têm um conceito próprio e peculiar de liberdade.

O que escreveu Herbert de Souza, o Betinho, na década de 1990, continua muito atual:

“Faz-se um discurso do combate à miséria e pratica-se a prioridade da estabilização econômica, da globalização neoliberal, dos mitos da bolsa e do mercado, da busca fria e determinada do lucro a qualquer custo e com qualquer resultado.” Betinho, como nós, queria “a subordinação da economia à política e da política à ética para que o mundo adquira sentido pra toda a humanidade”. Para que o Estado, sob controle da cidadania, “possa por sua vez domesticar o mercado e, dentro dele, domesticar também os grandes conglomerados que fazem da teoria da liberdade apenas um biombo para seus negócios combinados”.

Taí um bom discurso para Dilma Rousseff, desde que não seja também para enganar.

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