A orquestração contra a imprensa — e como ela é antiga

Já contei isso aqui e no blog Novo em Folha. Certa vez, cobrindo a polêmica dos alunos da USP contra a PM no campus, ouvi de um deles a pergunta: “Quantas mentiras você já publicou hoje?”. Eu estava com um carro com o logo da Folha, era repórter de Cotidiano. Claro que, no fundo, fiquei puta com o desrespeito ao meu trabalho. Mas o sujeito não é jornalista e não tem obrigação de saber como se faz jornalismo. Por isso, rebati bem-humorada: “Você já leu o jornal de hoje?”. Diante da negativa, entreguei a edição para ele ler e vi uma transformação diante de mim: os mesmos estudantes que tinham me evitado, de forma bastante arrogante, ao verem a logo do jornal, agora tentavam apontar defeitos na reportagem que eu tinha escrito na véspera e, surpresos, acabaram admitindo que estava equilibrada, tanto no texto quanto na edição.

Normalmente eu não entro em discussões com quem pensa muito diferente de mim e já se posta como dono da verdade. Me canso por antecipação. Mas quando o assunto é jornalismo, encaro até esses mais fechados e autoritários, porque não é raro eu conseguir mostrar, com argumentos concretos, que não é bem assim. E ganho um pontinho na luta contra a orquestração que está sendo feito contra a imprensa, desde a criação da sigla “PIG”, se não me engano pelo Paulo Henrique Amorim (justo quem), até a cegueira coletiva que se instaurou em partes do país com relação a problemas no governo Lula (que existiram independentemente dos pontos positivos das duas gestões. E que foram destacados, sim, pela imprensa, porque esse é o papel da imprensa.).

Sim, porque o que há é uma orquestração. A imprensa burguesa versus os esquerdistas mais autoritários versus os direitistas atucanados.

O negócio é o seguinte, penso eu: as sociedades mais avançadas do mundo possuem mídias e imprensas de todos os matizes ideológicos e a riqueza daquelas democracias está justamente em existir esse farto acesso a informações de todos os tipos para os cidadãos. No Brasil, temos poucos grupos de mídia com poder concentrado (muitos dos quais pertencentes a famílias de políticos e coronéis) e uma blogosfera que, na maior parte das vezes, está dominada por personagens daquelas mesmas mídias, em termos de relevância do trabalho feito e da repercussão que conseguem obter com os posts. Não é o ideal? Provável que não. Seria legal se tivéssemos 500 grupos de jornalismo com poderio econômico suficiente pra manter uma Redação cheia de bons repórteres investigativos, que pudessem trazer informação de qualidade ao povo.

Mas estamos falando de Brasil, um país com poucos leitores e até mesmo poucos letrados, no sentido pleno da palavra. E estamos em plena crise das Redações tradicionais, que estão demitindo boas pessoas, se enxugando, trazendo cada vez menos furos relevantes e, infelizmente, sem nenhuma contrapartida na tal da internet “livre”, uma vez que os bons jornalistas ainda não aprenderam a se sustentar na rede e continuar fazendo o que tinham condições de fazer numa grande Redação.

Ou seja, esse mundo ideal não existe, meus amigos. Então temos pelo menos que desejar o fortalecimento das atuais Redações que já estão bem estabelecidas, e cobrar delas um trabalho de qualidade e com o máximo de pluralismo possível. Que coexistam Veja, Carta Capital, Época, Piauí, Folha, Estadão, Super, Valor, Caros Amigos etc. E que esses grupos coexistam com os blogs, inclusive, que têm recebido publicidade do governo do mesmo jeito que os grandes. Os leitores não são burros: que eles tenham discernimento para ler todos os tipos de informação e tirar as conclusões que quiserem. E que os orquestradores, em vez de acharem que todo jornal que bate no governo (atualmente, no Lula/Dilma) não presta, dediquem meia hora de seu dia para, pelo menos, lerem aquilo que querem criticar, para criticarem com mais razão o que precisa ser criticado. Em vez de desrespeitarem o trabalho de pessoas sérias que querem fazer jornalismo sério, inclusive.

Eu nem ia postar nada hoje, porque estou de folga depois de um plantão, mas um artigo do Eugênio Bucci que li à tarde me inspirou. Ia só colocar o link para ele aqui, mas empolguei. Agora é tarde, não vou deletar. Mas ainda vale ler o que ele diz, porque ele demonstra, com maestria, que essa orquestração não é nova e já ocorreu, por exemplo, na ditadura militar brasileira. A diferença é que antes os interessados em enfraquecer a imprensa eram os milicos e seus adeptos. E hoje são os adeptos do atual governo federal. O resultado é o mesmo em ambos os momentos: ruim para a democracia (como lembrou a própria Dilma), bom para o autoritarismo e para a corrupção.

Quando são não-jornalistas a acharem que jornalismo tem que adular governo, tudo bem, a gente entende. Mas jornalistas que fazem isso, que vêm perguntar por que só agora Henrique Alves aparece nas pautas das Redações etc, ou não conhecem sua própria profissão ou estão agindo de má-fé, no mesmo esquema que aconteceu durante a era Figueiredo, como mostra agora Bucci. Com esses, nem perco meu tempo. Com aqueles, ainda discuto, e sempre vou discutir. Porque uma das minhas missões na vida é mostrar que jornalista tem que fiscalizar a situação, seja ela de que partido for. O resto, meus amigos, é assessoria de imprensa.

CLIQUEM AQUI para ler o texto do Bucci.

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